- Há spoilers.
Após o impacto emocional relativamente bem-sucedido do quinto ano, que lidava com culpa, trauma e a possibilidade de redenção através de Lumen, o sexto ano parece menos interessado em continuar esse processo e mais empenhado em reformular o conflito central do personagem por meio de uma metáfora temática forte, ainda que profundamente irregular: a religião. O resultado é uma temporada ambiciosa no discurso, visualmente chamativa, mas estruturalmente problemática, que alterna bons momentos de reflexão com decisões narrativas que minam sua própria força.
Desde o episódio de abertura, fica claro que a série quer dialogar com algo maior do que apenas o jogo de gato e rato entre serial killer e polícia, uma mudança bem-vinda para refrescar a narrativa. A presença de simbologia cristã, o questionamento sobre fé a partir da paternidade de Dexter e a introdução do Assassino do Juízo Final (Doomsday Killer) sinalizam uma tentativa de elevar o discurso da série para um plano quase filosófico com o questionamento de que pode um monstro encontrar sentido em algo transcendental? A ideia, em si, é ótima e até tardia, considerando que Dexter sempre flertou com noções de moralidade absoluta, pecado e punição. O problema é que a execução raramente acompanha a ambição.
O arco religioso se divide em duas frentes principais: o lado externo, representado pelos assassinatos ritualísticos inspirados no Livro do Apocalipse, e o lado interno, vivido por Dexter através de seu contato com o Irmão Sam. Enquanto o primeiro investe pesado no espetáculo com cenas de crime elaboradas, corpos mutilados compondo tableaux bíblicos e um senso constante de “ameaça grandiosa”, o segundo trabalha algo bem mais íntimo e potencialmente transformador para o protagonista. E é justamente aí que a temporada encontra seu maior acerto.
O personagem de Brother Sam funciona como um contraponto raro e bem-vindo na série. Diferente de figuras anteriores que tentavam “consertar” Dexter, Sam não tenta salvar ninguém. Ele simplesmente existe como prova viva de que mudança é possível, ainda que imperfeita. A relação entre os dois é construída com paciência, sem pressa em oferecer respostas fáceis. Dexter não encontra Deus, nem se converte, mas passa a considerar a ideia de que talvez sua existência não precise ser apenas funcional, mecânica, vazia de propósito além do Código de Harry.
A morte de Brother Sam é, portanto, o verdadeiro ponto de virada emocional da temporada. Não por ser chocante, mas porque ela encerra prematuramente a única via de crescimento genuíno que o roteiro havia aberto para Dexter. A escolha de matá-lo não é, em si, errada; o problema é que a série não sabe muito bem o que fazer depois disso. O luto de Dexter existe, mas rapidamente é engolido pela necessidade de avançar a trama do vilão da temporada. E aí entramos no principal gargalo do sexto ano: o Assassino do Juízo Final.
Visualmente, o arco é impressionante. Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, o Anjo da Morte, a Prostituta da Babilônia, o Lago de Fogo, tudo é concebido para causar impacto imediato, quase como instalações de arte macabra. A direção e o design de produção se esmeram em criar imagens memoráveis, e nesse aspecto a temporada é uma das mais marcantes da série. Porém, narrativa e tematicamente, o arco sofre de um problema grave: confunde grandiosidade simbólica com profundidade dramática.
A revelação de que Professor Gellar estava morto o tempo todo e que Travis Marshall era o único assassino, interagindo com uma projeção de seu próprio “passageiro sombrio”, é um twist que chega tarde demais e que enfraquece o conflito ao invés de fortalecê-lo. Não porque seja incoerente, mas porque reduz um embate que parecia ideológico a um distúrbio psicológico já visto inúmeras vezes na série, e porque em vez de um confronto entre visões de mundo, temos mais um vilão fragmentado, incapaz de sustentar o peso metafórico que o arco exigia.
Travis, como antagonista, nunca atinge a presença necessária para ser verdadeiramente ameaçador. Sua transição de discípulo confuso para fanático apocalíptico acontece de forma abrupta, e o roteiro insiste em sublinhar seu desequilíbrio sem explorar suas motivações com profundidade. Quando o confronto final chega, o sentimento é de alívio burocrático com mais um problema resolvido, mais um corpo descartado.
Em paralelo, a temporada trabalha o crescimento profissional de Debra, agora como tenente. E aqui há outro ponto forte, ainda que subaproveitado. Debra enfrenta um ambiente institucional hostil, manipulações políticas de LaGuerta e a pressão constante de provar que merece o cargo. Sua evolução é convincente, e Jennifer Carpenter entrega uma performance sólida, especialmente nos momentos em que Deb percebe o quanto depende emocionalmente de Dexter.
Essa dependência, aliás, é lentamente reposicionada pela série como algo mais complexo e perigosamente mal conduzido. A decisão de introduzir a ideia de que Debra poderia estar romanticamente apaixonada pelo irmão adotivo é, no mínimo, controversa. Embora o texto tente justificar isso como uma confusão emocional derivada de vínculos traumáticos, a abordagem é apressada e pouco elegante. Em vez de aprofundar o tema com cuidado psicológico, a série o lança como um choque narrativo, mais preocupado em causar impacto do que em explorar consequências reais.
Ainda assim, é impossível negar que o episódio final carrega um dos momentos mais importantes de toda a série: a descoberta de Debra. Depois de anos orbitando perigosamente perto da verdade, Deb finalmente vê Dexter pelo que ele é. É um encerramento potente, com um gancho final que é, paradoxalmente, o que salva a temporada de um julgamento mais severo. Ele justifica, retroativamente, muitos dos tropeços anteriores ao reposicionar tudo como preparação para uma mudança estrutural na narrativa. A sexta temporada pode não funcionar plenamente como arco fechado, mas funciona como ponte.
No balanço geral, a sexta temporada de Dexter é profundamente irregular. Ela tem ideias grandes, imagens fortes e um desejo claro de aprofundar seu protagonista, mas tropeça em sua própria ambição. Ao tentar falar sobre fé, redenção e fim do mundo, a série acaba dizendo menos do que poderia. Ainda assim, seus melhores momentos, especialmente aqueles envolvendo Brother Sam e Debra, lembram que Dexter foi, por tanto tempo, uma das séries mais instigantes da televisão. É uma temporada que aponta para algo melhor, mesmo quando falha em ser plenamente boa. E, em uma série construída sobre contradições, talvez isso seja mais apropriado do que parece.
Dexter – 6ª Temporada | EUA, 2011
Criação e desenvolvimento: James Manos Jr. (baseado na obra de Jeff Lindsay)
Direção: Ernest Dickerson, John Dahl, Michael Lehmann, Romeo Tirone, SJ Clarkson, Stefan Schwartz, Seith Mann
Roteiro: Tim Schlattmann, Lauren Gussis, Scott Buck, Wendy West, Jace Richdale, Manny Coto, Arika Lisanne Mittman, Karen Campbell, Scott Reynolds
Elenco: Michael C. Hall, Jennifer Carpenter, Lauren Vélez, David Zayas, James Remar, C. S. Lee, Desmond Harrington, Brando Eaton, Aimee Garcia, Billy Brown, Geoff Pierson, Colin Hanks, Edward James Olmos, Mos Def, Josh Cooke
Duração: 616 min. (12 episódios)
