Crítica | Detective Comics #27 e 28: A Origem do Batman

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estrelas 3,5

A revista Detective Comics foi lançada em março de 1937, pela National Periodical (futura DC Comics). Em suas páginas, diversas histórias de ação e suspense recebiam destaque, abrindo caminho para os primeiros surtos de venda da editora que logo alcançaria grandioso sucesso. Em pouco mais de um ano desde o lançamento da Detective Comics, a National lançou oficialmente uma outra publicação, a Action Comics (junho de 1938), revista que já nasceu como um clássico da nona arte, trazendo a primeira aparição do Superman nos quadrinhos e estabelecendo um marco inicial para um grande momento das HQs, a chamada Era de Ouro.

Foi de olho nesse grande sucesso que a editora encomendou ao jovem cartunista Bob Kane um novo super-herói. A instrução era clara: o novo personagem deveria seguir mais ou menos o conceito do Homem de Aço. A intenção, certamente, era alavancar as vendas da Detective Comics, que ainda não tinha uma atração à altura do herói blockbuster da AC. Bob Kane aceitou o desafio e passou a trabalhar em um novo super-herói para a editora. Dos primeiros rabiscos que fez, saiu um certo Birdman, cuja ideia foi reformulada pelo cartunista, chagando então ao Batman, herói inspirado em A Máscara do Zorro, filme com Douglas Fairbakns; The Bat Whispers, filme de Roland West; e no “ornitóptero” de Da Vinci.

A finalização para o personagem veio com a chegada de Bill Finger para o processo de criação. O escritor ajudou Kane a definir a aparência e o caráter geral do Batman, além de escrever as primeiras histórias¹. Após a aprovação da editora, era chegado o momento do novo herói mostrar suas peripécias para o grande público. Assim, na Action Comics #27, o Homem Morcego aparecia pela primeira vez. O que seus criadores e editores não sabiam é que aquele personagem se tornaria um dos mais conhecidos e importantes super-heróis de todos os tempos.

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O Caso do Sindicato dos Químicos, história de abertura da Detective Comis #27, é a aventura que traz o Batman pela primeira vez aos quadrinhos, em maio de 1939. Se formos fazer uma comparação com o debut do Superman na Action Comics #1, temos aqui uma história levemente inferior no sentido narrativo, mas de significado muito mais maduro atmosfera mais envolvente. Nos primeiros quadros, Bruce Wayne está na casa de seu amigo, o Comissário Gordon. Os dois conversam e fumam despreocupadamente, quando o comissário recebe uma ligação que notifica a morte de um importante representante das indústrias químicas na cidade… Em um ótimo roteiro, Bill Finger consegue articular um suspense excelente, adicionando o filho e os sócios do falecido como possíveis suspeitos mas também como vítimas ameaçadas, o que acaba fazendo com que o Batman assuma as rédeas da investigação, indo atrás dos sócios, até que descobre o assassino e o mandante dos crimes.

Três mortes acontecem nessa aventura, sendo uma delas, algo realmente muito violento, típico de Gotham City: o vilão da história, Alfred Stryker, cai em um tanque de ácido após um “senhor soco” do Sr. Batman. Os desenhos e arte-final de Bob Kane são limpos e com linhas finas, lembrando um pouco a atmosfera vitoriana. Por falar nisso, Bruce Wayne nos faz lembrar bastante a postura clássica de um Sherlock Holmes, só que playboy e habitante de Gotham City, sempre bem vestido, de cachimbo e chapéu. Diferente do Batman, que é perseguido pela polícia já nesse início, Wayne é um cidadão respeitado e com amizades importantes na cidade, alguém totalmente fora de suspeita. Por isso, mesmo que essa revelação não seja novidade para o leitor, dá aquele friozinho de surpresa quando no último quadro da revista, o jovem milionário nos revela a sua identidade secreta. Surgia o Batman.

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Blake, o Ladrão de Jóias Francês

Detective Comics #28

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Mais um bom conto de Bill Finger. Embora seja um tanto inferior à primeira história, esse caso da gangue de joias de Blake, o francês, segura muito bem o clima de investigação e mostra a destreza do Batman, que mesmo sem poderes, é ágil, forte e inteligente, fazendo bom uso da tecnologia a seu favor. Para um leitor do século 21, é até simplório falar dessa questão tecnológica para uma revista de 1939, mas se considerarmos — como obrigatoriamente deve ser feito — o tempo em que foi escrita, nos depararemos com boas ideias de como alguém pode ser um super-herói mesmo sem super-poderes.

Aqui temos firmada a característica moral do Batman, um herói mascarado que, na verdade, é um entediado jovem milionário que procura fazer o bem e salvar vidas de uma Gotham criminosa e repleta de pessoas querendo levar vantagem em tudo, especialmente vantagem financeira — essa mesma situação o leitor vai encontrar nas histórias do Superman escritas na época. Como não podia deixar de ser, passada uma década depois da Grande Depressão, a força do capitalismo em reconstrução no país se fazia presente em tudo e um forte reflexo dessa situação nós acompanhamos como conceito narrativo para os roteiros desses quadrinhos. O que também salta aos olhos é que os bandidos de Gotham não são bandidos comuns. De uma forma geral, eles se encaixam mais na categoria “colarinho branco” do que na categoria de “ratos”.

Sem muito espaço para desenvolvimento da história, dado o pequeno número de páginas, Finger não perde tempo em tramas secundárias, mostrando o Batman como um “policial incomum”, combatendo pequenos crimes cotidianos, evitando assaltos e coisas do tipo. O Homem Morcego passa a ter grande influência sobre a vida de Gotham porque os crimes que combate são arquitetados por pessoas que realmente podem mudar a estrutura e o funcionamento da cidade. Não temos indicações sobre a vida pessoal ou familiar do herói. Ele parece realmente solitário, tendo o Comissário Gordon como único amigo. Não é de se espantar que ele faça uso de seu dinheiro para combater o crime. Uma atitude que geraria uma legião de inimigos.

1 – Bill Finger nunca foi creditado em vida como co-criador do Batman.

Detective Comics #27 e 28 (EUA, maio e junho de 1939)
No Brasil:
Ebal (1974), Nova Sampa (1995), Abril (1989, 1995), Panini (2007, 2010, 2011), Eaglemoss (2014)
Roteiro: Bill Finger
Arte: Bob Kane
Letras: Bob Kane
Capas: Bob Kane
Editoria: Vincent Sullivan
24 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.