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Crítica | Diários de Motocicleta

por Rodrigo Pereira
420 views (a partir de agosto de 2020)

Escrever sobre Che Guevara nunca é fácil. É o tipo de figura que desperta amor ou ódio em larga escala nas pessoas e, tal qual o argentino, é radical, não há meio termo. Ou se admira ou se detesta Guevara. Pelo menos, é a impressão que tenho, pois nunca cruzei com qualquer ser humano que, quando abordado sobre o tema, tenha dificuldades em escolher um sentimento ou outro.

No entanto, antes de se tornar comandante Che Guevara, uma das principais figuras e líderes da Revolução Cubana de 1959, Ernesto Guevara de la Serna era um jovem estudante de medicina que vivia com sua numerosa família em Buenos Aires. É a partir desse ponto que Diários de Motocicleta começa sua história.

Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, o filme acompanha o jovem Ernesto (Gael Gárcia Bernal), na época apelidado de Fuser e não Che, e seu amigo bioquímico Alberto Granado (Rodrigo de la Serna), o Mial. Enquanto Guevara encontra-se no último semestre da faculdade de medicina, Granado já é formado e está prestes a completar 30 anos. Por conta disso, ambos resolvem comemorar o trigésimo aniversário de Mial de uma forma pouco convencional: viajar de moto de um extremo ao outro da América do Sul.

A ideia dos dois é sair de Buenos Aires e chegar até Caracas, no extremo norte do subcontinente, passando por boa parte do território argentino, chileno, peruano, colombiano e, finalmente, venezuelano. Uma viagem com mais de dez mil quilômetros em cima de La Poderosa, uma moto velha que parecia incapaz de sequer chegar ao final da rua.

Mesmo com um veículo aparentemente sem condições de percorrer tamanha distância, ambos encaram a viagem e Salles começa a definir a primeira metade dessa aventura. Enquanto os amigos começam a percorrer a Argentina, o entusiasmo comum de enfrentar um grande acontecimento fica evidente tanto nas atuações dos atores, que constroem uma química envolvente, quanto na direção de Salles, expondo vários (e divertidos) acontecimentos em um curto espaço de tempo.

Essa dinâmica se estende por praticamente toda a trajetória no país natal, mas começa a mudar conforme a dupla vai cruzando as fronteiras e as dificuldades começam a aparecer. 

Festas, bebedeiras e bons locais para passar a noite vão ficando cada vez mais raros e, em contrapartida, os empecilhos, cada vez mais comuns. Essa mudança fica clara quando os viajantes chegam ao Chile, onde o cenário das pradarias argentinas dá lugar à forte neve da região dos Andes, acrescentando o frio ao grupo dos infortúnios vividos pela dupla, que já conta com falta de dinheiro, alimentação precária e noites ao relento.

Aos poucos, e não por acaso, Salles constrói desafios cada vez maiores e que possibilita aos protagonistas o contato com algumas das diversas mazelas sociais dos povos latinos. E apesar de Mial perceber essas situações e logo seguir em frente, Fuser não consegue parar de pensar (e se indignar) sobre as injustiças que evidencia.

Não à toa o primeiro momento de fúria do jovem Ernesto contra os representantes dessas injustiças vêm contra uma grande mineradora na região do deserto do Atacama. Após passarem a noite com um casal de autointitulados comunistas, que viajam em busca de trabalho, Fuser e Mial presenciam trabalhadores sendo escolhidos para trabalhar nas minas dessa companhia. A maneira como essas pessoas são escolhidas, como se fossem simples peças substituíveis ao menor indício de ineficiência, irrita profundamente Ernesto, que confronta duramente o homem que representa a figura do chefe. Está desperta a chama que transformaria Fuser em Che.

Após esse episódio, que acertadamente se passa no deserto chileno, trazendo a sensação de escassez e dificuldade extrema, nossa dupla segue sua viagem e Salles começa a construir a segunda metade de seu longa.

Nesse ponto, o ritmo, antes frenético e divertido, dá lugar a uma gradativa diminuição de velocidade, dando espaço cada vez maior às reflexões acerca das desigualdades sociais, e sempre com Ernesto como figura representativa central desses pensamentos. O contato com os povos originários peruanos, durante a passagem pelo país, coloca novamente a dupla frente às injustiças, com relatos de pessoas expulsas de suas terras por detentores de poder e dinheiro.

É interessante perceber a atenção aos detalhes do diretor, pois justamente nessa parte da película começamos a ver Fuser com a barba por fazer e crescendo, algo inexistente antes. O contato com trabalhadores comunistas, a raiva direcionada a uma grande empresa privada e a adoção da barba como fato novo são pequenos indícios que Salles nos dá para demonstrar a crescente revolução interna de Ernesto.

A barba sai de cena somente quando chegam à casa do doutor Hugo Pesce (Gustavo Bueno), um amigo de Mial que os dará uma estadia confortável antes de rumarem para Caracas, seu destino final. Aqui, novamente, o cuidado do diretor com os detalhes é encantador, pois Ernesto tira sua barba para logo em seguida ter contato pela primeira vez com escritos de José Carlos Mariátegui, um dos principais pensadores latinos do marxismo no século XX. Isso demonstra o crescente interesse de Guevara no tema que o levaria a se tornar quem se tornou.

Todos esses acontecimentos nos levam para o final da obra em uma colônia de leprosos, em San Pablo. Lá, Ernesto e Alberto passam algumas semanas ajudando a cuidar dos enfermos e são completamente abraçados tanto pela equipe médica e religiosa que gere o local quanto pelos pacientes. Ao final da estadia, nossa dupla se despede de um lugar totalmente mudado, assim como os valores e ideias de Ernesto.

