Crítica | Devorado Vivo

Os anos 1970 podem ser considerados como uma fase de amplas sensações para cinéfilos. É a era de ouro para o cinema de horror crítico, repleto de produções que flertam com a maldade humana, em narrativas distantes do clima gótico de castelos assombrados, inspirados na literatura romântica e em contos e mitos clássicos. Saem os monstros sobrenaturais e entram os seres humanos como criaturas mais perigosas que qualquer vampiro e lobisomem. É também um período de inquietação estética, com diversas produções independentes que transformaram as telas de projeção em sessões audiovisuais terapêuticas, com questionamentos implícitos sobre as gerações apáticas que se formavam, sendo o humano o ser mais terrível de todos. Era também a época dos finais infelizes, tal como A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero.

Imagens no estilo documental mixavam-se com enredos ficcionais, num misto de sensações e profunda reflexão contextual e artística. Devorado Vivo é um desses frutos da época, dirigido por Tobe Hooper depois do clássico O Massacre da Serra Elétrica, de 1974. Guiado pelo roteiro escrito por Alvin L. Fast e Mardi Rustam, dupla que contou com o apoio do criador de Leatherface, Kim Henkel, a produção traz um dos animais assassinos mais ferozes do cinema: um réptil, ora tratado como crocodilo, ora como jacaré, animais que sabemos, fazem parte da mesma “família”, mas são tipos totalmente diferentes em suas estruturas físicas e instintivas.

Lançado em 1976, o filme não está muito longe da realidade. Há relatos de bastidores que confirmam a inspiração da história num caso de 1930, quando um homem chamado Joe Ball supostamente matou cerca de 20 mulheres e descartou os seus restos para um crocodilo que mantinha no espaço do fundo de sua casa. A trama, com alguns traços de Psicose, se estabelece da seguinte maneira: Judd (Neville Brand) é um dono de hotel numa estrada obscura. Basicamente, ele mata os seus hóspedes e serve para seu réptil africano. Com sua perna de pau, supostamente devorada pelo próprio animal que cria, ele comporta-se de maneira violenta constantemente, movido pelas drogas e álcool diariamente.

Representação cabal da perversidade humana, o proprietário do hotel, atormentado por sua vida complexa e traumática, transforma a passagem de vidas alheias pelo local numa lista de alimentos para o seu animal. O filme começa com Clara Wood (Roberta Collins), uma garota que entra para uma casa de prostituição, mas não consegue se entregar ao seu primeiro cliente. Assim, a Sra. Mattie (Carolyn Jones) a entrega para a rua. Com ajuda de uma bondosa senhora que cuida dos afazeres domésticos do “puteiro”, ela se hospeda no misterioso hotel, até conseguir um horário para ir embora ao amanhecer.

Ao chegar, é recebida de maneira razoável por Budd que num lapso, a identifica como prostituta e numa postura misógina, estabelece um embate físico que acaba por ceifar a vida da moça. O corpo? Jogado para o animal devorar, mas já sem vida, ferido pelos golpes de foice do inescrupuloso personagem. Logo mais, uma família decide parar no local para hospedagem. Fay (Marilyn Burns), Ray (William Finley) e a pequena Angie (Kyle Richards) acham o clima nojento, mas ficam no local. Há também o cachorro que logo desaparece, devorado pelo réptil, motivo para que o patriarca Ray saia em busca e logo perca a sua vida, tornando-se saldo para a lista alimentícia do animal. Mãe e filha tornam-se novas na lista da perseguição. A menina passa por alguns obstáculos e consegue escapar para a região embaixo da casa. A mãe passa por apuros e fica horas numa sessão de tortura psicológica e física, semelhante ao que faz o clã de Leatherface.

Mais adiante, Harvey Wood (Mel Ferrer) e Libby (Crystin Sinclaire) vão atrás de Clara Wood. Ela é parte da família. Desconfiam da possibilidade de estar nas proximidades. Depois de investigações, com a colaboração do Xerife Martin (Stuart Whitman), eles aproximam-se da verdade, sem antes não deixar o Sr. Wood sem vida e outros que tem a infelicidade de passar por perto. O final apoteótico promove a histeria e uma série de perseguições que acaba em mortes e muito alimento para o animal de estimação. Robert Englund, mais tarde Freddy Krueger na franquia A Hora do Pesadelo, interpreta Buck, um dos valentões da história que tarda, mas torna-se comida de réptil também.

Visualmente, Devorado Vivo é uma experiência estética eficiente. O tom avermelhado e iluminação em tons vermelhos da direção de fotografia de Robert Caramico transforma cada frame da cenografia em algo fascinante. Ele também traz câmeras que se movimentam bem pelos ambientes, algo que se estabelece como uma demonstração cabal de consciência do que se realiza em termos de imagem, numa produção técnica conectada com as demandas do roteiro. O animal, criado pela equipe de efeitos especiais comandada por Robert A. Matty, arrasta as suas vítimas e aparece pouco, haja vista os poucos recursos da produção.

Tal como O Massacre da Serra Elétrica, Tobe Hooper também assina a condução sonora do seu filme, juntamente com os sons esquizofrênicos oriundos dos instrumentos de Wayne Bell. No que tange ao trabalho de design, o filme conta com a direção de arte de Marshall Reed e cenografia de Michael Wiegand, ambos também eficientes, responsáveis por erguer cada centímetro do espaço aberrante, causador de ojeriza em qualquer pessoa minimamente higiênica. Marilyn Burns, mais uma vez, torna-se uma histérica desesperada por conta do monstro interior (Judd) e exterior (réptil faminto e que age por instinto natural). A misoginia, por sinal, toma conta do filme completamente.

Ademais, a produção de 91 minutos se estabelece como um fruto típico dos anos 1970, época de descrença na humanidade das pessoas. O enorme réptil é um dos vilões por aqui, mas age por meio da desumanização dos próprios habitantes e circundantes daquela região tomada pela violência e miséria. Alguns anos depois, já no clima de virada para a década seguinte, a indústria cinematográfica investiu em outros filmes com os répteis no papel de monstros que colocam os seres humanos em situações de pânico e horror: Crocodilo Assassino e Alligator – O Jacaré Assassino, ambos de 1979 e 1980, herdeiros do tubarão-branco de Steven Spielberg.

Devorado Vivo (Eaten Alive/Estados Unidos, 1976)
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Alvin L. Fast, Mardi Rustam
Elenco: Neville Brand, Carolyn Jones, Mel Ferrer, Marilyn Burns, William Finley, Robert Englund
Duração: 92 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.