Crítica | Detroit, a Cidade do Rock

Get up
Everybody’s gonna move their feet
Get down
Everybody’s gonna leave their seat
You gotta lose your mind in Detroit Rock City
– Detroit Rock City, KISS

Detroit, a Cidade do Rock é uma celebração da amizade, do fandom, do rock ‘n’ roll e uma homenagem aos filmes que abordam jornadas de amadurecimento. E tudo embalado com muito carinho e simplicidade, além de atuações enternecedoras da quadra principal de rapazes e de Natasha Lyonne e Melanie Lynskey ainda com 20 e 22 anos respectivamente, comprovando que o tempo, para elas, simplesmente não passa. Ah, e tem muita idolatria ao Kiss, claro, o grupo de rock que marcou os anos 70 com sua maquiagens e figurinos apoteóticos e música poderosa, em um papel proeminente de MacGuffin.

Na trama, que se passa em 1978, os amigos adolescentes rebeldes Jam (Sam Huntington), Hawk (Edward Furlong), Lex (Giuseppe Andrews) e Trip (James DeBello) precisam correr contra o relógio para conseguir ver o show do Kiss, seu grupo favorito – ele formam até uma desafinada banda cover deles – em Detroit. Como antagonista principal, temos a mãe de Jam, a carola endiabrada Senhora Bruce (Lin Shaye) que não só acha que K.I.S.S. é a sigla de “Knights In Satan’s Service” ou “Cavaleiros a Serviço de Satã”, como também trata de atear fogo nos cobiçados ingressos, mandando seu filho, ato contínuo, para um internato católico, catalisando, então, toda a narrativa. O humor, aqui, não tem nem a sofisticação e nem a rudeza de Isto é Spinal Tap, com o roteiro de Carl V. Dupré beneficiando bem mais a comédia física e a direção de Adam Rifkin focando em histrionismos e caricaturas no lugar de personagens “de verdade”, com direito a close-ups exagerados e grande angulares.

E com isso não quero dizer que Detroit, a Cidade do Rock carece de comicidade, pois não é nada disso. Os exageros funcionam bem não só como uma forma de tornar as caracterizações e os conflitos ainda mais gritantes – é hilária a “briga” do rock contra o disco no meio da estrada -, como também como um aceno ao caldeirão musical da época e a idolatria a grupos de rock mais pesado. Aliás, diria que toda a projeção tenta, de forma bem-sucedida, passar a impressão de que estamos constantemente em um show de rock. Há muita cinética, muito tumulto, muito histerismo e, sem dúvida, muita música, do Kiss e de outros, permeando toda a narrativa e criando uma conexão muito próxima com o espectador, especialmente os que se identificarem mais com o rock ‘n’ roll e gostarem de uma apresentação ao vivo como este crítico. Em termos de homenagem aos fãs fervorosos, Detroit, a Cidade do Rock é muito mais completo, focado e bem aparado do que, por exemplo, Loucos e Fãs, que se perde ao tentar abraçar tudo ao mesmo tempo.

Cada ator tem seu tempo para destacar-se, ainda que o foco fique mesmo com Jam, vivido de maneira apaixonada por um inspirado Huntington. Mas Furlong também merece destaque por sujeitar-se a uma apresentação em strip club feminino (com direito à locução de ninguém menos do que o notório Ron Jeremy) e DeBello, sempre com cara de chapado, também tem bom espaço com seu Trip, quando tenta roubar os ingressos de um “garotinho indefeso” que não é lá tão indefeso assim. Somente Andrews parece perdido na história, sem uma função que realmente justifique sua presença por ali, ainda que isso não seja um grande pecado e termine de forma simpática para ele e para Christine, a personagem de Lyonne.

A jornada de amadurecimento, porém, é algo trabalhado com a mesma sutileza e profundidade de Porky’s: A Casa do Amor e do Riso, clássico oitentista do escracho total, ou seja, crescer significa transar e ponto final. Mas, como mencionei, vejo Detroit, a Cidade do Rock muito mais como uma homenagem a essa temática do que uma obra que seja mesmo sobre ela. O adolescente que transa é o eterno clichê de obras que gravitam ao redor de jovens nessa idade e a coisa não é diferente aqui, ainda que Rifkin tenha bom gosto – e um pouco de ousadia, considerando Jam – ao abordar cada um deles, sem descambar para nada que agrida ou saia do tom dessa divertida fábula roqueira.

Detroit, a Cidade do Rock é, dentro de sua simpática proposta, uma gostosura de assistir. Um filme que sabe respeitar o fandom sadio em geral – e do KISS em particular – e que nos faz mesmo levantar e movimentar os pés como a música-título diz, ainda que não nos faça exatamente perder a cabeça.

Detroit, a Cidade do Rock (Detroit Rock City, EUA -1999)
Direção: Adam Rifkin
Roteiro: Carl V. Dupré
Elenco: Sam Huntington, Edward Furlong, James DeBello, Giuseppe Andrews, Lin Shaye, Melanie Lynskey, Natasha Lyonne, Miles Dougal, Nick Scotti, Emmanuelle Chriqui, David Quane, David Gardner, Ron Jeremy
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.