Crítica | Diabolique (1996)

Quando estreou em 1996, Diabolique foi maltratado pela crítica especializada, principalmente pelas inevitáveis comparações com o ponto de partida, isto é, o suspense As Diabólicas, de 1955, uma trama francesa com boa estruturação narrativa e camadas generosas de elementos subjetivos, sob a direção do sofisticado Henri-Georges Clouzot. Na versão estadunidense, qualquer sutileza é deixada de lado, numa trama bem a cara de sua época, onde tudo está ligeiramente escancarado demais e qualquer interpretação mais profunda às vezes torna a recepção um fracasso.

Diabolique não é um primor narrativo, mas convenhamos, mesmo adentrando o campo da vulgaridade narrativa num ponto ou outro, há um clima interessante, reviravoltas orgânicas e bem com ritmo adequado, além de alguns desempenhos injustamente massacrados quando lançado há pouco mais de duas décadas. Em seus 107 minutos, a produção nos apresenta a trajetória das professoras Nicole Horner (Sharon Stone) e Mia Baran (Isabelle Adjani), mulheres que mantém uma relação ainda estranha até para os dias de hoje, era do poliamor e de outras liberdades afetivas. As duas possuem uma ligação nada sadia com o abjeto Guy Baran (Chazz Palminteri), um sujeito grosseiro, machistas e opressor.

Com direção de Jeremiah S. Chechik, cineasta que teve como direcionamento o roteiro de Don Roos, a narrativa constrói duas mulheres de perfis bem distintos. Enquanto Nicole é uma professora de matemática bastante sensual, haja vista os figurinos criados por Michael Kaplan, repleto de fendas e cores insinuantes, Mia é apática, submissa e fria, distante e aparentemente transtornada psicologicamente, muito semelhante ao personagem feminino de O Iluminado, isto é, alguém construído pelo roteiro para ser, digamos, visualmente apática, principalmente quando colocada ao lado de outra mulher com aspecto mais forte e determinado, Sharon Stone pós Instinto Selvagem.

Certo dia elas cometem um delito incorrigível: matam o marido/amante. O que fazer com o corpo do diretor da escola, alguém que provavelmente fará falta nos dias seguintes? Segundo as regras do filme francês, o passo a passo é jogar o cadáver na piscina da instituição que ensinam, um espaço abandonado e sujo, sem utilização. O problema é que depois de planejarem tudo, o cadáver desaparece. Alguém começa um diabólico jogo insano e as professoras entram em pânico, haja vista a fantasmagórica e misteriosa atmosfera que se estabelece. Uma tenta segurar as pontas: Nicole, pois aparentemente acredita que conseguirá driblar os conflitos e os problemas decorrentes do crime, dentre eles, a insistência de Shirley Voguel (Kathy Bates), policial que fareja o desaparecimento do diretor.

A outra se torna ainda mais ensandecida, pois sente que há algo de muito errado, quase a levar o problema para a seara sobrenatural. No desfecho, os problemas são resolvidos, as verdades mascaradas são reveladas e o que era aparente revela-se posteriormente como uma falácia, numa resolução narrativa interessante para um filme cheio de problemas em seu começo e meio, mas ainda assim, climático e com ritmo não nocivo enquanto entretenimento. Levado para o cinema em outras ocasiões, 1974 (Reflexos de Um Crime) e 1993 (A Mansão dos Segredos), o enredo de 1996 mantém laços com a versão francesa clássica e não chega a ser ofensivo como rotulado por alguns textos opiniáticos que circulam no âmbito da crítica, geralmente “auráticos” no processo comparativo entre versões “originais” e “refilmagens”.

Os enquadramentos de Peter James não fazem nenhum trabalho inesquecível, mas a iluminação do diretor de fotografia encontra um equilíbrio harmonioso, adequado para o clima da narrativa. O design de produção assinado por Leslie Dilley consegue estruturar bem os elementos visuais e ofertam ao espectador os aspectos visuais que tornam o filme uma produção com estilo. Kaplan produziu os figurinos e tornou Sharon Stone novamente sensual e brilhante como uma mulher fatal e perigosa, mas também foi eficiente ao construir uma mulher pálida e gélida para a personagem de Isabelle Adjani, insuportavelmente apática na narrativa, de maneira proposital, obviamente, pois a sua presença sofrível é tão narrativa quanto a “fatalidade” da professora de matemática.

Interessante observar a condução musical de Randy Edelman, responsável por dar ao filme a sonoridade das tramas orquestradas por Bernard Hermann, o que nos permite inclusive uma imersão maior na trama, uma produção com suas irregularidades, mas que não chega a ser abominável como se configurou na época de seu lançamento. Em 1996, as refilmagens não eram necessariamente uma novidade no cinema hollywoodiano, mas algo que ganharia maior impacto e dimensão na década seguinte, período de releituras de muitos clássicos, algumas bem sucedidas, outras amplamente desastrosas.

Diabolique — (Diabolique) Estados Unidos, 1996.
Direção: Jeremiah S. Chechik
Roteiro: Don Roos, Henri-Georges Clouzot
Elenco: Chazz Palminteri, Isabelle Adjani, Kathy Bates, Sharon Stone, Shirley Knight, Spalding Gray
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.