Crítica | Detective Comics #1000

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Ao lado da Action Comics, que em abril de 2018 também comemorou a sua milésima edição, a revista Detective Comics é a principal publicação da DC, editora cuja sigla vem justamente do nome “Detective Comics“. Ela surgiu como uma propriedade da então National Allied Publications, tendo em seu número de estreia a data de capa de março de 1937.

Na edição #27 da revista (data de capa: maio de 1939, mas o volume chegou às bancas em 30 de março), apareceu uma aventura que definitivamente entraria para a História da nona arte: O Caso do Sindicato dos Químicos. Com roteiro de Bill Finger, desenhos e letras de Bob Kane e editoria de Vincent Sullivan, essa trama marcaria a estreia de um herói chamado “The Bat-Man”. O resto, vocês já sabem…

Hoje, 27 de março de 2018, tenho o prazer de fazer a crítica para esta edição #1000 da longeva, fértil e histórica Detective Comics, que vem também na esteira de comemoração dos 80 anos de criação do Batman. Pois aqui está mais uma porção de histórias para contar. Abaixo, os comentários para cada uma das aventuras que formam essa comemorativa antologia.

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Batman’s Longest Case

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Uma saga metalinguística, em sua essência, e boa escolha para abrir um volume de comemoração sobre o Batman, tendo em cena uma revista de nome Detective Comics. Aqui, Scott Snyder (ao lado de Greg CapulloJonathan Glapion) realizam um bom trabalho ao engajar o Morcegão em longas jornadas de busca por respostas, com uma revelação surpreendente — de diversas formas — no final. A grande questão é que o verdadeiro encerramento do conto tem uma cara anticlimática imensa, porque não compensa em nada a tal busca do Grande Detetive. Para uma caminhada de várias etapas, no decorrer de anos e por tantos lugares do mundo, do início da carreira do Morcego até o “momento presente”, esperava-se um ponto detetivesco mais bojudo no final, mesmo que fosse dentro dessa ‘Guilda de Detecção’. Ao menos a grande lição de que “Batman não sabe de tudo” é bem aplicada aqui. E como sempre, nesses momentos, o herói fica absolutamente perdido e sem graça.

Roteiro: Scott Snyder
Arte: Greg Capullo
Arte-final: Jonathan Glapion
Cores: FCO Plascencia
Letras: Tom Napolitano

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Manufacture for Use

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Eu confesso que, exceto pela arte de Jim Lee, que é sempre um prazer para os olhos (e eu não sei vocês, mas quando eu vejo que ele assina a arte, já fico de sobreaviso, pensando: “meu Deus, será que essa artezona maravilhosa estará aqui só disfarçando um roteiro cheio de problemas?“), eu estava pronto para odiar essa trama até que ela revela o ouro e mostra realmente a que veio. Kevin Smith escreve um texto que, por se tratar de Batman, é bastante sintomático: estrada de luta contra o crime e um mistério costurando diversas cenas de luta. Mas até que a grande motivação venha, a sequência é só isso mesmo: um desfile aplaudível de diversos momentos já conhecidos da carreira do Batman contra vilões de sua galeria ao longo de todo esse tempo. Então a busca que é narrada em off se finaliza. Uma peça do uniforme é manufaturada e a gente entende tudo. Sugiro que vocês voltem a história algumas páginas, para ver as brincadeiras que Lee e Scott Williams fazem com os desenhos aqui, ressaltando a temática de transformação, de reconstrução de um metal. No final, a mensagem é bonita, mas eu preferiria que a narrativa tivesse sido feita de maneira a não fazer a história parecer um acumulado de cenas desconexas da vida do Cavaleiro das Trevas.

Roteiro: Kevin Smith
Arte: Jim Lee
Arte-final: Scott Williams
Cores: Alex Sinclair
Letras: Todd Klein

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The Legend of Knute Brody

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Em muitos aspectos, essa história se parece com a distração adotada por Kevin Smith em Manufacture for Use. Mas nessa The Legend of Knute BrodyPaul Dini não fala de algo sério. Seu conto é uma comédia de situação que está mais claro que seu primo de estrutura narrativa anterior, mas acaba sofrendo do mesmo problema final, demorando para se revelar a contento e, quando o faz, parece que falta algo para sustentar bem essa nova camada que o texto está entregando. Envolvendo diversos membros da Batfamília e diversos vilões da galeria do Batman, a história é uma genuína homenagem às mais estranhas concepções de roteiro da Era de Ouro e da Era de Prata, dando uma justificativa plausível para o fato dessas coisas terem acontecido. A arte de Dustin Nguyen, finalizada por Derek Fridolfs (ambos da ótima Pequena Gotham) faz um bom trabalho em ressaltar a parte bobona do tal Knute Brody em ação, tornando-se o pesadelo de todos os vilões que precisavam de uma ajudinha extra. Uma maior conexão no meio da trama não estragaria a surpresa e ainda faria tudo colocar-se mais firmemente com os pés no chão. Mesmo assim, a história é boa e garante umas boas risadas na cena final.

