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Crítica | Disforia

por Leonardo Campos
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Recentemente, numa dessas navegações sem bússola pela esfera virtual pública, procurava informações sobre saúde mental em nosso contexto pandêmico pós-covid e descobri um artigo que dizia o seguinte: 90% da população mundial já sofreu de algum evento traumático ao longo de sua vida. Achei a estimativa grande, mas como é um dado baseado em pesquisa, decidi aceitar a informação que ao meu ver, oferta-se como tão horripilante quanto um filme de horror. É uma afirmação que nos ilustra o quão doente está a nossa sociedade. Dário, psicanalista que protagoniza Disforia, um dos filmes de terror da nossa atual no terreno do macabro, é uma dessas figuras ficcionais que alegorizam a realidade. Ao longo da narrativa, ele vive o que no senso comum conhecemos por trauma. Celeumas de ordem psíquica que obscurecem e impedem os indivíduos acometidos de alcançarem o bem-estar necessário para a sobrevivência, os eventos traumáticos são conflitos com bastante potencial para o desenvolvimento de narrativas cinematográficas, como acontece na saga do personagens, constantemente  a ter sonhos sangrentos e assustadores, situações que nunca sabemos se será alucinação ou parte da realidade.

Trauma, em suas origens etimológicas, vem de “ferida”. É um problema que atrapalha o individuo que o carrega na convivência diante de sua realidade objetiva. Por meio de uma experiência dolorosa, temos a formação de uma memória traumática, oriunda de situações das mais diversas, numa soma de lembranças que mesclam emoções, imagens, elementos sonoros e sentimentos a partir do trauma que pode se aprofundar em momentos de gatilhos. Esse risco iminente, por sinal, é algo que não falta no filme de Lucas Cassales, uma saga de medo e mistério que retrata algo externo que tem repercussão nas zonas psíquicas do protagonista que afunda após uma missão que lhe é estabelecida logo no preâmbulo da narrativa. Os acontecimentos do passado que abalaram a sua trajetória enquanto ser humano cidadão e atuante promoveram uma desestruturação considerável em seu funcionamento psíquico, algo visivelmente trabalhado em cada trecho de Disforia, uma narrativa ambiciosa e sofisticada, problemática apenas em sua letargia que transforma a experiência em algo a ser sentido pelo espectador menos paciente.

O que temos na produção é o estabelecimento de um clima de mistério eficiente, com mais perguntas que respostas, algo que salvaguardas as devidas proporções, podemos dizer que é semelhante ao que David Lynch fez ao longo de boa parte da carreira, isto é, a criação de enigmas, questionamentos sem necessariamente obedecer aos ditames da dramaturgia padronizada que pede explicações para tudo, etc. É nesse clima de “disforia”, ou seja, depressão, ansiedade e inquietude que a direção de fotografia de Arno Schuch cria planos longos, contemplativos, com pouquíssima movimentação, imagens acompanhadas pela imersiva trilha sonora e pelo design de som de Tiago Bello, setor que sabe dosar momentos de silêncio e de ruído, dando ao filme um volume intrigante. Ademais, Maurício Bispo e Richard Tavares, os responsáveis pela concepção visual em Disforia, entregam espaços adequadamente atmosféricos, ambientes que se dividem com os espaços naturais e suas vegetações frondosas e ruas vazias. Porto Alegre, aqui, é uma metrópole fantasmagórica, desfocada e opaca, a gritar “solidão” em cada “frame” do filme.

Escrito pelo próprio cineasta, em parceria com Thiago Wodarski, Disforia nos apresenta Dário (Rafael Sieg), um psicólogo inquieto que tem um problema mal resolvido em seu passado recente e não fosse os seus problemas, ainda precisa lidar com a sua nova paciente, Sofia (Isabelle Lima), uma menina de 09 anos que provoca sensações estranhas diante de todos que estão ao seu redor. Ao passo que o profissional da saúde mental analisa a garota e seu misterioso caso, situações aparentemente enterradas começam a voltar e causar transtorno na vida do protagonista e na passagem de alguns coadjuvantes que gravitam em torno do centro nervoso da trama. Duas histórias, então, caminham para o fatídico encontro do desfecho, num intrigante quebra-cabeça que se torna menos interessante por causa de seu final anticlimático. O marasmo é sentido assim que percebemos que vamos circular entre um mistério e outro, sem a devida solução das crises entre os arcos. A ambição, sabemos, é muito importante, mas aqui faltou um clima mais próximo do entretenimento, pois o excesso de hermetismo em Disforia prejudica o seu acesso para o público mais geral. Isso não desmerece nem torna o filme ruim. Seria injusta uma declaração do tipo. O que falta mesmo é um cuidado maior na condução de algo que mesmo sendo “de gênero”, pode continuar sendo inteligente e sofisticado, sem precisa falar apenas para os seus pares.

Disforia — Brasil, 2019
Direção: Lucas Cassales
Roteiro: Lucas Cassales, Thiago Wodarski
Elenco: Ida Celina, Vinícius Ferreira, Isabela Lima, Gabriela Poester, Martha Brito
Duração: 90 min.

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