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Crítica | Dick Tracy (1990)

por Ritter Fan
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Apesar da enorme quantidade de obras cinematográficas e televisivas baseadas em quadrinhos, são ainda poucas as que rasgam convenções do meio e abraçam calorosamente a linguagem da Nona Arte em formato audiovisual sem vergonha de ser feliz. Se Batman, de Tim Burton, foi talvez o primeiro filme do sub-gênero a andar no fio da navalha entre o sério e o cartunesco, Dick Tracy, de Warren Beatty, foi o que realmente escancarou as portas e literalmente colocou os quadrinhos em que é baseado na forma de filme, algo que só viria a ser repetido de verdade talvez com 300, de Zack Snyder e Sin City, de Robert Rodriguez.

A produção, a mais recente de várias baseadas na imortal criação de Chester Gould, de 1931, tem um roteiro simples por Jim Cash e Jack Epps Jr., mas que é capaz de usar uma enorme gama de personagens clássicos das tiras originais nem que seja em breves pontas e sem perder o foco em Alphonse “Big Boy” Caprice (Al Pacino), arqui-inimigo do protagonista, em seu projeto de se tornar o chefe do crime organizado na cidade, o que significa assassinar alguns concorrentes e colocar outros sob sua direta influência. Essa objetividade e linearidade (não se pode esperar mais dos roteiristas de Top Gun e Anaconda, não é mesmo?) abre espaço para os visuais que Beatty quis impor à obra, projeto que vinha tentando colocar nas telonas desde 1975. O primeiro passo foi restringir a paleta de cores a apenas sete e sempre no mesmo tom, com especial destaque ao vermelho, amarelo, verde e azul, com o claro objetivo de emular as limitações dos quadrinhos originais.

Essa determinação funcionou com a primeira peça de um dominó sendo derrubado, gerando uma reação em cadeia. O designer de produção Richard Sylbert notou que as filmagens em locação não faziam sentido se as cores seriam restringidas, sugerindo que tudo fosse filmado em estúdio, com o uso de cenários construídos especialmente para o filme, trabalho que ficou ao encargo de Rick Simpson, assim como o extenso uso de pinturas “matte” criadas tendo os quadrinhos em mente para ampliar os espaços e que foram capitaneadas, assim como os demais efeitos visuais, por Michael Lloyd e Harrison Ellenshaw. Por seu turno, o grande diretor de fotografia Vittorio Storaro (Apocalypse Now, O Último Imperador e o retumbante fracasso Ishtar, produção de Beatty) foi obrigado a fazer mágica com as limitações impostas, triunfando em um visual extremamente colorido, mas ao mesmo tempo estranhamente crível e muitíssimo bonito e hipnotizante.

Mas o visual cartunesco não ficou só nas cores ou no uso de cenários de quadrinhos. Muito longe disso, aliás. Beatty queria ser fiel aos personagens também, e, mesmo que ele próprio tenha de certa forma “abusado” de sua prerrogativa de produtor e diretor e se negado a usar maquiagem e próteses para tornar seu queixo já esculpido em uma exata réplica do de Dick Tracy, ele estabeleceu que quase a totalidade dos demais personagens – especialmente os vilanescos – seriam completamente transformados em suas contrapartidas conforme criadas por Gould. Entram, então, os maquiadores John Caglione, Jr. e Doug Drexler, além da figurinista Milena Canonero, que fizeram mágica transformando Pacino em Big Boy Caprice (a exceção para a regra de personagens parecidos com os dos quadrinhos), Dustin Hoffman em Mumbles, William Forsythe em Flattop, R. G. Armstrong em Pruneface, Paul Sorvino em Lips Manlis e assim por diante com o estelar elenco do filme encarnando de coração cada estranho personagem, valendo especial destaque para o incrível trabalho transformativo de Pacino em uma caricatura bizarra e extremamente exagerada de seu próprio Poderoso Chefão.

Apesar da relativa pouca experiência na direção de Beatty – esse foi apenas seu terceiro longa nessa cadeira -, é impressionante ver como ele coloca tudo em movimento rapidamente e formando um conjunto muito fluido e de fácil compreensão mesmo tendo que equilibrar uma boa quantidade de eventos com uma enorme quantidade de personagens sem perder de vista o lado pessoal de Dick Tracy e sua consistente relação com sua eterna namorada Tess Trueheart (Glenne Headly), sua adoção do órfão The Kid (Charlie Korsmo) e sua tentadora e quase irresistível conexão com a femme fatale Breathless Mahoney (Madonna, então namorando Beatty). Claro que o lado mais humano do filme, centrado no núcleo “sem maquiagem”, por assim dizer, é o menos interessante no conjunto, mas mesmo assim Beatty não perde o ritmo ao inteligentemente brincar com a fome eterna do protegido de Tracy, o amor incondicional e lacrimoso de Tess e, claro, todo o sex appeal de uma Madonna linda e frequentemente lânguida ao ponto do caricato como deveria mesmo mesmo ser. É particularmente interessante ver a progressão temporal ao longo da duração da fita sem que o cineasta precise se valer de marcações artificiais de passagem de tempo, algo que combina com a linguagem dos quadrinhos que ele tanto quis trazer para as telonas.

O que não funciona muito bem é a resolução do mistério sobre a identidade de um personagem sem rosto que aparece ora do lado dos vilões, ora do lado de Tracy, ainda que a pegada mais adulta diante de um visual tão multicolorido – com mortes, técnicas de interrogatório pouco ortodoxas pelo herói e um forte apelo sexual – mais do que contrabalance esse pequeno problema de roteiro. Do lado técnico, a pasteurizadíssima trilha sonora de Danny Elfman, que parece ter reutilizado 90% das notas de seu trabalho do ano anterior para Tim Burton, já mostrando sua tendência em composições futuras, desaponta muito. Mesmo assim, a presença de Madonna com alguns números musicais, inclusive em dueto com Mandy Patinkin, que faz 88 Keys, acaba de certa forma compensando a trilha instrumental genérica.

O tempo passou e o dilúvio de adaptações de quadrinhos intensificou-se e parece não ter fim. A adaptação noventista de Dick Tracy talvez tenha permanecido esquecida diante da sucessão de novas obras a cada ano, especialmente as de super-heróis, normalmente mais populares, mas ela, muito ao contrário, precisa ser resgatada de seu limbo como um grande exemplo de transposição de HQ para filme que de peito aberto agarra a linguagem da primeira e exitosamente, graças à coragem e competência de Warren Beatty, a converte em uma joia audiovisual.

Dick Tracy (Idem, EUA – 1990)
Direção: Warren Beatty
Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr. (baseado em criação de Chester Gould)
Elenco: Warren Beatty, Al Pacino, Madonna, Glenne Headly, Charlie Korsmo, James Keane, Seymour Cassel, Michael J. Pollard, Charles Durning, Dick Van Dyke, Frank Campanella, Kathy Bates, Dustin Hoffman, William Forsythe, Ed O’Ross, James Tolkan, Mandy Patinkin, R. G. Armstrong, Henry Silva, Paul Sorvino, Chuck Hicks, Neil Summers, Stig Eldred, Lawrence Steven Meyers, James Caan, Catherine O’Hara, Robert Beecher
Duração: 105 min.

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