Crítica | Dia dos Namorados Macabro 3D

Há a possibilidade de um filme ser extremamente questionável em quesitos cinematográficos, mas deliciosamente atrativo enquanto entretenimento ligeiro? Dentre tantas opções que respondem ao questionamento, Dia dos Namorados Macabro 3D pode ser considerado um bom exemplar para ilustrar a provocação. Personagens que tomam decisões minimamente pouco inteligentes, mortes absurdamente forçadas para justificar o uso da tecnologia 3D e os diálogos fracos delineiam a refilmagem de um dos clássicos slasher que mais representam o cinema de terror independente da década de 1980. A produção foi uma das tantas realizações da Era de Ouro dos recomeços para as franquias de terror, lançada quase simultaneamente ao retorno de Jason em Sexta-Feira 13 e Freddy em A Hora do Pesadelo.

Dirigido por Patrick Lussier, editor dos quatro filmes da franquia Pânico, a história de 1981 teve roteiro assinado por Todd Farmer e Zanny Smith. Personagens, espaço cênico e algumas situações foram resgatados em tom de homenagem, tendo como incremento elementos inovadores para dar o tom proposto pela ideia de refilmagem, isto é, mortes mais chocantes, possibilidades narrativas não realizáveis na década de 1980 e quantidade maior de sangue sem a censura e sua tesoura picotadora de cenas picantes e violentas. Farmer, por sinal, experiente em reinvenções desde o criativo e divertido Jason X, acrescenta detalhes que tornam alguns trechos bem interessantes, mas o resultado final ainda é comprometedor, mesmo que o diretor seja Lussier, alguém que respirou o slasher ao lado de Wes Craven em tantas oportunidades.

A versão 2009 é prática e objetiva, isto é, já começa aquecida por mortes imaginativas e sangrentas. Parece, tal como a incursão de Jason no mesmo ano, um filme dentro de outro, haja vista o prefácio praticamente fechado em si, porta de abertura para o a produção que vem em seguida. Assim, vamos aos fatos da narrativa. Harry Warden (Richard Walters) é uma lenda em Harmony, cidade que relembra a sua existência sanguinária cotidianamente por conta dos eventos ocorridos no Dia dos Namorados (em fevereiro, nos Estados Unidos, diferente da data brasileira). Um terrível acidente teria deixado ele e outros mineiros da região soterrados e com privações, algo que pode ter dado partida à sua fúria sanguinária.

Tom Hanniger (Jensen Ackles) é quem carrega a culpa pelos acontecimentos. Responsável pelo acidente, ele é perseguido algum tempo depois, juntamente com um grupo de jovens que curte a data comemorativa na mesma região fatal. Em coma, Warden acorda no hospital um ano depois e mata a todos que encontra pelo caminho, para logo depois, seguir rumo à mina para destroçar os corpos de quem está curtindo a vida enquanto ele sofre internamente com o trauma. Depois de trucidar boa parte dos que festejavam no local, Warden é impedido de eliminar Tom, graças aos tiros certeiros (ou não) dados pelo xerife Burke (Tom Atkins). Um fade fecha momentaneamente a história.

Uma década se passa e o rapaz que teve a vida salva pelo policial retorna para a cidade, tendo como plano vender a mina que pertencia ao pai e seguir a sua vida sem lembranças ou propriedades físicas que lhe façam recordar a cidade. O problema é que o seu retorno reacende o interesse de Sarah (Jaime King), seu antigo interesse amoroso, agora casada com o novo xerife, Axel (Kerr Smith), marido machista que por sua vez, não é um bom exemplo, pois mantém um caso com Megan (Megan Boone), jovem que trabalha no supermercado de sua esposa. A sua volta ao “lar” não é bem vista por muita gente, principalmente depois que assassinatos começam a acontecer, oriundos de alguém que parece não satisfeito com o retorno de um representante da traumática história trágica do passado.

