Crítica | Deuses Caídos, de Gabriel Tennyson

Nunca fui um grande entusiasta do terror, seja qual for a mídia. Apesar disso, sempre tentei, desde pequeno, em maior ou menor grau, dar chances esporádicas para filmes, jogos, livros e demais artes integrantes deste gênero. Algumas delas, eventualmente, eram gratas surpresas. Deuses Caídos foi uma delas.

Lançada em 2018, a obra de estreia do carioca Gabriel Tennyson é daqueles livros que devoramos por completo em questão de pouco tempo. Mesmo que não se encaixe na categoria de calhamaço, ainda possui quase 300 páginas, que passam muito rapidamente por conta da escrita do autor que mescla momentos de, digamos, erudição com gírias e uma linguagem mais coloquial.

A história se passa no Rio de Janeiro atual e gira em torno de nosso carismático protagonista Judas Cipriano, um padre exorcista bastante peculiar e com aparência de um astro do rock de meia idade. Ele trabalha para a Sociedade de São Tomé, uma divisão secreta dentro da igreja católica com sede no Vaticano e que tem como objetivo evitar que as pessoas tomem conhecimento do sobrenatural e de suas criaturas.

O padre, no entanto, não está sozinho e logo somos apresentados a Júlia Abdemi, uma jovem inspetora da Polícia Civil. Extremamente cética com relação a crenças no geral, ela se junta a Cipriano para resolverem um caso de um serial killer com aparentes poderes paranormais que está assassinando evangelistas famosos e postando os vídeos de suas dolorosas mortes na internet.

Além de tentar impedir o autodeclarado novo messias, Cipriano tem a tarefa de apresentar o mundo sobrenatural para Abdemi, já que ela, mesmo mergulhada em seu ceticismo, possui uma ligação com esse lado da vida que jamais poderia imaginar.

Conforme avançamos na história, somos apresentados a figuras que povoam nosso imaginário através da mitologia, magia, religião ou com alguma ligação com o sombrio e sobrenatural. Exemplos não faltam: vampiros, sacis, gárgulas, súcubos, dragões, golens, orixás, etc. Tudo com descrições quase sempre bizarras e com uma riqueza de detalhes tremenda, um grande mérito do escritor.

Outro mérito que deve ser destacado é a forma como Tennyson faz referências a cultura pop de maneira orgânica e criativa, fazendo comparações entre seres reais e as personagens de sua história, o que traz ares cômicos que casam muito bem com a personalidade de Cipriano e outros. Isso acontece intercaladamente com uma escrita mais séria e detalhada dos fatos, algo que ajuda na fluidez da narrativa sem tornar-se entediante em momento algum.

Um ponto que me agradou bastante foi a forma como o autor faz releituras de lendas e personagens míticos de forma com que esses sejam inseridos nos contextos de nossa Era. Pegue Narciso, por exemplo.

Ele é uma gárgula que trabalha como segurança de uma espécie de boate sombria. Como gárgulas são figuras urbanas, cada uma tem sua personalidade moldada a partir da cidade em que se encontra. Como Deuses Caídos passa-se no Rio de Janeiro, Narciso encarna aquele estereótipo do malandro carioca, falando com gírias características e utilizando vestimentas tidas como típicas dos moradores da cidade.

O mesmo acontece com os sacis e a floresta como um todo. Depois de tanto tempo sendo destruídas pelos seres humanos, as figuras ligadas à natureza são extremamente agressivas com invasores, principalmente humanos. É possível vermos isso quando Cipriano busca ajuda desses seres e, durante todo o tempo que se encontra nesse território, sentimos que será massacrado a qualquer instante. Isso mostra mais uma vez a qualidade do autor na construção das personagens e dos cenários ao mesmo tempo que faz uma crítica a destruição da natureza pelo homem.

Para um livro de estreia, Deuses Caídos dificilmente teria um resultado melhor. Dono de uma história envolvente, personagens cativantes e que brinca com a nossa imaginação em meio a um caos sobrenatural, o livro termina deixando um gostinho de quero mais. Felizmente, ao que tudo indica, teremos esse prazer em algum momento no futuro.

Deuses Caídos (Brasil, 2018)
Autor: Gabriel Tennyson
Editora: Suma de Letras, junho de 2018
288 páginas

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.