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Crítica | Desventuras em Série – 2ª Temporada

por Gabriel Carvalho
113 views (a partir de agosto de 2020)

Desventuras em Série é um seriado atípico. A própria estrutura de cada temporada já não nos permite olhá-lo como olhamos para outras séries. A questão é que, dividindo os arcos em blocos de dois episódios, a ironia está presente justamente na repetição de um conjunto gigantesco de eventos infortúnios. Os irmãos Baudelaire chegam em um novo cenário, personagens inéditos dão as caras, o Conde Olaf (Neil Patrick Harris) retorna em um disfarce excêntrico – e uma performance sensacional (a minha preferida dessa temporada foi a do detetive), grandiosas sequências musicais (a minha preferida dessa temporada foi a do Espetáculo Carnívoro), mas ninguém o percebe logo de cara, gerando mais episódios de tristeza e sofrimento. E quanta “tristeza”! Com um humor afiadíssimo, que não nos faz gargalhar, sejamos honestos, mas cria uma atmosfera surreal extremamente convidativa e desconvidativa, agradável e desagradável de acompanhar, sendo os fortes os únicos capazes de acompanhar tantas desventuras, o trio definitivamente passará por situações ainda mais dolorosas que as anteriores, mas nada que quebre o tom da temporada, abrindo buracos de drama pesado no meio de tanta leveza auto-crítica. Muito pelo contrário, é a própria presença de Lemony Snicket (Patrick Warburton), narrador da série e pseudônimo adotado pelo autor dos livros, que garante tanto as doses de chamadas para o desastre, prenúncios de desventuras em série, quanto as ondas de aleatoriedades em metáforas sem pé nem cabeça. O narrador, dessa vez, ainda está muito mais envolvido com os acontecimentos, o que o torna ainda mais interessante; uma das peças-chaves para o funcionamento da segunda temporada de Desventuras em Série.

Todavia, nem tudo são flores quando mais quatro segmentos de dois episódios cada adotam a mesma linha narrativa dos da temporada passada, criando um ciclo exaustivo, não necessariamente da narrativa, mas do que acontece com os personagens e quem eles se tornam, se é que eles se tornam algo a mais do que já eram. Com exceção da bibliotecária (Sara Rue) e de Esmé Squalor (Lucy Punch), não há um mínimo de desenvolvimento de personagem e isso inclui o trio principal. Por falar neles, mesmo que os atores sejam eficazes em transmitir cada personalidade de uma forma adequada, os papéis não passam de artifícios narrativos ambulantes, visto que a história não serve para desenvolver os três, mas os três são usados para desenvolver a história, criando aparatos tecnológicos ou tomando decisões que levam a consequências necessárias para o progresso. A relação entre eles também é um adendo negativo. Quando o seriado teria aproveitado muito mais uma troca de cenário também com uma troca de interações, podendo separar os irmãos e colocar os trigêmeos Quagmire para se relacionar mais efetivamente com os protagonistas individualmente, os três permanecem juntos a temporada inteira, não criando novidades nas conexões estabelecidas. O carinho e afeto que um nutre pelo outro, nessa altura do campeonato, é redundante, não enaltecendo novidades e camadas nas conexões. De qualquer forma, os irmãos Baudelaire funcionam como irmãos Baudelaire, mas não como indivíduos. Sunny (Presley Smith), no entanto, dá margem para a melhor piada de toda a série: o crescimento, de uma temporada para outra, da atriz, inevitável, é explicado rapidamente, mas de uma maneira sensacional.

Felizmente, cada uma das quatro partes tem suas peculiaridades e o entrelaçamento de mistérios vai ficando mais evidente, instigando a curiosidade do espectador. Sendo assim, podemos dizer que na segunda temporada muito mais coisa importante acontece na vida dos Baudelaire, tanto coisas positivas quanto negativas. Especialmente, as coisas negativas que vão ganhando proporções catastróficas. A incapacidade das pessoas ao redor dos nossos protagonistas não perceberem as tramoias do Conde Olaf continua. O Sr. Poe (K. Todd Freeman), aliás, é o ápice dessa ignorância do povo. A cada omissão de uma sagacidade para perceber o perceptível mais consequências surgem para as crianças, ainda mais sérias que a mera mudança de tutores. É legal notar como subitamente, em raríssimas ocasiões, a voz da razão lhe sobre a cabeça. Os únicos que percebem a maleficência debaixo de trajes curiosos são os voluntários, personagens em uma rota de mistério que vai se desenvolvendo lentamente, mas eficientemente pelos dez episódios, mas que não serão explorados na crítica para evitar spoilers. No mais, com tanta adição de novas figurinhas para esse álbum de loucuras e desventuras, há de se enaltecer o excelente trabalho de Nathan Fillion como Jacques Snicket, irmão de Lemony, que desempenha um trabalho consideravelmente breve, mas engrandecido pela narração de Lemony e pelas constantes referências que um faz do outro. Em suma, acaba sendo até mesmo tocante a jornada do herói com cara de francês. Dos dispensáveis, Carmelita Spats (Kitana Turnbull) é tão irritante, mas tão irritante, que acaba sendo fiel ao seu propósito dentro da série: ser irritante.

