Crítica | Detective Comics #29 a 32: Primeira Aparição de Dr. Morte e O Monge

Esse conjunto de edições da Detective Comics traz o primeiro vilão recorrente nas revistas do Homem Morcego, o Dr. Karl Hellfern, mais conhecido como Dr. Morte. As histórias não são mais assinadas por Bill Finger e sim por Gardner Fox, que conferiu às aventuras um tom diferente dos contos anteriores, enveredando pelo caminho do horror e da ciência, acompanhando o primeiro vilão dessa fase. A narrativa é um pouco truncada, e o roteirista não conseguiu fazer bom uso das páginas a mais que a revista ganhou, mesmo assim, escreveu uma história com bastante ação e mostrou o Batman ferido pela primeira vez, com um tiro no ombro.

O que é interessante na edição #29 é o primeiro estabelecimento de um arco de histórias, já que nas revistas anteriores isso não tinha acontecido. A dúvida sobre o destino do Dr. Morte é deixada no ar, uma boa criação de suspense que certamente fez muita gente comprar a edição seguinte só para ver o que aconteceria depois do incêndio no laboratório. A arte de Bob Kane ganhou um tratamento mais sombrio, com linhas mais grossas e muitas sombras. Definitivamente o Batman e seu mundo ganhavam a famosa atmosfera “das trevas”, firmando cada vez mais a sua identidade visual única.

Como já era esperado, o Dr. Morte sobreviveu ao incêndio da edição #29 e, na revista seguinte, assume o papel de um ladrãozinho barato, orientando seu lacaio Mikhail a fazer pequenos roubos. O objetivo do doutor é recuperar o dinheiro que perdeu no seu tratamento e, por isso, rastreia vítimas improváveis e pacatas para não chamar atenção. O problema é que uma das mortes cometidas é publicada no jornal como informativo de investigação da polícia e é então que Bruce Wayne toma nota do caso e resolve investigar.

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Comparado aos contos anteriores, percebemos que o problema a ser resolvido aqui é muito menor e mais fácil para o Batman. Aparentemente, trata-se de uma edição pouco interessante, com o mínimo de emoção e um tanto fora dos padrões mais ousados que o Homem Morcego já tivera contato. Em parte, isso é verdade. Nos três contos anteriores o herói teve um melhor trabalho, as ameaças eram mais amplas, iam além do prejuízo de alguns diamantes ou de algumas pessoas. Aqui, trata-se de uma história policial menor, corriqueira, que só ganha força porque é escrita de maneira muito competente e por que tem o Dr. Morte como vilão, o primeiro que encarna uma transfiguração pessoal em Gotham City. Na última página da revista, quando revela o rosto fora das ataduras, percebemos que se tornou uma pessoa completamente diferente, algo um pouco mais parecido com um monstro, mas não no sentido clássico da palavra, apenas no sentido de ser uma pessoa de cara muito, muito feia.

Um ganho dessa edição 30 é que Bob Kane assumiu a sua ligeira limitação gráfica em alguns momentos das aventuras e dividiu os desenhos com Sheldon Moldoff. A tendência mais sombria já adotada na edição passada permaneceu, mas dessa vez, os detalhes dos cenários e os ângulos dos quadros se tornaram mais dinâmicos e melhor explorados. O ótimo roteiro de Gardner Fox conseguiu fazer dessa história tão comum uma aventura de ares realmente importantes. Eis a grande vantagem de todo bom contador de histórias.

Já o cenário inicial do arco formado pelas edições #31 e 32 começa em Nova York, onde somos apresentados pela primeira vez a um aspecto da vida pessoal de Bruce Wayne: sua noiva Julie Madison. Ela está sob hipnose, e tenta matar um homem, quando então é interrompida pelo Batman. Começa a partir daí um caminho que nos lembra muitíssimo a história de Drácula, especialmente a DC #32.

Algo importante a ser dito sobre essas edições é que Batman não é o “herói que nunca mata”, como muitos pensam, baseados em edições do fim da Era de Ouro para a Era de Prata, que tentaram fazê-lo menos violento (talvez sem muito sucesso, venhamos e convenhamos). O Batman dessas primeiras edições mata sim, e nem sempre quando é preciso. Trata-se de eliminação de um inimigo, como ele fez com Mikhail, o servo do Dr. Morte, na edição 29, dando-lhe um mega chute e quebrando o pescoço do infeliz.

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Na edição #31 da Detective Comics (setembro, 1939), Batman vai para a Europa à caça de seu mais novo inimigo, O Monge. Vale lembrar que desde o dia 1º de setembro desse ano, a Europa estava oficialmente em guerra, após a invasão do Exército nazista à Polônia. O fato de o Batman estar na Europa não é tanta coincidência assim, muito embora ele não enfrente nazista algum, apenas um Monge que hipnotiza as pessoas, inclusive o próprio Morcegão.

Por mais boba que possa parecer a aventura — e em alguns momentos chega a ser mesmo — não dá para não achar interessante o modo como o roteiro é desenvolvido e como a pegada vampiresca de Gardner Fox faz dá à história um bom ritmo, mesmo com furos e impossibilidades físicas que nos fazem dar risada. O embate entre o Homem Morcego e O Monge (ou Lobo ou Vampiro ou Lobisomem) é bastante desigual e o sinistro Monge leva a melhor, esquivando-se e conseguindo ajuda de uma seguidora, uma mulher chamada Dala, que Batman salva achando que estava hipnotizada.

A melhor edição do arco é mesmo a segunda, talvez porque já tenhamos uma trama estabelecida ou talvez porque o roteiro ali é realmente melhor, de modo que, ao final, mesmo com algumas falas insossas e bobinhas do Batman, a história termina de modo aceitável, pondo um fim definitivo (será mesmo?) ao Monge e sua querida seguidora Dala.

Detective Comics Vol1 #29 a 32 (EUA, julho a outubro de 1939)
No Brasil:
Abril (1995), Panini (2007)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Bob Kane, Sheldon Moldoff
Arte-final: Bob Kane, Sheldon Moldoff
Letras: Bob Kane, Sheldon Moldoff
Capas: Bob Kane, Fred Guardineer
Editoria: Vincent Sullivan
24 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.