Crítica | Dirty John – O Golpe do Amor

A situação é banal, mas quando bem contada, pode render um ótimo segmento narrativo. Mulher solteira procura um companheiro para dividir a sua vida. Depois de uma série de relacionamentos que não foram bem sucedidos, ela se arrisca num aplicativo e conhece o cara que parece ser a presença ideal. Você, caro leitor, provavelmente já deve ter lido, presenciado ou até mesmo vivenciado algo semelhante. A atração é mútua e tudo indicava apenas amor e alegria, mas ao passo que o tempo avança, logo surgem mentiras, traições, posturas obscuras e outras celeumas tomam conta do relacionamento que parecia perfeito. É quando a pessoa se dá conta da enrascada na qual está inserida, vítima de um golpista.

Em alguns casos o golpista é manso, sequer ameaçador. Noutros, causa arrepios quando conhecemos pormenorizadamente a sua mente sombria e doentia. Dirty John – O Golpe do Amor trata do segundo caso, tendo Eric Bana como o responsável por encenar o monstro da vez. Ele surge como todo bom personagem esférico. Aparenta ser algo, evolui aos poucos até demonstrar como opera em serviço. A vítima é a aparentemente ingênua Debra Newell (Connie Britton), empresária bem sucedida que avança rápido demais a relação e põe o novo companheiro como parte intrínseca de sua vida, o que causa estranhamento, repulsa e desconfiança em Veronica Newell (Juno Temple) e Terra Newell (Julia Garner), suas duas filhas, jovens que também passam a correr perigo diante do namorado golpista da mãe.

Criada por Alexandra Cunningham, a série se desenvolve por meio de oito episódios com a média de 50 minutos de duração cada. Focada em problemas típicos dos relacionamentos de cunho abusivo, Dirty John – O Golpe do Amor é uma série inspirada em acontecimentos reais, divulgados num podcast do Los Angeles Times. Apaixonada por John Meehan, a personagem de Britton perde o equilíbrio da racionalidade e em nome do “amor”, cede ao companheiro que exige casamento em comunhão de bens, idas e vindas em um carro luxuoso e restaurantes sofisticados. Ao passo que o enredo avança, os personagens que estão em perigo buscam alternativas para resolução do problema, enquanto o algoz traça as estratégias para burlar o planejamento daqueles que pretendem driblar o golpe sujo, baixo e à beira da violência explícita.

Os oito episódios foram dirigidos por Jeffrey Reiner, realizador guiado pelos roteiros escritos por Sinead Daly, Kevin J. Hynes, Diana Son, Evan Wright, Lex Edness, Christopher Goffard, dramaturgos responsáveis pelos textos geralmente escritos no mesmo nível de eficiência e mantenedores do ritmo necessário para os conflitos avançarem diante da quantidade de temas propostos pelo excelente arco dramático da série. Os realizadores dependem da equipe técnica para alcançar o resultado satisfatório, algo que é alcançado com louvor. Com imagens compostas pela cuidadosa direção de fotografia de Todd McMullen, a série conta com os figurinos de Susie DeSanto, vestimentas que dialogam com a cenografia de Dea Jensen e a direção de arte de Michael Allen Glover para a construção do design dos personagens, setores bem sucedidos em suas respectivas funções. A montagem, assinada por Carole K. Aykanion, Dan Downer e Curtis Thurber vacila entre a dinamicidade e breves momentos de marasmo, mas o resultado no geral é positivo.

No que tange aos aspectos contextuais, Dirty John – O Golpe do Amor trabalha com questões ligadas aos ambientes familiares disfuncionais e os perigos da cibercultura. A personagem desenvolvida com competência por Connie Britton é o grande destaque. Debra reflete a solidão de muitas mulheres contemporâneas, responsáveis por estabelecer o gerenciamento familiar sem apoio de uma figura companheira que a ajude na tarefa de trabalhar e orientar as duas filhas. Com o saldo de quatro casamentos fracassados, ela decide se aventurar na terra dos aplicativos e acaba encontrando o golpista interpretado com desenvoltura e muito talento por Eric Bana, personagem esférico que inicia a sua jornada de maneira sutil e transforma-se num monstro que nos faz esquecer qualquer pitada de sedução dos momentos preliminares ao desfecho trágico. Criado por um pai sem qualquer noção de ética e respeito, ele cresce envolvido numa teia de falcatruas que delineiam o seu perfil psicológico e social na vida adulta.

Outro destaque no bojo das relações familiares é Arlane Hart (Jena Smart), mãe de Debra. Muito longe de ser uma mãe arquetípica, ela tem um passado minimamente curioso, esmiuçado ao longo de um dos episódios focados em radiografar o seu perfil psicológico e a ressonância de seus atos no estabelecimento da família que traz em suas bases uma morte por motivos questionáveis, também envolvendo relacionamentos abusivos e o perdão pouco compreendido por muitos, afinal, quantos casos, caro leitor, você já presenciou de mães que perdoam verdadeiramente pessoas que não prezaram pela vida de seus filhos? Em suma, uma série de personagens brilhantes e envolvidos numa atmosfera equilibrada, graças ao bom texto e ao material estético de primeira linha.

Dirty John – O Golpe do Amor – 1ª Temporada (Dirty John, EUA/2018)
Criação: Alexandra Cunningham
Direção: Jeffrey Reiner
Roteiro: Alexandra Cunningham, Daly, Kevin J. Hynes, Diana Son, Evan Wright, Lex Edness, Christopher Goffard
Elenco: Connie Britton, Jena Smart, Julia Garner, Juno Temple, Eric Bana, Joelle Carter, Kevin Zegers, Jeffy Perry, Keiko Agena, John Getz, Lindsey Kraft
Duração: 50 min. por episódio (08 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.