Desventuras em Série, contudo, é um seriado de pequenos momentos, pequenos detalhes, e a segunda temporada está recheada destes. Notem como mais uma vez a localização temporal é impossível, dada a existência de tecnologias anacrônicas em um cenário quase retro-futurista. É certamente um sinal de um mundo irreal, assim como as pessoas deste são movidas por comportamentos instáveis, impossíveis de estabelecer uma coesão. Os Cultores Solidários de Corvídeos e suas regras intermináveis, além do anseio desenfreável por queimar crianças (uma mudança hilária e surreal de uma pena que deveria ser apenas uma multa) são um sinônimo disso. Ademais, referências a cultura popular, como a citação de versos de Wannabe, das Spice Girls, além de uma clara alusão a O Iluminado (a trupe do Conde Olaf continua hilária) moldam uma temporada de grandes altos. Outrossim, a fotografia aproveita muito bem a estranheza dos cenários, alguns muitas vezes inóspitos (percebam como demora para aparecer mais pessoas tanto na vila quanto no hospital, não dando margem para uma sensação de realidade), mesmo que a computação gráfica tenha os seus baixos. Os figurinos, entretanto, são impecáveis. Com tantos toques de genialidade, que vão além dos deméritos evidentes em construção de personagem e até em ritmo de evolução do mistério, melhor que o da temporada anterior mas ainda não o ideal, a série ousa terminar em um cliffhanger, literal e figurativo. Agora é esperar ansiosamente (ou seria nervosamente) a terceira – e provavelmente última – temporada de uma série, não perfeita, mas definitivamente gostosa de acompanhar para quem tem os nervos necessários. Para quem não tem, é melhor não olhar.

Desventuras em Série (A Series of Unfortunate Events) – 2ª Temporada – EUA, 2018
Criado por: Mark Hudis, Barry Sonnenfeld, baseado nos livros de Lemony Snicket
Direção: Barry Sonnenfeld, Bo Welch, Alan Arkush, Loni Peristere
Roteiro: Joe Tracz, Daniel Handler, Sigrid Gilmer, Joshua Conkel
Elenco: Neil Patrick Harris, Patrick Warburton, Malina Weissman, Louis Hynes, K. Todd Freeman, Presley Smith, Lucy Punch, Dylan Kingwell, Avi Lake, Usman Ally, Matty Cardarople, Cleo King, John DeSantis, Jacqueline Robbins, Joyce Robbins, Sara Canning, Patrick Breen, Sara Rue, Nathan Fillion, Roger Bart, Kitana Turnbull, Malcolm Stewart, BJ Harrison, Barry Sonnenfeld, Tony Hale, Mindy Sterling, Carol Mansell, Ithamar Enriquez, Ken Jenkins, John Bobek, Kerri Kenney-Silver, David Alan Grier, Robbie Amell, Kevin Cahoon, Bonnie Morgan, Allison Williams
Duração: 10 episódios de cerca de 50 min. cada

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20 comentários

Régis Valker 25 de abril de 2018 - 03:19

eu aceitei a proprosta da serie, mas vou dizer a verdade, dormi muitoooo
a primeira temporada em si é muito boa, ja a segunda deixa de ser a melhor pra ser cansativa, infelizmente.
Muito episodio da mesma historinha… ficou chato na minha opniao, nem consegui ver os 5 ultimos episodios :/

Responder
Régis Valker 25 de abril de 2018 - 03:19

eu aceitei a proprosta da serie, mas vou dizer a verdade, dormi muitoooo
a primeira temporada em si é muito boa, ja a segunda deixa de ser a melhor pra ser cansativa, infelizmente.
Muito episodio da mesma historinha… ficou chato na minha opniao, nem consegui ver os 5 ultimos episodios :/

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Massi Marques 22 de abril de 2018 - 13:17

Para gostar de uma série, tem que estar aberto à proposta da série. Considero toda a maluquice nonsense o grande atrativo para vê-la. Os atores mirins são perfeitos, embora realmente não sejam tão explorados. A fotografia e figurinos são belíssimos, e apesar da repetição nos arcos, o mistério só avança, nos deixando mais curiosos. Que venha a 3ª temporada para acabar com as desventuras dos pobres Baudelaires…ou não.

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Massi Marques 22 de abril de 2018 - 13:17

Para gostar de uma série, tem que estar aberto à proposta da série. Considero toda a maluquice nonsense o grande atrativo para vê-la. Os atores mirins são perfeitos, embora realmente não sejam tão explorados. A fotografia e figurinos são belíssimos, e apesar da repetição nos arcos, o mistério só avança, nos deixando mais curiosos. Que venha a 3ª temporada para acabar com as desventuras dos pobres Baudelaires…ou não.

