Crítica | Disque M Para Matar

Alfred Hitchcock já tinha bancado uma empreitada arriscada no sentido de “fazer uma peça no cinema” quando dirigiu Festim Diabólico, em 1948. Seis anos depois, voltaria ao mesmo palco cinematográfico dirigindo um roteiro de Frederick Knott, baseado em sua própria peça: Disque M Para Matar, filme que caiu no colo de Hitchcock após o fracasso na produção de The Bramble Bush, que deveria ter sido o longa do diretor após a finalização de A Tortura do Silêncio, mas que não deu certo devido a divergências na parceria com o produtor Sidney Bernstein, que já tinha produzido os citados Festim e Tortura, além de Sob o Signo de Capricórnio.

Contra sua vontade e após insistência firme da Warner, Hitchcock aceitou dirigir Dial M for Murder em 3D, o que nos traz o primeiro grande elemento de observação em relação ao filme, fora a sua construção obviamente teatral: há um amplo esforço do diretor em colocar as coisas em perspectiva, e mesmo a cópia mais famosa do filme, em duas dimensões, demonstra isso. Há uma miríade na variação de ângulos pela residência do casal Tony (Ray Milland) e Margot Wendice (Grace Kelly, em sua primeira de três parcerias com o diretor), e a direção procura sempre colocar objetos entre os personagens, favorecendo a ideia de profundidade de campo, que tem a sua mais intensa demonstração no momento de tentativa de assassinato de Margot. Nesta cena, ela estende a mão para trás, em direção à câmera, exprimindo um desesperador e angustiante pedido de ajuda e alongando a perspectiva da lente.

A história tem o mesmo princípio cruel do crime perfeito que vimos em Festim, mas a preparação e quase aleatoriedade de como se mostra flerta com Pacto Sinistro. Aqui, porém, existe um contexto maior em jogo e o personagem de Ray Milland assume aquele tipo de vilão para quem o espectador não consegue de fato torcer contra. Hitchcock já tinha feito isso antes e confessadamente gostava desse tipo de inversão moral por parte do público, fazendo-o “torcer” para que o bandido conseguisse levar a cabo o seu plano ou… até certo ponto em que pudesse ser pego no ápice de tudo o que cometeu. E essa construção se dá aqui em atos muito bem organizados, alguns longos e outros crutos, mostrando o desenvolvimento da história sob o desvio comportamental ou de caráter do triângulo amoroso do enredo, completado por Mark Halliday (Robert Cummings), um escritor de suspense.

O foco nos diálogos e as ações cuidadosamente pensadas colocam o espectador em constante estado de atenção. A saturação cuidadosa das cores e escolhas muito inteligentes do diretor quando se trata de “deslocar a ação” merecem destaque, primeiro na criação da grande expectativa para o crime (cena em que vemos Tony e Mark em um jantar, num hotel) e depois na minha cena favorita da obra, o breve momento em que temos o julgamento de Margot, com Grace Kelly olhando fixamente para frente e a belíssima fotografia de Robert Burks (que venceria o Oscar na categoria por Ladrão de Casaca) aliada à intensa trilha sonora de Dimitri Tiomkin conclui a farsa criada por Tony e dá o máximo de corda possível para o suposto crime perfeito, quase chegando a enforcar a mulher vítima de uma violência, que acaba sendo presa, acusada e condenada como se fosse responsável pelo crime cometido contra ela própria. A violência física de mãos dadas com a violência jurídica.

Experimento visual e indiretamente metalinguístico na condução de uma trama em espaço fechado, Disque M Para Matar é a elegante representação de um crime planejado em detalhes e finalizado com a mesma classe com que é pensado. Contra a obra pode-se falar da estranheza de alguém passar tanto tempo dizendo “alô” em um telefone sem ninguém responder do outro lado (o que é compressível se olharmos isso pelo impacto cênico pretendido pelo cineasta) ou pela maneia meio abrupta como as coisas viram de lado no ato final, o que não deixa de ser verdade, mas não faz com que a obra seja derrubada de seu alto patamar. Uma narrativa tensa sobre a inocência condenada e sobre a capacidade de um grande criminoso em se livrar de seus atos infames, ou pior, fazer com que os outros paguem por eles.

Disque M para Matar (Dial M for Murder) — EUA, 1954
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Frederick Knott
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Leo Britt, Patrick Allen, George Leigh, George Alderson, Robin Hughes
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.