Crítica | Discurso de um Proprietário

O primeiro filme de Yasujiro Ozu produzido após a Segunda Guerra Mundial é, também, uma de suas mais simples obras. Novamente com um roteiro em co-autoria com Tadao Ikeda, a curtíssima fita aborda singelamente a reação de proprietários de algumas casas empobrecidas nos arredores de Tóquio depois da chegada de um menino abandonado por seu pai.

Trazido da rua por Thasiro (Chishū Ryū em uma ponta), o calado jovem (Hōhi Aoki) passa a morar na casa de Tane (Chōko Iida), uma viúva de meia-idade cuja primeira, segunda e terceira reações são de fugir desesperadamente desse ônus, tratando o menino como um empecilho à sua vida pacata e monótona, com suas relações sociais reduzidas a seus vizinhos e a uma geisha que a visita de tempos em tempos. A simplicidade da narrativa se dá estruturalmente amarrada ao tipo de história que Ozu e Ikeda procuram contar e que segue uma cartilha básica de aproximação entre a mulher azeda e o garoto silencioso. O espectador mais cínico de hoje em dia (categorização em que me incluo, que fique claro) será capaz de perceber exatamente como o roteiro será desenvolvido desde os primeiro segundos em que Kōhei é largado na casa de Tane como uma trouxa de roupa suja.

No entanto, essa característica da obra de forma alguma lhe retira suas qualidades. Ozu demonstra sua maestria usual em lidar com o comum, com o banal, com o cotidiano e aborda magistralmente a vida daquele grupo de pessoas despossuídas tendo que lidar com racionamento, com a destruição ao redor e, claro, com a sombra da derrota ao fundo, algo que Ozu simboliza pela devastação que mostra nas imediações do conjunto de casas, na sujeira das ruas e, de maneira jocosa, na forma brilhante com que o tatame em que Kōhei dorme – e onde faz xixi duas vezes – lembra a bandeira americana.

Suas tomadas externas em plano geral, algo razoavelmente raro em sua carreira até esse ponto, são outros momentos de destaque, notadamente as sequências em que Tane primeiro sai para procurar o pai do garoto e, depois, o procura desesperadamente quando ele foge. Mantendo sua câmera parada característica o mais junto ao solo possível, Ozu lida com o vazio e com a melancolia do pós-guerra de maneira discreta, mantendo esses aspectos sempre como pano de fundo, jamais trazendo-os para a frente e extraindo de Chōko Iida uma excelente atuação que é como se fosse a materialização audiovisual do derretimento de um coração de pedra.

Mas a beleza e a técnica de Ozu só vão até certo ponto, já que o roteiro acaba ficando naturalmente restrito às suas circunstâncias, o que torna até mesmo a duração de 72 minutos longa demais para a história sendo contada. E, assim como Hitchcock em Psicose, Ozu sucumbe à tentação do didatismo extremo ao trabalhar a lição de moral de seu filme em um diálogo doloroso de tão piegas que trata o espectador de forma paternalista demais, sem qualquer necessidade já que o que é dito já havia ficado evidente antes.

Discurso de um Proprietário, portanto, é uma obra menor do mestre japonês que tem o mérito de conter belos momentos líricos em meio a uma história de singeleza extrema que se repete mesmo em sua pouquíssima duração. Como primeiro filme do pós-guerra e que marca sua volta ao cinema depois de cinco anos, o mestre mesmo assim pavimenta, aqui, os grandes momentos de sua carreira nas duas décadas seguintes.

Discurso de um Proprietário (Nagaya Shinshiroku – Japão, 1947)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Tadao Ikeda
Elenco: Chōko Iida, Hōhi Aoki, Eitaro Ozawa, Mitsuko Yoshikawa, Reikichi Kawamura, Hideko Mimura, Chishū Ryū, Takeshi Sakamoto, Eiko Takamatsu, Fujiyo Nagafune, Yūichi Kaga, Yoshino Tani, Taiji Tonoyama
Duração: 72 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.