Crítica | Divorce – 3ª Temporada

Confesso que foi com grande surpresa que recebi as notícias sobre o lançamento da terceira temporada de Divorce, programa que tal como apontado na crítica do segundo ano, apresentou-se como uma atração morna e sem as reluzentes distrações do universo de heróis extraordinários e conflitos territoriais e sociais em torno de um trono de ferro. Sob a direção de Shira Piven, So Yong Kim, Rachel Lee Goldenberg e Ryan Case, os seis episódios da terceira temporada continuam no processo de observação dos desdobramentos dos ganchos anteriores, em especial, a vida profissional da protagonista interpretada por Sarah Jessica Parker, em novo rumo após os problemas com a galeria.

Frances agora se encontra dividida amorosamente entre alguma afeição por Robert, personagem que marcou a sua história, mas que ela sabe muito bem não ser a pessoa que dê mais certo, haja vista os conflitos e vícios da longa relação, além de não saber lidar cuidadosamente com as dúvidas entre fazer sexo ou não arriscar com o treinador Jeremy (Dominic Fumusa). Há também o seu novo namorado, Henry (James Lesure), gentil, amoroso e compreensivo, mas determinado a ir bastante além do que talvez Frances esteja em termos de preparo.

Robert (Thomas Haden Church), prestes a ter seu filho com a nova esposa, também não sabe ao certo o que deseja. O relacionamento anda confuso, ele não tem mais a mesma paciência do passado e uma nova separação é quase certa. O contato com os filhos continua saudável, equilibrado e a amizade com Frances atravessou o limiar do respeito mútuo e da tranquilidade. Ele também não possui tantas certezas em relação ao fato de ter ou não alguma fagulha de sentimento pela ex-esposa. O que ambos sabem é que há uma possível fase de solidão e incerteza prestes a pairar, sem a possibilidade de se resolver por meio do conformismo, isto é, o resgate de uma relação que já não possui mais sentido de existir.

Assim, Lila (Sterling Jerins) e Tom (Charlie Kilgore) seguem as suas vidas mais tranquilas, sem o inferno das brigas dos anos anteriores. Com menor participação na trama, os filhos do casal protagonista cumprem bem os seus arcos dramáticos, tal como as amigas de Frances, coadjuvantes de ouro, como apontado na análise da temporada anterior. Dallas (Talia Balsam) recebe uma tentadora proposta de casamento com um homem rico, mas bem mais velho que ela, e Diane (Molly Shanon) é assediada por um paciente de postura questionável.

Trajados pelos figurinos de James Hammer, os personagens circulam pelos espaços mais uma vez erguidos por Tim Galvin, ambientes que representam bem a tranquilidade da terceira temporada, a mais amena de todas. Acompanhados pela condução musical de Kiegan Dewitt, os acontecimentos do desfecho da série são registrados pelas câmeras de Joe Collins e John Lindley, dupla que assina a direção de fotografia. Em seus enquadramentos e movimentos, eles seguem os passos dos personagens em seus cotidianos, tudo de maneira simples, mas com um toque sofisticado de quem entende o estilo suave e compenetrado da série.

Ademais, a terceira temporada de fato deveria ser a última. Não havia mais conteúdo que justificasse outros episódios. A estratégia de compilar tudo em seis episódios também foi um caminho muito inteligente, pois evitou que Divorce despencasse no abismo do marasmo. Seu final aberto, com decisões que nos reforçam que a vida continua, apresentou-se como uma boa opção de encerramento. Não há final feliz, tampouco tragédias. O que há é a realidade pulsante. Divorce não vai nos deixar com a sensação de finalização brusca. Terminou no momento certo. Um desfecho digno para uma jornada idem, assinada por Liz Tucilloshowrunner da temporada.

Divorce – 3ª Temporada (EUA, 2019)
Showrunner: Liz Tucillo
Direção: Jesse Peretz, Ben Taylor, Adam Bernstein, Jamie Babbit, Beth McCarthy-Miller
Roteiro: Sharon Horgan, Paul Simms, Patricia Breen, Cindy Chupack, Tom Scharpling, Adam Resnick, Hayes Davenport, Gabrielle Allan, Jennifer Crittenden
Elenco: Sarah Jessica Parker, Thomas Haden Church, Molly Shannon, Talia Balsam, Tracy Letts, Sterling Jerins, Charlie Kilgore, Jemaine Clement, Alex Wolff, Dean Winters, Jeffrey DeMunn, Yul Vazquez
Duração: 30 minutos (06 episódios)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.