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Crítica | Diário de Um Jovem Médico – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Sem os dias ensolarados de Los Angeles de Private Practice, tampouco na constantemente chuvosa Seattle de Grey’s Anatomy, Diário de Um Jovem Doutor nos coloca, ao longo de duas temporadas breves, mas narrativamente complexas, na trajetória de um médico, tratado na produção como Older Doctor (John Hamm) entre o seu eu atual e as memórias de sua juventude, num “eu” interpretado também de forma brilhante por Daniel Radcliffe, personagens situados numa região rural russa, interiorana e gélida, diferente dos grandes centros urbanos dos dramas médicos badalados da contemporaneidade e suas interações entre Chicago, Miami, Rio de Janeiro, tais como podemos contemplar, respectivamente, em Chicago Med, Nip Tuck, Sob Pressão, etc. Aqui, a medicina ainda não possuía os aparatos tecnológicos que praticamente viram os corpos humanos pelo avesso, num avanço nunca antes visto na história da humanidade, área que no contexto apresentado, ainda tateava descobertas e testava procedimentos.

Situado numa região remota e irritantemente quieta, os médicos precisam lidar com instrumentação rudimentar e técnicas trabalhadas hoje apenas no campo da historiografia da área. Serrotes, iluminação precária, falta de morfina para aliviar as dores. São diversos os conflitos, orquestrados pela direção de Alex Hardcastle na primeira temporada, de 2012, comandada por Robert McKillop na segunda empreitada, de 2013, encerrada com o fechamento adequado dos arcos dos personagens. Os roteiros escritos por Mark Chappell, Alan Connor e Shaun Pye foram inspirados no livro A Country Doctor’s Notebook, do russo Mikhail A. Bulgákov, escritos entre 1924 e 1927, material que embasa os oito episódios totais de 22 minutos, quatro por temporada. Com toques cômicos revestidos de muita ironia, Diário de Um Jovem Doutor possui elementos estéticos sombrios, mas trabalha os seus temas numa dinâmica divertida, voltada ao sarcasmo das situações enfrentadas pelo Doutor ainda em suas experiências preambulares, numa longa retrospectiva realizada no tempo presente.

É um período também cheio de pressões e estresse, com o Doutor sempre a olhar distante, mergulhado na profundidade de sua própria história, contemplativo diante de seus erros e acertos. Tudo começa em 1916, ano em que o personagem é enviado para a vila interiorana, tendo como tarefa, a função de substituir o médico residente do local, o respeitado Dr. Leopold Leopoldovich. Ao chegar, o Jovem Doutor é submetido aos procedimentos estressantes que o levam a se tornar um viciado em morfina. Ele luta constantemente contra o vício, mas a situação devastadora é mais forte que esse médico ainda pouco experiente, figura ficcional que trilhará um caminho árduo para manter a sua sanidade e ser capaz de relembrar disso na fase já madura, seguramente interpretada por John Hamm. Nos quatro episódios da primeira temporada, ele abre o diário e inicia o processo de resgate das memórias. Somos inseridos ao período que demarca os seus 25 anos de idade. Ele precisa lidar com a desconfiança dos demais profissionais diante da substituição do tradicional e metódico Leopoldovich, homem que se torna uma sombra que eclipsa o vigor de seu trabalho nos primeiros momentos.

Ainda nesta primeira temporada, ele se envolve com as drogas e sofre alucinações terríveis na trajetória de abandono do vício. As pressões, no entanto, nunca cessam, indo dos basilares atendimentos para xaropes aos momentos de maior intensidade, como partos e feridos oriundos de frentes de batalha, haja vista o contexto da série, situado no período que a história oficial registrou como Revolução Russa. Trabalham com o Jovem Doutor: Pelageya (Rosie Cavaleiro), enfermeira que será interesse amoroso do personagem inicialmente; Anna (Vicki Pepperdine), administradora das refeições e da estrutura em geral; e Feldsher (Adam Godley), também na função de ajudante nos atendimentos, praticamente um enfermeiro. No segundo ano, uma aristocrata surge como hóspede de passagem pelo local, mulher deslumbrante e misteriosa que tira o foco do Jovem Doutor e o faz adentrar numa jornada ainda mais destrutiva. Ele reflete como foi mau-caráter com Pelageya, como se deixou levar pela morfina, vício que quase o fez perder vidas durante alguns atendimentos, pois era preciso escolher entre o uso em si ou nos pacientes.

Controlada, a substância movimenta não apenas o vício do personagem, mas é também condutora dos conflitos debatidos pela produção, pois ao ser fiscalizado, o Jovem Doutor poderia ter perdido para sempre a sua licença. É uma jornada com momentos de maior intensidade e outros de mais calmaria, para a devida contemplação de seus aspectos estéticos, o que nos leva a perceber que a série cumpre bem a sua jornada audiovisual, aprimorada pela direção de fotografia assinada por Simon Vickery, sombria, pesada, melancólica, com iluminação amarelada para construção da atmosfera memorialística, também interessada em representar um espaço aquecido internamente, em contraste não apenas com o presente mais ensolarado do médico, mergulhado num passado gélido azulado e branco, brilhantemente representado por este setor que ganha ainda mais ao ter o excelente design de produção de Annie Mardinge como material ofertado para captação de imagens. É outro setor que funciona bem, tanto na maquiagem quanto na cenografia e direção de arte, todos repletos de pormenores que permitem ao espectador comprar a ideia e adentrar neste passado envolvente que nos tornamos testemunhas.

Annie Mardinge também assina os figurinos, coerentes com as dimensões físicas, sociais e psicológicas do protagonista e dos coadjuvantes que circundam em cena, em muitas passagens, trajados de branco, cor ideal para o contraste com o sangue dos pacientes que passam pelo local em busca de atendimento e tratamento, alguns bem-sucedidos, outros nem tanto, já em seus últimos momentos. Na condução musical, Stephen Warbeck entrega uma textura percussiva equilibrada com os acontecimentos, melancólica quando precisa ser, mas consciente da música que expele zombaria por todas as suas notas, nos momentos em que nosso protagonista se encontra em apuros. Ademais, Diário de Um Jovem Doutor encerra a sua jornada com arcos devidamente amarrados, mas também deixa a possibilidade para um possível retorno, algo que não aconteceu até então e provavelmente não acontecerá. Sem o tom frenético dos dramas médicos atuais, a série se permite tratar de romances mal resolvidos e outras dispersões, mas o seu ponto nevrálgico é a evolução do protagonista, material dramático de muita qualidade.

Diário de um Jovem Médico (A Young Doctor’s Notebook, Reino Unido/2012-2013)
Criação: baseado no livro homônimo de Mikhail A. Bulgakov
Direção: Alex Hardcastle, Robert McKillop
Roteiro: Mikhail A. Bulgakov, Mark Chappell, Alan Connor, ShaunPye
Elenco: Daniel Radcliffe, Jon Hamm, Adam Godley, Rosie Cavaliero, Vicki Pepperdine, Christopher Godwin
Duração: 23 min (cada episódio – 8 episódios no total)

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