Roteiro: Paul Dini
Arte: Dustin Nguyen
Arte-final: Derek Fridolfs
Cores: John Kalisz
Letras: Steve Wands

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The Batman’s Design

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Warren Ellis escreve aqui uma daquelas histórias que nos fazem pensar no real motivo de alguns escritores decidirem falar de maneira mais filosófica, profunda, íntima sobre algo e misturar tendências demais a ponto de o soneto sair pior que a emenda. A história de um plano bem pensado pelo maior detetive do mundo não é novidade para nós, então o que de fato se torna interessante aqui, além da arte de Becky Cloonan, que realmente me agradou, é o tratamento diferente que o Morcegão dá ao bandido no encerramento, com um outro caminho utilizado para que o vilão se entregasse. Pensando assim, até parece algo extraordinário, mas realmente não é. E me dói dizer isso de Warren Ellis, mas a trama espertinha que ele cria aqui só tem mesmo de chamativo o final e, mesmo nesse caso, a ideia acaba não se conectando bem ao restante, fazendo-nos questionar, inclusive, a informação dada sobre o terrorista no próprio roteiro. Uma pena.

Roteiro: Warren Ellis
Arte: Becky Cloonan
Arte-final: Becky Cloonan
Cores: Jordie Bellaire
Letras: Simon Bowland

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Return to Crime Alley

Return to Crime Alley

Em 1976, Dennis O’Neil escreveu There is No Hope in Crime Alley, na Detective Comics #457. Nesta edição comemorativa, 43 anos dois, o autor volta em uma espécie de continuação, agora com arte de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. A trama tem uma premissa que nos engana brevemente e coloca o Batman (mais uma vez!) no Beco do Crime, onde Thomas e Martha Wayne foram mortos. O trauma de Bruce se reflete nessa história em uma ação desmedida de Batman na frente de Leslie Thompkins, que ressalta o que ela estava dizendo de pesado para o herói. Mas tudo isso acaba em um beco sem saída. Conhecendo as preferências narrativas de O’Neil, que escreveu essa história poucos meses antes de completar 80 anos, dá para entender a amargura do final, mas pela maneira incompleta como a história termina, o leitor certamente percebe que esse tipo de escolha não funcionou. O autor bem que poderia olhar com um pouquinho menos de cinismo e verdadeiramente finalizar a trama.

Roteiro: Dennis O’Neil
Arte: Steve Epting
Arte-final: Steve Epting
Cores: Elizabeth Breitweiser
Letras: Andworld Design

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Heretic

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Melhor história da coletânea até o momento, com fenomenal arte de Neal Adams e belíssimas cores de Dave Stewart, Heretic traz o complexo, dinâmico e sempre muito interessante jeito de Christopher Priest narrar histórias, costurando os diálogos e as boas cenas de luta com palavras-chave que ajudam a marcar o pensamento geral dos personagens e dar o tom daquela página, daquele bloco em questão. É uma pena que seja uma aventura curta (a indicação no final é ótima, por sinal, uma boa sacada do autor), porque a morte de um personagem aqui e a entrada de Batman na investigação parecem que tem muito mais a oferecer… Uma questão fica no ar: até onde vai e o que pode trazer de bom e ruim o dinheiro as Indústrias Wayne? Seria bom ver a continuação disso tudo em um arco maior.

Roteiro: Christopher Priest
Arte: Neal Adams
Arte-final: Neal Adams
Cores: Dave Stewart
Letras: Willie Schubert

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I Know

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Batman: Ano 80? Esta aventura de Brian Michael Bendis, ao lado de seu histórico parceiro, Alex Maleev, mostra a história de uma tragédia futura. Um Bruce Wayne velho, apto a receber visitas. Não são dadas informações sobre como ele chegou onde está. O que houve? Percebemos que ele se encontra em um hospital ou asilo. Numa cadeira de rodas motorizada. Então chega o Pinguim para fazer a grande revelação: ele sempre soube que Wayne era o Batman. E o conto se dedica a explorar essa história de uma forma muito típica dos discursos de Cobblepot, com direito a atropelos, onomatopeias e inteligência atrapalhada. É uma ótima trama de detetive, sob um ponto de vista bem diferente, mostrando, surpresa-surpresa, que mesmo velho e parcialmente incapacitado, Wayne ainda tem um trunfo na manga e continua sabendo de muitas coisas.

Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Alex Maleev
Arte-final: Alex Maleev
Cores: Alex Maleev
Letras: Josh Reed

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The Last Crime in Gotham

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Maldito Geoff Johns! Esse cara é um contador de histórias muito imprevisível, cheio de coisas interessantes para colocar na linha dos personagens que pega. E nessa aventura não é diferente. Quando eu vi o título da história e olhei para quem tinha escrito, confesso que tive medo. Imaginei que Johns fosse tentar desbravar um caminho épico para algo que, se acontecer, certamente deve colocar o Batman em aposentadoria. E isso feito sem o devido cuidado vai ficar apenas parecendo uma fanfic de cansaço de ação e narrativa com moral de “dever cumprido”, o que seria bastante patético. Mas o autor não cai nessa armadilha. Ao lado de Kelley Jones (de quem gosto apenas parcialmente da arte, nessa história) e Michelle Madsen nas cores, Johns cria a motivação certa e constrói o cenário mais convincente possível para o evento do “último crime em Gotham”. É uma história maluca, pesada, triste, mas ao mesmo tempo dá uma sensação de dever cumprido e até de legado e benfeitoria para o mundo que é algo impressionante. Pelo caráter de futuro da trama e pela forma como o autor escolheu fazer o afastamento do Morcegão, esta com certeza está entre as mais interessantes — e até aqui, melhor da coletânea — história de reimaginação do Batman nos momentos finais de sua carreira.

Roteiro: Geoff Johns
Arte: Kelley Jones
Arte-final: Kelley Jones
Cores: Michelle Madsen
Letras: Rob Leigh

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The Precedent

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Uma bonita homenagem de James Tynion IV à dupla Batman e Robin. Abraça-se de forma bem ampla o ideal de homenagem da revista, com várias cenas do passado da dupla dinâmica, alternado tudo isso com uma narrativa de preocupação de Bruce (em conversa com Alfred) sobre um tal menino chamado Dick Grayson. O roteiro mostra o lado paterno de Bruce, realmente preocupado pelo que pode acontecer com o seu filho e, depois, alegre por perceber que ele pode seguir o mesmo caminho de vigilante mas, ainda assim, manter sua mentalidade luminosa. A participação de Alfred nessa história é essencial, cheia de bons conselhos e com uma boa linha de humor. Uma história sobre ter a coragem de dar o primeiro passo e ver a mágica acontecer.

Roteiro: James Tynion IV
Arte: Álvaro Martínez
Arte-final: Raúl Fernández
Cores: Brad Anderson
Letras: Sal Cipriano

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Batman’s Greatest Case

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Quem diria que eu leria algo bom de Tom King escrito em 2019, hein? Ora, ora ora… Que historinha sensacional essa aqui! E minha nota só não foi maior porque o final (mas final-final mesmo, os últimos quadros da aventura), quando a motivação por parte de tudo se revela, eu acabei achando um assunto batido para uma preparação tão boa e tão grande. A grande pérola desse roteiro, porém, são os diálogos de preparação. Que coisa maravilhosa de se ler! Capturando as várias nuances de personalidade dos membros da Batfamília, fazendo piadas, falando sobre parcerias e habilidades de um e outro, o texto cria muitíssimo bem o espaço para a fotografia que todo o grupo tira junto. É uma das sequências de preparação mais interessantes que eu já vi num quadrinho do Batman, tendo um objetivo simples como alvo. É realmente uma pena que o tal “caso do presente” seja, na verdade, “aquele caso traumático do passado”. Mas isso não consegue derrubar a qualidade da jornada, até que a justificativa se mostre definitivamente.

Roteiro: Tom King
Arte: Tony S. Daniel
Arte-final: Joëlle Jones
Cores: Tomeu Morey
Letras: Clayton Cowles

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Medieval

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É bem triste ver que em uma revista de comemoração a DC caia na besteira de colocar algo solto (embora belíssimo de se ver: palmas para a arte de Doug Mahnke, que também co-finaliza, ao lado de Jaime Mendoza) como o que temos nesse roteiro de Peter Tomasi: uma intro mal escolhida para a Detective Comics #1001. Tanto lugar para fazer propaganda, tanta possibilidade de contar uma história que “desse continuidade à revista“, tanta coisa para trazer para os leitores e realmente tiveram a coragem de terminar com isso… Simplesmente patética. Duas estrelas só pela arte mesmo, que é sensacional.

Roteiro: Peter Tomasi
Arte: Doug Mahnke
Arte-final: Jaime Mendoza, Doug Mahnke
Cores: David Baron
Letras: Rob Leigh

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Agora que chegamos ao fim, vão aqui algumas perguntinhas básicas. Quais foram as histórias que vocês mais gostaram dessa publicação? Curtiram a homenagem que a DC Comics fez para o Cavaleiro das Trevas? Esperavam algo diferente? Deixe os seus comentários sobre as aventuras que mais te chamaram a atenção ou que vocês não gostaram. E fale também sobre sua experiência pessoal com o Batman, comentando quando começaram a ler as histórias do Morcegão e se ele faz parte de sua lista de heróis favoritos.

Detective Comics Vol.1 #1000 (EUA, 27 de março de 2019)
Roteiro: Ver acima
Arte: Ver acima
Cores: Ver acima
Letras: Ver acima
Capa: Jim Lee, Scott Williams, Alex Sinclair
Editoria: Jamie S. Richm, Chris Conroy, Dave Wielgosz
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.