Crítica | Diabólica (1998)

Quando estreou em 1998, Diabólica apresentou um ponto central dramático visitado numerosas vezes no cinema: a garota/mulher/amante/esposa com transtornos psicológicos que age de maneira questionável quando os seus planos dão errado, ou então, quando as pessoas não seguem exatamente as suas determinações. Com variações de outras produções do mesmo estilo, tais como Paixão Sem Limite, Atração Fatal, dentre outros, Diabólica sucede o suspense com Alicia Silverstone e antecede a versão juvenil de Glenn Close em Fixação. O interessante é observar como tais narrativas dialogam entre si, num amplo feixe panorâmico cinematográfico, repleto de mulheres sensualmente perigosas e mortais.

Em seus 88 minutos, a produção nos apresenta a trajetória de Ellie (Julia Stiles), uma adolescente que de acordo com os estereótipos tipicamente estadunidenses, comporta-se como uma rebelde sem causa. Na escola ela desce a porrada nos rapazes que fazem qualquer menção ao bullying com a sua pessoa. A sua mãe, Karen (Chelsea Field) vive constantemente preocupada, enquanto o seu pai, Ben (William R. Moses) trabalha muito e tem pouco tempo para dar atenção às filhas. Ellie tem uma irmã mais nova, Inger (Vanessa Zima), jovem que ainda brinca de boneca e observa o comportamento lascivo da irmã evoluir a cada dia.

Por mais que Diabólica tenha elementos que o tornem um entretenimento passageiro e uma produção dramática e esteticamente vulgar, há elementos muito interessantes no terreno das discussões comportamentais/psicológicas, talvez mais relevantes se o filme fosse uma produção mais bem estruturada. Como aponta a sinopse, ela não faz a linha que fica brava quando alguém a contraria. Ao invés disso, ela é maligna e se vinga. Fria e calculista, a garota é a principal suspeita do assassinato da mãe, tendo em vista o suposto plano de ficar com o pai pra si.

O primeiro “ponto de virada” da narrativa ocorre quando Ben chega em casa e presenteia as duas filhas. A mais nova ganha um item de pelúcia, enquanto a personagem de Julia Stiles recebe um ousado estojo de maquiagem, material utilizado para representar o seu próximo passo enquanto adolescente em evolução, numa erupção sexual gigantesca dentro de si mesma, algo que só aumenta após do crime dentro de sua residência. Na psicanálise, tal postura é lida como “complexo de Elektra”, uma atitude que implica na identificação tão completa com a mãe que a filha deseja, de maneira inconsciente, eliminar o elo materno para “possuir” o pai.

A reflexão, posterior ao “complexo de Édipo” freudiano, cunhada por Carl Jung, também baseia-se na mitologia grega. De acordo com a tradição narrativa mítica, a filha do rei Micenas traçou um plano de matar a sua mãe, bem como a amante do pai, estratégia mirabolante elaborada junto ao irmão Orestes. Diabólica investe livremente neste segmento, com alterações internas para devida adequação dramática. Ellie inicia o seu projeto de ser a nova “mamãe”, cozinhando e vestindo-se com as roupas de Karen, noutros momentos, oferecendo vinho ao pai, algo que culminará numa provável e única relação sexual numa noite após muita insistência. Ela o acusa disso posteriormente, num de seus jogos diabólicos, mas não sabemos se de fato ocorreu, situação que fica nas entrelinhas, principalmente pela edição que aplica um fade e nos faz imaginar se a garota conseguiu ou não possuir sexualmente o pai.

Após o assassinato da mãe, vários suspeitos se estabelecem em cena. O vizinho Lawson (Patrick Muldoon) tem um caso com a matriarca da família e fica bastante desapontado depois que ela informa que não irá mais abandonar as filhas e marido para uma fuga utópica com o amante. Lena (Louise Myrback), a babá das garotas, é demitida antes do cruel assassinato, pois supostamente tem um caso com o marido da falecida. Há ainda Ben, homem que pode ter matado a esposa para viver livremente com Lena. Caberá ao Detetive Holland (Michael Parks) investigar e descobrir o verdadeiro responsável pelo crime. Curioso observar a arma do crime: uma escultura do símbolo teatral da tragédia, item decorativo da casa.

A teia de intrigas ganha solução apenas no desfecho, um encerramento narrativo exagerado e com reviravoltas absurdas que denunciam a vulgaridade narrativa quase sublimada pelos elementos gerais do filme ao longo de seu desenvolvimento.  Dirigido por Michael Steinberg, realizador que teve como direcionamento o roteiro de Eric Weiss, Diabólica apresenta alguns enquadramentos interessantes pela direção de fotografia assinada por Bernd Heinl, responsável por empregar alguns momentos de iluminação parcial interessantes, bem como enquadramentos oblíquos que captam a família na mesa de jantar antes da morte da mãe, isto é, um grupo disfuncional e problemático.

O design de produção, por sua vez, é bem básico, tendo destaque na direção de arte e seus objetos de cena. Assinado por Dominic Watkins, o setor ainda conta com os figurinos de Sara Jane Slotnick, relativamente importantes para a percepção da evolução do comportamento de alguns personagens, em especial, a “diabólica” do título. A trilha sonora de Cliff Martinez, por sua vez, é deprimente. A cada momento que adentra na narrativa, causa incomodo, tamanho o seu descompasso e falta de equilíbrio. Já em 1998, muito antes da franquia Invocação do Mal e seus derivados, o jump scare é constantemente utilizado para promover sustos durante o decorrer da trajetória doentia de Ellie e de seus familiares.

Em 2018, vinte anos após o seu lançamento, Diabólica nos reforça o olhar ampliado da ficção no que tange aos elementos oriundos da realidade. Inspirada num segmento narrativo da novela brasileira Segundo Sol, uma jovem assassinou a sua mãe com uma injeção de ar, persuadida, segundo depoimento, pelas orientações do namorado, algo similar ao que ocorreu em Pinheiro Machado, cidade do interior no Rio Grande do Sul, chocada com a filha de 12 anos que matou a mãe, juntamente com o namorado, enterrando-a no quintal. Acusados de ocultação de cadáver e homicídio qualificado, ambos fizeram algo semelhante ao que uma garota do Alabama, nos Estados Unidos, fez com a mãe e a irmã, assassinadas por golpes de faca.  Tudo isso apenas em 2018, para ser bem exato, imagina uma catalogação mais detalhada?

Seja na ficção ou na realidade, os casos de jovens mulheres com transtornos psicológicos que causam danos não apenas as suas vidas, mas aos que gravitam em torno de sua existência são assustadores, arrepiantes e absurdamente surreais. Diabólica reflete sobre o assunto de maneira mediana e nos revela as facetas obscuras da mente humana em seu estado de perturbação pura. Se fosse um filme mais cuidadoso, teria ficado na lembrança, tanto nas malhas da crítica quanto em sua circulação mercadológica, no entanto, não foi o caso.

Diabólica — (Wicked) Estados Unidos, 1998.
Direção: Michael Steinberg
Roteiro: Eric Weiss
Elenco: Julia Stiles, Michael Parks, Chelsea Field, William R. Moses, Patrick Muldoon, Vanessa Zima,
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.