Crítica | Diabolik: Por Poucas Horas e O Bracelete Perdido

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Uma sequência de planos simples que por diferentes motivos vão ganhando camadas de dificuldade. Esta é a sensação maior que temos durante a leitura de Por Poucas Horas, uma trama de Diabolik e Eva Kant que nos leva interessados do começo até a penúltima página do volume. E sim, eu disse penúltima de maneira proposital, para indicar claramente que não gosto nada da forma como a história termina.

Como já acontecera neste Ano 54 do personagem (Escrito no Sangue), temos uma artista na mira dos exímios ladrões. Desta feita, porém, trata-se de uma escultora com anterior formação e trabalho na indústria química: Adele Marvis. A artista está para receber preciosas jóias a fim de decorar uma estátua da Duquesa Von Harden, algo irresistível para Diabolik e Eva, que terão uma passagem nada convidativa por um de seus refúgios menos visitados e pouco cuidados, para fazerem a preparação final do crime.

O roteiro de Licia Ferraresi, Andrea Pasini e Tito Faraci consegue nos preocupar e nos distrair com muita habilidade e de maneira bem rápida, direcionando a nossa atenção para uma série de outras coisas que estão acontecendo com os personagens, o que torna a leitura cheia de pistas para a gente decifrar e bastante divertida nesse aspecto. Devido a alguns saltos temporais, o leitor chega a questionar qual será o plano dos roteiristas e, surpreendentemente — porque saltos temporais em histórias como esta tendem a dar problema –, a coisa funciona muito bem. Até a reta final.

diabolik plano crítico por poucas horas capa principal

Como nunca dá para “saber” o que esperar das histórias de Diabolik (a imprevisibilidade é um fator muitíssimo positivo nos quadrinhos do personagem e, para ser sincero, em qualquer história policial/de suspense que se preze) o andamento da história traz cada vez mais assombro para o leitor, com decisões dos protagonistas ou dos coadjuvantes que nos espantam ou nos fazem rir da audácia. E vejam que aqui temos de tudo: vantagem sobre a polícia, perseguição, investigação e a dupla de ladrões sendo colocada em grande perigo durante um roubo que acaba não dando muito certo — destaque para a arte de Enzo FaccioloPaolo Tani nesta parte, com uma fantástica surpresa visual e aplaudível diagramação, manipulando bem o ritmo da fuga e o olhar do leitor para o que acontece ali. As consequências desse roubo, no entanto, é que desaguam em um final que para mim está aquém de toda a história. A atitude de Eva neste caso não é um problema, pois combina com a personalidade da ladra. Entretanto, o encadeamento da última sequência e a escolha visual para representar a “resolução” do caso realmente não foram das mais instigantes. Sorte que o trajeto até este ponto se deu de maneira divertida e inteligente, sem maiores tropeços dignos de nota.

Per poche ore — Itália, 1º de março de 2015
Catalogação: Diabolik #817 | Ano 54 — Número 3
Editora original: Astorina
No Brasil: Editora 85 (Diabolik Vol.1, 2018)
Roteiro: Licia Ferraresi, Andrea Pasini, Tito Faraci
Arte: Enzo Facciolo
Arte-final: Paolo Tani
Capa: Matteo Buffagni
120 páginas

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O Bracelete Perdido

História escrita por Mario Gomboli, Andrea Pasini e Roberto Altariva, O Bracelete Perdido é o tipo de aventura onde o McGuffin se torna o principal guia da narrativa e, através dele, leitor e personagens mergulham em um jogo duplo: descobrir o que é importante e o que não é, no meio de tantas pistas falsas; e decifrar como as coisas importantes foram organizadas pelo gênio do crime e dos disfarces. O jogo segue muito bem em todas as suas partes e finaliza-se com uma apreciação familiar um tantinho estranha para Diabolik e Eva Kant diante das “compras” que fizeram.

Os desenhos de Giuseppe Di BernardoJacopo Brandi criam uma ambientação extremamente elegante para mais esse roubo de Diabolik, corroborando as pistas falsas do roteiro através de ângulos precisos e quadros de contexto para coisas que são apenas parte de um grande disfarce. Como disse na história anterior, uma das melhores coisas do gênero policial/suspense/giallo é a imprevisibilidade dos crimes e do andamento do drama e sua investigação, logo, é extremamente prazeroso acompanhar esse jogo de gato e rato e ver como o protagonista leva a melhor.

Um ponto bacana nessa história é como Ginko analisa a questão, tentando pensar como Diabolik e vendo como deve-se mover as forças policiais para barrar o ladrão, sendo esses momentos muito divertidos de se acompanhar, tanto pela ação visual quanto pelo que essas cenas representam em si ou em sua sugestão moral (afinal, cá estamos torcendo para que um bandido consiga se safar da polícia, não é mesmo?).

diabolik-plano critico o bracelete perdido capa

Fazendo referências a aventuras anteriores como Contra um Fantasma (2002) e Golpe Sobre Golpe (2013) as ações em torno do tal bracelete perdido são uma prova de que definir prioridades é algo importante em todos os ramos. A forma como o roteiro coloca isso em cena e como liga ao planejamento do crime (sem ser didático, o que é melhor ainda) torna algo aparentemente simples em uma inteligente demonstração do pensamento e modus operandi de Diabolik. Talvez por isso é que eu tenha achado o final um tanto estranho, porque aquela cena familiar, um pouco terna, íntima, quase frágil, traz em duas páginas algo não vimos nas outras 118, logo, sem a devida preparação, parece uma abrupta mudança. Mas não é ruim ou ilógico, porque permanece ligado ao produto do crime, algo do qual fomos desviados em toda a edição: as sempre cobiçadas jóias para a coleção (e riqueza) de Eva e Diabolik.

Il bracciale perduto — Itália, 1º de abril de 2015
Catalogação: Diabolik #818 | Ano 54 — Número 4
Editora original: Astorina
No Brasil: Editora 85 (Diabolik Vol.1, 2018)
Roteiro: Mario Gomboli, Andrea Pasini, Roberto Altariva
Arte: Giuseppe Di Bernardo
Arte-final: Jacopo Brandi
Capa: Matteo Buffagni
120 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.