Crítica | Dingo Bells no Sesc Copacabana (24/04/19)

Presentes duas vezes na nossa lista anual de Melhores Álbuns Nacionais do ano, o grupo gaúcho Dingo Bells é, definitivamente, uma das grandes bandas dessa nova geração da música brasileira. Tive a honra de comparecer ao show do quarteto de Porto Alegre nesse dia 24 de abril no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro. Já havia cerca de três anos que não vinham ao Rio de Janeiro, longo tempo sem aparecer por aqui que os membros deixam claro não querer repetir, demonstrando realmente amar a cidade.

Dingo Bells veio divulgando seu segundo trabalho, Todo Mundo Vai Mudar, álbum que figura entre nossos destaques do ano de 2018. Abrindo com O Que Não se Vê de Cara e Sinta-se Em Casa, faixas que considero as melhores do disco em questão, o show já inicia com legítima e estonteante energia, uma vibe positiva de arranjos ensolarados característicos do grupo. Notoriamente felizes de estar ali, mesmo em um Sesc com algumas poltronas injustamente vazias (resultado de um show em meio de semana), a banda demonstrava uma enorme interação e simpatia com o público, uma dinâmica que parecia quase familiar, muito em questão do formato do lugar.

Não faltaram canções do excelente álbum de estreia do grupo, Maravilhas do Mundo Moderno. Mistério dos 30, Maria Certeza, Bahia, Olhos Fechados pro Azar e a derradeira Funcionário do Mês (que contagiou o público no encerramento) eram executadas com maestria e interpretadas com legítima paixão. A harmonia riquíssima da obra em estúdio fazia jus e era entregue com a mesma riqueza ao vivo. É muito válido citar a banda como uma nova geração da música brasileira bastante influenciada por nomes gigantes como Clube da Esquina e Tim Maia.

O carisma do vocalista e baterista Rodrigo Fischmann é enorme, tocando com tremenda destreza e cantando afinadíssimo com seu belo timbre que se encaixa perfeitamente com o rock da banda bastante orientado ao R&B e Soul. Tim Maia era um exímio baterista e a maior voz que esse país já viu, não pude deixar de pensar que o vocalista da banda tem um belo referencial a seguir. Os demais integrantes provam a imensa qualidade técnica da banda, com uma espécie de rotatividade de troca de instrumentos que gerou até brincadeira – parecia quase um time de vôlei trocando de posições – demonstrando o talento como multi-instrumentistas e oferecendo a melhor experiência sonora que podiam.

O show contou ainda com a participação do compositor carioca Rubel, que lançou em 2018 um belo álbum chamado Casas. Apresentaram, então, a boa Partilhar, faixa presente nesse seu recente disco. Rubel parecia um tanto nervoso e tímido na apresentação, mas não atrapalhou a delicada execução da música de sua autoria. Recebeu a responsabilidade de cantar uma das melhores canções do Dingo Bells – Dinossauros, do primeiro álbum – e teve alguns deslizes de interpretação e desafinações que pareciam oriundas do nervosismo (citou como a letra da canção era linda e brincou, com bom humor, que esperava não errá-la). Para uma canção tão importante, o resultado soou aquém do que poderia ser, mas a dinâmica com a banda possibilitou uma boa interação com a plateia.

Faixas como Todo Mundo Vai Mudar, Ser Incapaz de Ouvir, Tem Pra Quem e A Sua Sorte entregaram performances lindíssimas incorporando o melhor que a soul music brasileira pode oferecer. É um verdadeiro presente poder assistir a apresentação de uma das melhores bandas do cenário atual da música brasileira. Mas, acima de tudo, ver artistas que interpretam suas canções com extrema honestidade e paixão, parecendo saber com plena confiança e amor que o material que estão oferecendo ao público é grandioso, valorizando cada nota tocada com um sorriso – isso, meus amigos, não se vê todo dia.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.