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vc falou em pipoca? 16 de abril de 2018 - 03:16

No momento que você aceita que só dá merda na vida dos baudelaire é sim possível rir dos diversos maneirismos do conde olaf, dos adultos neuróticos e da onipresença omissa do sr.poe, pelo menos comigo foi assim. Quero destacar que essa temporada teve os melhores disfarces até agora, e não foram só do olaf, e mesmo que os irmãos não tenham recebido maior desenvolvimento eu ainda me divirto acompanhando a dinâmica deles e suas reações ao desastre parecem autênticas, por mais repetitivas que sejam, mas as ideias que você deu pra deixar isso melhor teriam realmente dado bons frutos.

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Marta Souza 2 de abril de 2018 - 13:58

Eu gostei da temporada, mas teve momentos que me me chateou demais os obstáculos que eles passam. Uma cara estranha de coisa forçada. Mas no todo, foi uma boa temporada.
Adorei a crítica.

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Fórmula Finesse 2 de abril de 2018 - 11:49

Minhas crianças adoram! Já eu não consigo deglutir tanto personagem estranho, exagerado e aquele cenário Burton light…mas admito que o estranho ali sou eu por não querer entender (preguiça, gosto, “química”…etc) o cerne da obra – rsrsrsrs

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JJL_ aranha superior 16 de abril de 2018 - 03:18

Eu adoro essa pegada família addams, se fizessem mais filmes/séries assim eu assistiria sempre, e se conhecesse livros com esse formato possivelmente colecionaria, a menos que seja uma série grande como essa.

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vc falou em pipoca? 16 de abril de 2018 - 03:18

Eu adoro essa pegada família addams, se fizessem mais filmes/séries assim eu assistiria sempre, e se conhecesse livros com esse formato possivelmente colecionaria, a menos que seja uma série grande como essa.

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Fórmula Finesse 2 de abril de 2018 - 11:49

Minhas crianças adoram! Já eu não consigo deglutir tanto personagem estranho, exagerado e aquele cenário Burton light…mas admito que o estranho ali sou eu por não querer entender (preguiça, gosto, “química”…etc) o cerne da obra – rsrsrsrs

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Camilo Mateus 2 de abril de 2018 - 08:43

realmente, Gabriel, a narrativa repetitiva é mais desgastante na TV do que nos livros, embora no último caso seja uma parte crucial da mensagem da obra.

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Camilo Mateus 2 de abril de 2018 - 08:43

realmente, Gabriel, a narrativa repetitiva é mais desgastante na TV do que nos livros, embora no último caso seja uma parte crucial da mensagem da obra.

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Matheus Mendes 1 de abril de 2018 - 23:59

Gostei muito da sua crítica… E realmente a história é essa mesmo… Não há muito o q se desenvolver dos personagens, até o final da história o foco principal, talvez, seja esse enigma da CSC ou VDF (inglês). Basicamente até a última história vai ser assim. Novos personagens surgirão, e os orfãos se tornarão cada vez mais independentes dos tutores… A série deixa bem mais empolgante, pois desde o início nos trás essa conexão com os voluntários e a CSC, o q nos livros só nos é apresentado bem mais tarde esses enigmas…

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Anônimo 1 de abril de 2018 - 17:05
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Gabriel Carvalho 1 de abril de 2018 - 17:28

Eu não cheguei a pensar profundamente sobre rating separado das duplas de episódios, mas se fosse para definir o meu favorito este foi O Espetáculo Carnívoro, seguido da Cidade Sinistra dos Corvos. Creio que ficaria mais ou menos assim. Eu definitivamente não gosto do Vice-Diretor e aquele violino safado.

Inferno no Colégio Interno – 3 estrelas
O Elevador Ersatz – 3,5 estrelas
A Cidade Sinistra dos Corvos – 4 estrelas
O Hospital Hostil – 3,5 estrelas
O Espetáculo Carnívoro – 4,5 estrelas

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Anônimo 1 de abril de 2018 - 19:20
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Francisco 1 de abril de 2018 - 16:29

Sobre o anacronismo da série, realmente era o que mais me chamava atenção. Passei um bom tempo tentando entender em que época a série se passava até me tocar disso kkk

Responder
Gabriel Carvalho 1 de abril de 2018 - 17:19

Hahahahahahahaha. Mesma coisa aqui.

Responder
Gabriel Carvalho 1 de abril de 2018 - 17:19

Hahahahahahahaha. Mesma coisa aqui.

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Francisco 1 de abril de 2018 - 16:29

Sobre o anacronismo da série, realmente era o que mais me chamava atenção. Passei um bom tempo tentando entender em que época a série se passava até me tocar disso kkk

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