Crítica | “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” – AC/DC

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estrelas 4

Em 1975, vozes e riffs pesados vindos da Austrália chegaram aos ouvidos do mundo e demorou apenas um ano para que se tornassem relevantes no cenário musical (notadamente roqueiro). Em 1976, a banda AC/DC relançaria, internacionalmente, o seu disco de estreia, High Voltage (surgido originalmente só na Austrália, em fevereiro de 1975) e também um disco inédito, o terceiro da banda — e um dos mais desprezados –, Dirty Deeds Done Dirt Cheap.

Depois da ótima recepção de T.N.T. (1975) e de uma turnê no Reino Unido, com direito a lançamento do single It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll), a banda tinha motivos de sobra para voltar ao estúdio. Com todas as faixas compostas por Angus Young, Malcolm Young e Bon Scott, o terceiro álbum do grupo começou a ser gravado em janeiro de 1976, tendo como produtores Harry Vanda e George Young (o irmão mais velho de Angus e Malcolm). A versão internacional do disco foi diferente da versão australiana, sendo as faixas R.I.P. (Rock in Peace) e Jailbreak substituídas por Rocker (da versão australiana do álbum T.N.T.) e Love at First Feel, que nunca tinha sido lançada em uma versão australiana antes. Além disso, Dirty Deeds Done Dirt CheapAin’t No Fun tiveram suas durações encurtadas. A presente crítica considera na avaliação as duas versões

Vamos começar com uma pergunta de ouro: por que diabos a banda e os produtores (mais os distribuidores da versão internacional) resolveram cortar a excelente Jailbreak? A faixa tem toda a essência do terceiro disco, é imaginativa, traz uma estrutura de tempo e usos pontuais de instrumentos, organizados de maneira experimental, além de uma das letras mais engajadas e críticas da banda. Tirá-la da versão internacional foi a pior decisão possível. No caso de R.I.P. (Rock in Peace), que também é muito boa, a ausência não é tão sentida, pois a faixa possui a fórmula geral do AC/DC, sem muita coisa que a diferencia ou a torne fortemente relevante no todo do álbum. Mesmo assim, subtrair uma faixa inédita para adicionar outra já lançada (mesmo que seja a simpática e dançante old school Rocker) continua não fazendo muito sentido.

A introdução memorável de Angus Young na guitarra, os vocais explosivos de Bon Scott e a letra esperta de Dirty Deeds Done Dirt Cheap abrem muito bem o projeto. Há uma brincadeira no refrão, feita com voz lúgubre (o backing vocal de Malcolm Young ajuda a fortalecer isso) que sempre serviu de deixa para o público, nos shows, e não é à toa que esta se tornou uma das faixas populares do catálogo da banda. Pena que outra brincadeira do disco, Big Balls, não siga o mesmo caminho. Na maior parte das vezes, a canção vem apenas como uma irreverência cômica, com vocais de apoio realmente engraçados, cantando “WE GOT BIG BALLS! WE GOT BIG BALLS!” mas… a faixa acaba fugindo daquilo que o disco em geral apresenta, tendo apenas dois bons momentos musicais, um na pequena introdução e outro no desfecho, muito bem realizado para a faixa seguinte, Rocker, sempre chamativa em seu grande tempo e com excelentes vocais de Scott.

Uma das famas que o AC/DC ganhou, ao longo dos anos, foi a de que sempre faziam o mesmo disco. Isso pode ser lido de forma negativa ou positiva, dependendo da pessoa, mas atendo-se aos fatos, convenhamos que existem similaridades estruturais, poéticas e de produção musical (em amplo sentido) que sustentam essa fala. No meu caso, como fã e crítico, não vejo isso de forma negativa desde que o material siga em alta qualidade e que tenhamos ao menos lapsos de novidade a cada novo disco. Levantei essa bola aqui para destacar Love At First Feel, uma das faixas mais “sujas” desse álbum, com melodia/ritmo pendendo para o blues durante as estrofes e uma frase-limite (The first touch was too much!) trazendo destaque simples para a bateria e retomada da base harmônica logo em seguida. Essa faixa, sequência em alto nível de Dirty Deeds Done Dirt Cheap, é um dos exemplos de canção que “sempre ouvimos em um disco do AC/DC”, mas que não dá para enjoar ou condenar porque é, sim, uma ótima faixa.

O primeiro lado se encerra com a grudenta (no bom sentido) Problem Child, que começa com o básico riff de três acordes e depois se desenvolve bem, com destaque para a ponte no meio da canção e o solo final, além de um excelente Phil Rudd na bateria. O que me incomoda aqui é o finalzinho, que depois de uns três segundos de silêncio, traz uma outra sequência de acordes que não nos levam para lugar nenhum! A faixa já havia terminado! A produção não deveria ter mantido aquele restinho (ou comecinho?) de música ali. Ficou feio demais.

There’s Gonna Be Some Rockin é uma nova passagem do grupo pelo rock blues, com pequenas variações no arranjo, mas com o tempo inconfundível. Embora não seja exatamente especial, é uma boa faixa. Mas o bom senso da banda cai um pouco em Ain’t No Fun (Waiting Round to Be a Millionaire), que é bastante genérica, simples na guitarra principal, na linha do baixo, nos vocais, e, além de toda a demasiada simplicidade instrumental, é bem mais longa do que deveria ser. As estrofes intermináveis e a falta de variação ao longo desse período (ok, ok, a guitarra rítmica de Malcolm Young entra um puco antes do proto-refrão, mas a diferença é mínima!) não ajudam em nada. Só lá pelos quatro minutos é que temos uma novidade no andamento, mas o padrão da primeira parte se mantém. Não acho que é uma faixa mais fraca que Big Balls, mas acaba sendo um teste de paciência.

Para salvar a lavoura, a balada do disco, Ride On, um grande e adorável elefante branco na discografia do AC/DC, em cativante slow blues, que aponta um outro lado do porte pesado do álbum e que, até na letra, traz uma proposta de mudança do eu lírico. Difícil é não viajar no solo da parte final, nos suaves vocais de apoio e na voz mais plácida de Bon Scott. Uma canção do tipo “para ouvir dirigindo em uma rodovia”…

O disco se encerra com Squealer, a faixa com a melhor linha de baixo do álbum e uma das melhores da carreira do grupo. O início tem um pouco de sutileza da faixa anterior — até engana, porque parece que ficará em notas baixas –, mas ela então cresce em intensidade e nos entrega um excelente final, tanto da faixa em si quanto, do disco.

Dirty Deeds Done Dirt Cheap é uma passada de régua na construção da base do AC/DC. Quase a totalidade das composições gerais da banda foram marcadas até este momento. No álbum seguinte, Let There Be Rock (1977), já vemos que eles se organizariam em torno da confortável e densa cama musical mostrada antes, com uma ou outra diferença ao longo dos anos. Mesmo que não esteja entre os seus mais badalados discos, este terceiro álbum tem uma grande importância na fixação de motivos musicais e, em parte, poéticos da banda. A base do AC/DC estava completa. Daí para frente, era só crescer.

Aumenta!: Dirty Deeds Done Dirt Cheap
Diminui!: Big Balls (embora eu confesse que algumas vezes me pego rindo muito com essa faixa, mas ainda vejo-a como a mais fraca do álbum)
Minhas canções favoritas do álbum: Ride On  e Squealer (na versão australiana, Jailbreak)

Dirty Deeds Done Dirt Cheap
Artista: AC/DC
País: Austrália
Lançamento: 20 de setembro de 1976
Gravadora: Albert (Austrália)
Estilo: Rock, Hard Rock, Blues Rock

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.