Crítica | Dia da Mentira

O cinema, tal como sabemos, adora uma data comemorativa. Temos franquias inspiradas e longas, tais como Halloween e Sexta-Feira 13, além de outras que não ganharam muitos exemplares, mas atravessam períodos especiais do nosso calendário. Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado traz um grupo de jovens incautos perseguidos por um assassino com um gancho numa das mãos, exatamente no dia 04 de julho. Um Papai Noel perturbador toca o terror em plena noite cristã em Natal Sangrento. Réveillon Maldito e Dia das Mães Macabro também retratam datas comemorativas e extensas pilhas de corpos.

Nos anos 1980, a década slasher por excelência, produtores observaram o sucesso destas datas e lançaram A Noite das Brincadeiras Mortais, um terror com pitadas de humor que revela em seu plot twist que todas as mortes sanguinolentas apresentadas não passavam de uma brincadeira criativa. Amy Steel, final girl de Sexta-Feira 13 – Parte 2 é uma das protagonistas do filme, alvo da terrível brincadeira de 01 de abril. Em 2008, na era das refilmagens dos clássicos de ouro do horror, outros produtores tiveram a ideia de trazer a brincadeira de 1986 para as plateias mais jovens, o que resultou no lançamento de Dia da Mentira, filme que será analisado mais adiante, antes do breve panorama sobre a tal data de nosso calendário repleto de comemorações excêntricas.

Ainda popular em plena contemporaneidade, o dia 01 de abril é uma data sobre a “mentira” desde o longínquo século XVI.  De acordo com as fontes históricas de alguns estudiosos, a data ganhou tal característica no reinado de Carlos IX, na França, atuante entre 1560-1574. Era um período onde os festejos de final de ano ganhavam as suas comemorações do dia 25 de março ao dia 01 de abril, no entanto, o papa Gregório XIII instituiu, em 1562, o novo calendário cristão, alteração que modificou o ano novo para o dia 01 de janeiro, tal como conhecemos atualmente.

Algumas pessoas resistiram ao novo modelo, mantendo as suas comemorações como de costume. Tal postura promoveu uma série de atos de humor envolvendo gozadores que convidavam os resistentes para festas inexistentes, além de pregar outras peças inesperadas, apelidando-os de “bobos de abril”. Há indícios que apontam a migração da “brincadeira” para a Inglaterra 200 anos depois, espalhando-se mundo afora posteriormente, sendo o “dia do engano” na Espanha e “peixe de abril” na Itália. No Brasil, começou em Minas Gerais, no dia 01 de abril de 1828 e a circulação de uma falsa notícia sobre a morte de Dom Pedro, data bastante relevante para a construção irreverente de narrativas cinematográficas, algo que não ocorre em Dia da Mentira, um enredo morno e pouco convivente em quase todos os seus aspectos.

Em seus 91 minutos, o filme traz a seguinte estrutura dramática: Desiree (Taylor Cole) é uma garota rica e mimada. Ela acha que pode tudo, principalmente por conta de sua influência financeira no âmbito das amizades. Comportando-se de maneira inadequada para uma narrativa slasher, isto é, não sendo “bela, recatada e do lar”, a moça organiza uma a festa de 01 de abril do ano juntamente com seu irmão Blaine (John Henderson), sem esperar que um assassino esteja infiltrado para acabar com o bom humor que envolvem a série de trotes ao longo dos festejos.

Lançado em 2008, Dia da Mentira é a demonstração do desgaste envolvendo refilmagens, algo que nunca foi novidade no sistema hollywoodiano, mas que alcançou o chamado “boom” com as versões estadunidenses de filmes de horror orientais, dentre o reencontro com antigos psicopatas, tais como Michael Myers, revisitado por Rob Zombie e Leatherface, produzido pela empresa de Michael Bay, regravações turbinadas de clássicos dos anos 1970. Apesar dos problemas narrativos, tais refilmagens não encontraram os mesmos graves problemas de Dia da Mentira, isto é, desempenhos dramáticos questionáveis e um roteiro com diálogos ruins, repleto de situações excessivamente inverossímeis e esquemáticas.

Sabemos que é preciso algumas doses de suspensão da crença numa narrativa slasher, mas Dia da Mentira exige demais de nossa paciência. Os conflitos são estéreis, não há necessidades dramáticas, os personagens são planos que nem uma tábua e a história é demasiadamente artificial. O roteiro de Michael Wigart não faz nada de interessante para demonstrar que a refilmagem é necessária, o que impossibilita Mitchell Altieri e Phil Flores de fazer qualquer coisa que possa dar um rumo relevante ao filme. Pode ter sido a dupla, juntamente com o elenco ruim, os responsáveis por estragar o roteiro de Wigart, algo que não vamos e há certa altura do filme, sequer temos interesse em saber, tamanho o nível do tédio diante das bobagens apresentadas em quase uma hora e meia de história.

Dia da Mentira (April Fool’s Day – 2008)
Direção: Mitchell Altieri, Phil Flores
Roteiro: Michael Wigart
Elenco: Frank J. Aard, Jennifer Siebel, Joe Egender, Joseph McKelheer, Josh Henderson, Sabrina Aldridge, Samuel Child, Scout Taylor-Compton, Taylor Cole, Tom Barker
Duração: 91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.