Crítica | Desventuras em Série – 3ª Temporada

“Para Beatrice.”

Contém spoilers.

Lemony Snicket (Patrick Warburton) nos adiantou por todos os episódios da série Desventuras em Série, programa enfim chegando ao seu fim, que os estimados finais felizes, a ideia de uma conclusão harmoniosa, não existiriam por aqui, ou seja, era melhor parar de olhar a derrocada dos irmãos Baudelaire. Mesmo assim, nunca foi realmente previsível o término da série vir carregado de um teor tão agridoce, que não é realmente triste porque as temporadas sempre foram muito mais tristes e frustrantes, mas muito menos feliz, porque felicidade é uma coisa meio impossível para uma narrativa permeada por assassinatos, pontas não resolvidas, tragédias, romances inacabados, entre outras coisas. A adaptação da série de literatura também decide adicionar uma resolução mais expandida ao fim, em comparação ao original, que pode até mesmo ser considerada superior, por conseguir unir a narrativa principal com a verborrágica narração contínua de Lemony Snicket, um personagem ganhando mais espaço e até conquistando-nos, ultimamente.

Os dois episódios iniciais, relacionado ao Escorregador de Gelo, já desempenham pontuais ações que preparam o terreno escorregadio para as conclusões chorosas da série em questão. O massacre em off dos três artistas de circo, apresentados na temporada anterior, é um pouco demais, porque soa como três personagens sendo completamente desperdiçados, assim como uma conclusão de mau-gosto para uma narrativa já entristecida, acerca de jovens renegados pela sociedade por serem bizarros e, como resolução de seus arcos, morrerem cruelmente – ainda com um viés cômico na cena. A apresentação do homem com barba mas sem cabelo e da mulher com cabelo mas sem barba, antagonistas vis, em contrapartida, é impulsionada por esse acontecimento, que se estenderá até os capítulos referentes ao último momento de esperança da série, no interior do Hotel Desenlace, onde os Baudelaire possuirão a chance de usufruir de uma vida pacata, após tantas desventuras em série. Os sonhos serão chamas, e as esperanças, cinzas.

A terceira temporada do seriado nos convence completamente, agora emocionalmente, dos inúmeros infortúnios, mais do que antes. As reviravoltas, mais tímidas, também ajudam nessa caminhada pela desgraça, enaltecendo uma carga dramática justamente por confirmar a bondade de certos personagens. “Nunca mais veria minha irmã novamente”, aponta Lemony Snicket em narração, referindo-se a Kit Snicket (Allison Williams). Quando os capítulos do Hotel Desenlace começam, imaginamos verdadeiramente que a personagem virou a casaca, tornando-se uma inimiga, em decorrência da jogada com os irmãos gêmeos Denouement, posteriormente transformando-se em trigêmeos Denouement. A morte de Dewey (Max Greenfield), acompanhada de um belíssimo plano que revela a biblioteca submersa, nunca mostrada em toda a sua grandiosidade, apenas sugerida com esse enquadramento e as incontáveis referências, é uma tragédia muito maior que a culpa ser, novamente, posta sobre os ombros dessas pobres crianças.

O quão é brega – e engraçado – todo mundo ser irmão de todo mundo? Agora, muito mais do que gêmeos e trigêmeos existirem tão facilmente, também temos descobertas de novas irmandades, como é o caso do Homem com Mãos de Gancho (Usman Ally), personagem conseguindo até mesmo um passado, uma importância inesperada que contrasta com outros coadjuvantes da série, escanteados pela série – o caso de Larry, Seu Garçom, por exemplo, morto indiscriminadamente. Os passados nos ajudam a compreendermos que existe uma ambiguidade moral sendo construída, aparentemente – no caso do Homem com Mãos de Gancho, funciona -, contudo, nem sei se parte dos livros essas contradições, mas a C.S.C não é colocada realmente a prova. O incidente no passado, por exemplo, é simplesmente um equívoco ordinário. Já o que ajudaria os espectadores a acreditarem nos antagonistas como personagens menos maniqueístas viria de relacionamentos consolidados, como é o caso do Conde Olaf (Neil Patrick Harris) com Kit Snicket, paixão que nunca é colocada para ser repensada até a chegada da conclusão do arco de ambos.

Mas é tanta ironia, tanta desgraça, tanta perdição, tanto humor subvertido, que, no final das contas, Desventuras em Série se sustenta mesmo com os seus equívocos narrativos. A temporada final, continuando com os seus cenários extravagantes, os seus excelentes figurinos e a sua artificial computação gráfica, poderia ser maior, com mais retornos ao passado, um aprofundamento na cisão, no entanto, o que sobra é convenientemente frustrante – o açucareiro que não é resgatado, o futuro depois da ilha que nunca é contado. Os Baudelaire crescem, entendem o quão desafortunados são. Um parto como uma mudança de perspectiva, de meras crianças que agora precisam cuidar de uma outra, Beatrice. A construção de uma adoração a essa personagem, a esse nome, é muito competente, pois partiu das introduções exibidas ao começo de cada um dos arcos. Lemony Snicket é realmente um personagem central a isso tudo, a esse sentimento que culmina com o fim, mesmo que a parte da narrativa, estando em outro tempo e outros espaços.

Quando, em meio a tantos desastres e caos, é apontado, pelo narrador, alguns casos de sucesso, mesmo os efêmeros, retomando o que aconteceria com a trupe de criminosos, com o submarino Queequeg, ou com os trigêmeos Quagmire, sugerem-se conclusões harmoniosas, mas não para sempre. Um dos momentos mais certeiros de um texto exímio que Patrick Warburton, em um dos melhores papéis de sua carreira, expõe com tanto cuidado, aponta que esses términos não são finais felizes, porque finais felizes não existem. Quando o narrador para de contar uma história, a narrativa ainda continua, os casamentos poderão ser desmanchados, crianças poderão se tornar órfãs e condes terão a chance de um único ato de bondade em sua vida. As situações alegres são possíveis, já a felicidade não, mas por que a tristeza necessariamente para substituir um sentimento bom e eterno? Ainda poderemos contar boas histórias no final das contas, trocar experiências e sorrir uns para os outros, relembrando o passado em qualquer mesa de lanchonete.

Desventuras em Série (A Series of Unfortunate Events) – 3ª Temporada – EUA, 2019
Criado por: Mark Hudis, Barry Sonnenfeld (baseado nos livros de Lemony Snicket)
Direção: Jonathan Teplitzky, Liza Johnson, Liza Johnson,  Barry Sonnenfeld, Bo Welch
Roteiro: Daniel Handler, Joshua Conkel, Sigrid Gilmer, Joe Tracz
Elenco: Neil Patrick Harris, Patrick Warburton, Malina Weissman, Louis Hynes, K. Todd Freeman, Presley Smith, Lucy Punch, Dylan Kingwell, Avi Lake, Usman Ally, Matty Cardarople, Cleo King, John DeSantis, Jacqueline Robbins, Joyce Robbins, Patrick Breen, Roger Bart, Kitana Turnbull, Malcolm Stewart, BJ Harrison, Barry Sonnenfeld, Tony Hale, Mindy Sterling, Carol Mansell, Ithamar Enriquez, Ken Jenkins, John Bobek, Kerri Kenney-Silver, David Alan Grier, Robbie Amell, Kevin Cahoon, Bonnie Morgan, Allison Williams, Richard E. Grant, Beth Grant, Max Greenfield, Morena Baccarin, Kassius Nelson, Eric Keenleyside, Peter MacNicol
Duração: 7 episódios de cerca de 50 min. cada

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.