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Crítica | Dívida de Sangue

por Kevin Rick
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Com o rosto castigado pelo tempo tão inclinado quanto um penhasco íngreme, Clint Eastwood, o intérprete e diretor de longa data, é um homem que entende suas limitações. Ele não é um ator, ele é um ícone, e histórias de crime são sua especialidade. O best-seller policial de 1998 do ex-repórter criminal Michael Connelly, Blood Work, no qual é baseado o filme, é uma escolha astuta de material. Em Dívida de Sangue, Clint é uma espécie de versão contrária e geriátrica de seu famoso personagem Harry Callahan da franquia Dirty Harry, e há algo reconfortante em ver este velho detetive se lançar novamente no mundo do crime.

Eastwood interpreta Terry McCaleb, um respeitado agente do FBI que aposenta-se após sofrer um ataque cardíaco perseguindo um assassino em série que deixou múltiplas mensagens a ele nas cenas de crime. Após dois anos, ele está morando em um barco, vizinho do idiota afável Jasper “Buddy” Noone (Jeff Daniels), quando Graciella Rivers (Wanda de Jesus) quer contratá-lo para encontrar o assassino de sua irmã. Terry descobre que o coração que recebeu era o da mulher assassinada, e o ex-agente decide retornar para fazer seu último trabalho. Na época do filme, aos 72 anos, Clint é 30 anos mais velho do que Terry McCaleb de Connelly, mas isso não é tão importante quanto o fato dele ter se aposentado do FBI por motivos médicos. O personagem é definido por sua enfermidade (o título alude igualmente a assassinato e testes médicos), e isso libera Eastwood do tipo de confronto violento que ele não pode mais empreender com credibilidade.

Depois de uma abertura excelente e sombria, o longa segue para um thriller à moda antiga. Nada surpreende, mas sua elaborada maquiagem e quebra-cabeças indistintos são absorvidos pelo roteiro elegantemente seco de Brian Helgeland, enquanto observamos a decadência psíquica de nosso protagonista, mas, eventualmente, testemunhamos sua reconstrução mental para os dias de glória como detetive. É uma história de personagem. Principalmente pelo vínculo com sua médica (Anjelica Huston), seu amigo e vizinho Buddy, entre Terry e uma colega antiga (Tina Lifford) – do tipo que vimos em muitos filmes mais memoráveis ​​de Eastwood – e com a irmã da vítima, Graciella Rivers. Este último relacionamento em questão, que inicia-se de forma orgânica, entre o luto e desejo de justiça de Rivers, em face a culpa e entusiasmo de trabalhar novamente de McCaleb, acaba tornando-se um romance forçado – para dizer o mínimo – comprometendo o arco de ambos personagens. Todavia, isto está longe de ser o principal problema da fita.

O roteiro, que oscila de um trabalho de detetive simplista a um clímax formulado por meio de uma série de reviravoltas que aumentam a credibilidade, é menos do que emocionante. É apenas taciturno quando deveria ser assustadoramente sombrio. Brian Helgeland tem sucesso no desenvolvimentos dos personagens e suas relações – com exceção do já citado romance forçado – mas peca na construção do mistério para a descoberta do antagonista. Normalmente, sou tão lento quanto o ritmo de um filme para descobrir a identidade do assassino, mas a tentativa de plot-twist como feito em Os Suspeitos, ou de tentar chocar o espectador no final como em Seven, não tem efeito aqui. Qualquer pessoa que tenha visto filmes de detetives ao decorrer de sua vida irão ficar desapontadas com a segunda metade do filme.

Clint parece confortável na frente da câmera, e atrás é exatamente o mesmo com sua direção econômica dirigindo o caminho. Aparentemente, o filme foi filmado em apenas 38 dias, e já estava em cartaz 4 meses após a fotografia estar completa. O suspense arrojado está bem localizado e cronometrado entre um pano de fundo corajoso e um esquema de cores sombrio. A trilha sonora de blues suavemente saborosa de Lennie Niehaus, a cinematografia nitidamente pastel de Tom Stern e a edição rápida fortalecem a produção já profissionalmente competente.

Quanto ao elenco, a atitude obstinada de Wanda de Jesus é amável. Jeff Daniels é preguiçoso; o desempenho excêntrico (quase cômico) é uma adição excelente e versátil, ainda que sua mudança de personalidade no final do filme não é bem transposta pelo ator. Um cínico Paul Rodriguez e um sólido Dylan Walsh são bons como dois detetives ciumentos. Tina Lifford soa agradavelmente como uma detetive/boa amiga de McCaleb e Anjelica Huston é impetuosa como a Dra. Bonnie Fox. Mas nosso protagonista/cineasta/lenda é a cereja no bolo do elenco. Ao longo da fita, Eastwood faz um trabalho desconcertantemente convincente de interpretar um homem doente. Quando ele fala em um telefone público, ele se encosta na parede. Ele fica sem fôlego no meio da frase e frequentemente massageia o peito. O famoso estrabismo curioso de Clint – e agarrar o peito – não é uma combinação familiar. Durante todo o filme, as pessoas sempre diziam para ele ir para casa e tirar uma soneca. Parece que ele precisa de uma.

Dívida de Sangue funciona melhor como um veículo estelar. O sutil deleite do herói ao se encontrar de volta ao jogo, a sincera obrigação que ele sente para com a antiga dona de seu coração e seu crescente cansaço físico são todos maravilhosamente transmitidos. Apesar de ser um thriller, o longa é mais satisfatório como um estudo de personagem, do que como um filme de mistério. Uma fábula de suspense satisfatoriamente melhor do que a média, encabeçada pelo sempre confiável Eastwood.

Dívida de Sangue (Blood Work, EUA – 2002)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Brian Helgeland (baseado no livro de Michael Connelly)
Elenco: Clint Eastwood, Jeff Daniels, Wanda de Jesus, Anjelica Huston, Tina Lifford, Paul Rodriguez, Dylan Walsh, Rick Hoffman, Igor Jijikine
Duração: 110 min.

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