Diários de Motocicleta é muito mais que uma obra que trata somente dos acontecimentos da viagem empregada por Fuser e Mial, é um filme que retrata a atmosfera da estrada e de uma grande aventura com extrema qualidade, nos deixando com imensa vontade de conhecer nossos países vizinhos. Ao mesmo tempo, e com a mesma qualidade, apresenta o início transformação do jovem estudante de medicina Ernesto Guevara de la Serna em Che Guevara, uma das figuras mais famosas e estudadas dentro do campo político e cultural de nosso tempo.

Diários de Motocicleta — Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Peru, Reino Unido, 2004
Direção: Walter Salles
Roteiro: José Rivera (baseado na obra de Ernesto “Che” Guevara e Alberto Granado)
Elenco: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jean Pierre Noher, Sofia Bertolotto, Gustavo Bueno
Duração: 126 minutos

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11 comentários

Rodrigo Rocha Vaz 1 de maio de 2020 - 18:16

Delícia de filme que, confesso, só fui conferir bem recentemente. Personagens históricos sempre geram reações dicotômicas, porém, é sempre importante conhecer a história além daquela que nos é imposta pelo status quo. Show de crítica, “xará”. Em tempo: não encontrei no site resenhas de “Che” de Soderbergh. Cadê ela, comunas safados? HAHA
ABS

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Rodrigo Pereira 2 de maio de 2020 - 00:31

Achei que tivesse me empolgado um pouco quando escrevi a crítica, por isso fico muito feliz que tenha gostado! E concordo totalmente contigo sobre conhecermos a história, é fundamental que busquemos outros pontos de vista além dos que nos são apresentados como verdades absolutas e inquestionáveis.

Sobre os filmes do Soderbergh, os dois “Che” dele estão no meu radar. Quero aproveitar o embalo do Diários de Motocicleta e logo estarão aqui no site.

Abraços!

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de abril de 2020 - 06:34

Eu adorei a forma como você começou a abordar o tema, porque Che é uma figura controversa, e tenho a impressão de que sempre foi ou odiado ou amado por muita gente sem real contexto ou base histórica para tanto. É só perguntar: “de que documento ou narrativa histórica você tirou essa informação?”. Pelo menos no meu caso, a maioria de haters e lovers citam vídeos de youtube, conversas que tiveram com amigo do vizinho do primo de segundo grau do porteiro do prédio da cunhada da prima da tia do indivíduo ou simplesmente “você não viu o film X?”, uma das respostas que acho mais divertidas. Mas deixando isso de lado… também gosto demais desse filme. Gosto da construção da figura desse personagem histórico, da percepção e encontro dele com coisas que definiriam seus caminhos pessoais e políticos no futuro.

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Rodrigo Pereira 28 de abril de 2020 - 11:45

A maioria das narrativas apresentadas são do nível do primo do porteiro morto pelo pneu explosivo, não é? Já cruzei muito com esses exemplos nessa curta vida. Por sorte, o filme vai por um caminho bem mais honesto e, apesar do foco principal ser a grande aventura da dupla, a construção do personagem principal também me encanta. Adorei acompanhar as mudanças internas que levaram Ernesto a se tornar quem se tornou. E, como bem pontuou, é encantadora a percepção do personagem com as experiências que passa. Salles foi muito feliz nessa obra.

É óbvio, entretanto, que só gostamos tanto do filme por sermos dois críticos comunistas safados!

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de abril de 2020 - 15:01

Claro claro! E o Walter Salles também é um kkkomunista, sabia? Diz que ele vai usar os milhões deles para financiar a UNASUL e a URSAL e o FORO DE MOSCOU (é isso mesmo, produção?) para que a nossa bandeira jamais seja vermelha.

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Rodrigo Pereira 28 de abril de 2020 - 17:33

Sabe que ‘alles’ é ‘tudo’ em alemão, certo? Salles nada mais é que um anagrama dessa palavra com o acréscimo de um S, com evidente função de disfarce. Disfarçar do que? Ora, simples, a óbvia tentativa de domínio total (daí o ‘tudo’) do planeta pelos comunistas da KGB-KKK-SS versão 2.0. Nada é por acaso, meu amigo crítico arrombado bosta lixo prepotente do caralho.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de abril de 2020 - 17:42

NOSSA COMO EU NÃO PUDE PERCEBER ESSA MANIPULAÇÃO??? VOU CORRENDO PRO MEU ASTRÓLOGO ACÉFALO RECLAMAR!!!

Thiago Lima 23 de abril de 2020 - 19:40

Walter Salles parece gostar desse tipo de filme. Central do Brasil e Na Estada são filmes com essa mesma temática.
Assisti o filme duas semanas atrás, logo após ter lido o livro.
Uma experiência interessante. Gosto de algumas passagens no livro que mostra um lado meio presepeiro de Che e seu colega, como bons andarilhos viajantes vagabundos pela America do Sul. Pena que isso não foi colocado na adaptação.
Histórias de viagem são antes de tudo histórias de construção de personagens. E é curioso observar que antes do guerrilheiro havia o estudante.

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Rodrigo Pereira 23 de abril de 2020 - 20:20

Ainda não tive a experiência de ler o livro, mas pretendo fazer no futuro. Espero que seja bom como é o filme (o que, pelo teu relato, parece, no mínimo, interessante).

E agradeço pelo toque sobre o erro das cidades, farei a edição no texto para deixar tudo nos conformes!

Abraços!

Responder
Thiago Lima 23 de abril de 2020 - 19:32

Somente uma correção: O leprosário não fica em Caracas, mas em San Pablo, no Peru.

Responder
Thiago Lima 23 de abril de 2020 - 19:32

Somente uma correção: O leprosário não fica em Caracas, mas em San Pablo, no Peru.

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