O conceito por trás de Dexter Morgan, um serial killer que é analista forense especializado em padrões de manchas de sangue para a polícia de Miami e que só mata gente má depois de ele mesmo pesquisar sobre sua vítima e comprovar seus crimes, é absolutamente fascinante. Não é sem querer que a criação do autor americano Jeffry P. Freundlich, que usa o nom de plume Jeff Lindsay, foi adaptada em uma muito bem sucedida série de TV que durou oito temporadas entre 2006 e 2013 e que ganhou um revival em 2021, um prelúdio em 2024 e uma continuação do revival em 2025, aparentemente sem um fim em vista. Há, inegavelmente um sabor todo especial na premissa, algo que é talvez amplificado por aquele sentimento estranho e ao mesmo tempo excitante que é torcer para que um assassino escape, mesmo que isso signifique que nem só vilões morrerão.
Há muito queria ler Dexter: A Mão Esquerda de Deus (esse título em português é inexplicável, além de cometer o pecado que é estragar a bela aliteração do original) e minha surpresa com a qualidade de Dexter: Ressurreição finalmente me fez mergulhar no universo literário composto de oito romances e duas graphic novels. No entanto, talvez por influência das séries, quando terminei a obra original minha sensação foi de decepção e não por ela ter elementos diferentes da série, já que era óbvio que isso aconteceria, mas sim por Lindsay construir uma história que parece composta de duas partes completamente diferentes. Na primeira, o autor lida bem com o fascínio que o próprio Dexter e seu Passageiro Sombrio, o nome que ele dá à sua fome assassina, são capazes de exercer sobre o leitor somado ao fascínio que ele próprio sente quando se depara com um serial killer que tira todo o sangue de suas vítimas, normalmente prostitutas que são cortadas em pedaços e que começa um jogo de gato e rato com ele. Esse primeiro terço do romance é apetitoso, seja pela narração em primeira pessoa de Dexter (ele não fala com o fantasma de seu pai adotivo como na série) e sua incapacidade de ter sentimentos como uma pessoa normal, seja pela relação cômica que ele tem com sua meia-irmã Deb, policial que quer ser promovida de qualquer forma para a Divisão de Homicídios, ou com a Capitão María LaGuerta, mais preocupada com sua imagem, em pisar em Deb e dar em cima de Dexter do que investigar crimes com seriedade.
Tudo funciona de maneira muito redonda nesse começo e ganha corpo com a introdução do Código de Harry, que são as regras de seu pai, que o treinara a canalizar seus impulsos assassinos para fazer o bem, para que ele não só cometa seus assassinatos de forma sistemática e organizada para não ser pego, como, também, para fazer o processo de verificação de suas potenciais vítimas. No entanto, infelizmente, a história começa a se desfazer quando a conexão de Dexter com o novo serial killer é intensificada, algo que não só faz ruim muito facilmente toda aquela calma e frieza do protagonista em relação ás suas vítimas, como começa a apelar para o “paranormal”, algo que coloco entre aspas porque não é exatamente paranormalidade, claro, mas sim uma espécie de profunda compreensão psicológica do que está ocorrendo, que leva Dexter a sonhar com o assassino e a “sentir” sua presença. Esses aspectos desviam a narrativa de seu norte e diminuem até mesmo o Código de Harry e a técnica de Dexter, algo que, aliás, não é realmente trabalhada em ponto algum do livro, seja sua profissão, seja seu trabalho noturno, por assim dizer (que, para quem viu a série, também é bem diferente).
Ou seja, o que temos é um conceito matador que é lentamente assassinado por uma narrativa que não se aproveita do que Dexter tem de melhor e que se vale demais da narração em primeira pessoa para contar o que ele é e não para materializar o Dexter na forma de ações que pareiam o que está escrito. É o equivalente literário a filmes que contam e não mostram o que acontece, algo que muitas vezes descamba para o didatismo exacerbado ou para situações em que temos que aceitar o que é dito sem discussão. E a cereja nesse bolo vistoso, mas crescentemente insosso, é que o final é extremamente corrido, permanecendo aberto para uma continuação, quase como se Lindsay tivesse desistido de escrever e decidido encerrar a história o mais rapidamente possível.
O começo de Dexter na literatura é, para usar um eufemismo, cambaleante. Diverte um pouco, sem dúvida, mas frustra muito, já que apresenta premissas e conceitos fascinantes que, porém, são muito pouco aproveitados, com o autor tomando atalhos convenientes para precipitar a conexão entre Dexter e o novo serial killer, mas sem realmente ter a calma necessária para fazer do momento algo cuidadosamente construído e desenvolvido como precisava ser. Sem dúvida alguma, um dos raros casos em que a adaptação audiovisual é consideravelmente melhor do que o material fonte.
Dexter: A Mão Esquerda de Deus (Darkly Dreaming Dexter – EUA, 2004)
Autoria: Jeff Lindsay
Editora original: Doubleday
Data original de publicação: 20 de julho de 2004
Editora no Brasil: Editora Planeta Minotauro
Data de publicação no Brasil: 1º de outubro de 2021
Tradução: Beatriz Horta
Páginas: 288