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Crítica | Diana: O Musical

por Ritter Fan
1.142 views (a partir de agosto de 2020)

Apesar de ter tido apresentações-teste na Broadway no começo de 2020, o musical Diana, que aborda a vida da princesa do título, ícone da cultura pop, teve que ter sua estreia oficial adiada para 2021 e, com mais atrasos que foram impedindo a reabertura dos teatros tanto nos EUA quanto em Londres, a peça acabou ganhando um registro audiovisual distribuído pelo Netflix antes mesmo de sua estreia oficial em 17 de novembro e que segue – ou tenta seguir – a linha de outras obras como Hamilton, American Utopia e Come From Away, só para mencionar alguns. Considerando a premiadíssima 4ª temporada de The Crown, dedicada em grande parte ao casamento do Príncipe Charles com Lady Di, o musical sob análise e o vindouro longa Spencer, de Pablo Larraín, estrelado por Kristen Stewart, talvez os anos da pandemia sejam um dia lembrados também como os anos de renascimento do interesse pela história trágica de Diana Spencer e sua passagem meteórica, mas inesquecível, pela Coroa Britânica.

Transformar tragédias em musicais não é novidade alguma. O naufrágio do Titanic ganhou esse tratamento em Titanic: The Musical, assim como a história verdadeira de um grupo de montanhistas que teve que partir para o canibalismo para sobreviver, em Cannibal: The Musical, pelo que a vida de Diana, mais cedo ou mais tarde, passaria por essa provação. A diferença é que sua vida, seu sofrimento e sua terrível morte ainda é relativamente recente na memória popular, assim como é uma narrativa personalíssima que lida com abusos de toda sorte, traições e vinganças, pelo que eu tenho minhas sinceras dúvidas se, por melhor que tenham sido as intenções por parte de Joe DiPietro e David Bryan,  levar esse material para a estrutura clássica de musical colorido e iluminado da Broadway era o melhor caminho.

Outro obstáculo é o quanto essa história é conhecida em detalhes pelo público em geral, o que reduz o quanto de novidade o musical pode trazer para além das inventivas formas de se trocar figurinos em pleno palco como em um show de mágica ou de fazer a protagonista aparecer mais de uma vez simultaneamente. Como não há arroubos de fantasia como possíveis desvios narrativos, o livreto acaba se atendo aos acontecimentos da vida real de Diana (Jeanna de Waal) e Charles (Roe Hartrampf), além da Rainha Elizabeth (Judy Kaye) e de Camilla Parker-Bowles (Erin Davie) do momento em que Di conhece Charles até a morte da princesa. Lógico que, considerando a duração de pouco menos de duas horas, houve a necessidade de se eleger os eventos mais relevantes para a adaptação musical feita, o que acabou privilegiando “momentos tabloide” como os vestidos de Diana ou seus casos, com uma passagem rápida talvez demais por um de seus mais inspirados momentos, quando ela visita hospitais com pacientes com AIDS, e minimizando, no processo, o lado psicológico da coisa, como suas tentativas de suicídio e sua bulimia. Em outras palavras, a tragédia, apesar de presente, quase é como um convidado estraga-prazeres em uma festa que o aniversariante tenta manter ao longe o máximo possível.

Se pelo menos o lado musical da peça fosse memorável, eu nem estaria aqui reclamando das escolhas narrativas. A grande verdade é que as composições são quase que completamente fungíveis, uma extremamente parecida com a outra em termos sonoros, sem nenhum resquício de ousadia musical. As letras reduzem momentos terríveis a jogos de palavras bobos, rasos e cansativos que acabam  sendo um desserviço à vida de Diana. Aliás, não só à de Diana, pois Charles, tão bem caracterizado como outra vítima da Coroa na série do Netflix, aqui perde todas as suas nuanças e quase – por muito pouco – não se torna um vilão daqueles bem genéricos e esquecíveis, com Roe Hartrampf tendo dificuldades de sair do mínimo necessário para não tornar sua presença em palco completamente insuportável.

Mesmo com canções pouco inspiradas, Jeanna de Waal, no papel principal, mostra sua boa voz que consegue melhorar até mesmo momentos constrangedores como o nascimento de Harry, segundo filho de Diana (second to none, ha, ha, ha…), mas não consegue tirar sua personagem da mera superfície, quase que desfazendo a imagem de mais do que um rostinho bonito que a peça luta em criar. Com isso, as performances que seguram o musical são mesmo as de Erin Davie, como Camilla, que mostra solidez, inteligência, maquiavelismo e resignação em um pacote poderoso e, claro, Judy Kaye, veteraníssima da Broadway, no papel duplo de Rainha Elizabeth e da escritora Barbara Cartland, favorita de Diana, ainda que essa segunda personagem acabe levando a peça ainda mais para um incômodo lado cômico que não era necessário.

O teatro filmado, aqui, lembra muito mais Hamilton do que Come from Away, já que, diferente do segundo, o primeiro trabalha câmeras no palco, com cortes na sala de edição que emprestam ares mais cinematográficos à narrativa. O problema é que o diretor Christopher Ashley apenas acha que está fazendo algo parecido com o trabalho de Thomas Kail, pois tenho dúvidas se Ashley tem alguma noção de espaço cênico… Ou isso ou a produção exigiu que ele trabalhasse apenas com recortes do cenário para que o espectador porventura interessado na peça ainda se depare com novidades quando for assisti-la ao vivo, mas a impressão que fica pelos cortes, inversões de câmera e ângulos estranhos, é que Ashley não estudou a disposição dos atores antes ou que ele não tinha câmeras suficientes para ter à disposição as tomadas necessárias para sua decupagem. Teria sido tão mais intuitivo se ele simplesmente tivesse se contentado em afastar a câmera e filmar o palco por completo, apenas por vezes estabelecendo planos americanos e close-ups para privilegiar algumas atuações em momentos mais pungentes.

Diana: O Musical definitivamente não é a melhor forma de se conhecer – ou mesmo de se repassar – a vida de Diana Spencer. O teatro filmado do Netflix falha como teatro filmado e também como puro teatro, a não ser que por um milagre a impressão in loco seja radicalmente diferente do que a no sofá da sala. Não vou terminar dizendo que Diana merecia um musical melhor, pois realmente não sei se a vida dela – por mais devassada e escrutinada que tenha sido e ainda seja – sequer merecia ganhar esse tratamento. Uma peça de teatro clássica não-musical certamente tinha potencial, mas um musical, e ainda por cima deste naipe, poderia sim ter sido evitado.

Diana: O Musical (Diana – EUA, 1° de outubro de 2021)
Direção: Christopher Ashley
Roteiro: Joe DiPietro (livreto), David Bryan (música)
Elenco: Jeanna de Waal, Roe Hartrampf, Erin Davie, Judy Kaye, Zach Adkins, Tessa Alves, Ashley Andrews, Austen Danielle Bohmer, Holly Butler, Bruce Dow, Lauren E.J. Hamilton, André Jordan, Gareth Keegan, Nathan Lucrezio, Tomas Matos, Chris Medlin, Laura Stracko, Bethany Tesarck, Stephen Carrasco, Richard Gatta, Emma Hearn
Duração: 117 min.

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