A pergunta logo se estabelece: quem está por detrás do traje de mineiro, com a respiração ofegante, estraçalhando pessoas, deixando pistas com bilhetes de amor e corações extraídos de corpos humanos? Será Tom? Será Axel, representante do que atualmente chamamos de masculinidade tóxica?  E se for Sarah? Há também suspeitas em torno de algumas pessoas da cidade insatisfeitas com a venda que transformará a mina num local disposto à venda, algo que pode tirar o emprego e a função social de muitas pessoas da cidade. Conhecida por ser um local amaldiçoado, Harmony agora é um ponto geográfico marcado por sangue, tal como Woodsboro e Crystal Lake.

Habitada por pessoas conscientes do perigo que se espalha, a cidade também abriga idiotas que seguem a cartilha proposta desde Tubarão, isto é, indivíduos que desobedecem às dicas policiais e vagam por espaços perigosos e desertos, mesmo com um assassino disposto a ceifar a suas vidas. O sexo também é parte integrante do pacote, pois a ordem slasher básica é manter-se casta e pura para garantir a sobrevivência até o desfecho da narrativa. Desta maneira, a produção se encaixa perfeitamente no padrão slasher, inclusive em seus atributos estruturais. Em suma: no que tange aos aspectos visuais, Dia dos Namorados Macabro 3D possui um trabalho eficiente. O design de produção assinado por Zack Grobler apresenta cenografia cuidadosa, direção de arte detalhista e figurinos convenientes, em especial, o excelente traje turbinado do antagonista de 1981.

Para acompanhar as imagens, o filme conta com a condução sonora de Michael Wandmacher, pop e frenética para o tema abordado, embaladora do que é captado pela direção de fotografia de Brian Person, responsável pelos enquadramentos, movimentos e planos que tornam o filme uma experiência visualmente interessante, mesmo que tais elementos não tornam o roteiro mais denso. As mortes, devo dizer, são um ponto forte para os que curtem violência gráfica explícita, mas surgem exageradas e muito artificiais.

Uma confissão, no entanto, deve ser feita. Essa farofa sanguinolenta não deixa de ser divertida, mesmo que comprometedora. Dentre os demais recursos que demonstram a preocupação do setor de fotografia em fazer o espectador adentrar na história é o uso de contra-zoom, recurso muito comum nos filmes de Alfred Hitchcock. Por meio desta estratégia narrativa, temos a impressão de que o plano de fundo se desloca para uma ampla expansão enquanto o personagem se mantém estático. Outro recurso constante é o rack focus, mudança súbita de objetos expostos em primeiro e segundo plano, juntamente com personagens enquadrados através de grades e janelas, o que permite a percepção tridimensional e a sensação de profundidade de campo adequada para a sensação de pavor que advém, muitas vezes, de locais inesperados. As panorâmicas, por sua vez, passam “certo” artificialismo, o que nos deixa a sensação de que talvez não sejam captações aéreas autênticas de uma boa fotografia, mas algo fruto de efeitos visuais pouco inspirados.

Ademais, Dia dos Namorados Macabro 3D cumpre a sua função industrial de entretenimento, ajuda na análise da história recente do cinema em relação ao fenômeno das refilmagens e da utilização do recurso tridimensional que não vingou tal como o esperado. O filme também é a comprovação do slasher como um subgênero rentável e praticamente inesgotável do cinema, tamanha as suas incursões e reinvenções ao desde os primeiros passos dado pelo “avô” e mestre Hitchcock na adaptação do romance homônimo de Robert Bloch: Psicose.

Dia dos Namorados Macabro 3D (My Bloody Valentine 3D) – Estados Unidos, 2009.
Direção: Patrick Lussier
Roteiro: Todd Farmer, Zane Smith
Elenco: Andrew Larson, Edi Gathegi, Jaime King, Jensen Ackles, Kerr Smith, Megan Boone, Tom Atkins, Marc Macaulay, Edi Gathegi, Liam Rhodes
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.