Crítica | Doctor Who – 11X01: The Woman Who Fell to Earth

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“Change, my dear. And it seems not a moment too soon”.

Muito se especulou sobre as grandes mudanças que Chris Chibnall (em parceira com Matt Strevens), o novo showrunner de Doctor Who, havia comentado em entrevistas, destacando ideias como: “show para a família“, “show onde novos espectadores podem começar a acompanhar a série” e, a mais repetida, “abordagem bem diferente“, referindo-se aí à dinâmica proposta e executada por Steven Moffat, que deixou o comando da série no derradeiro Especial de Natal do 12º DoutorTwice Upon a Time. Ali, terminamos com Jodie Whittaker caindo da TARDIS. E aqui temos a sequência daqueles eventos.

O que mais chama a atenção nesse início de 11ª Temporada é a aparência cinematográfica que a série ganhou. O diretor Jamie Childs soube utilizar com cuidado as lentes anamórficas e dar aquela ampliação horizontal bonita que temos nas grandes panorâmicas, algo que vemos já na primeira sequência do episódio, com Ryan Sinclair (Tosin Cole) — que sofre de dispraxia — aprendendo a andar de bicicleta. A forma técnica, na TV, quando abraça a vertente cinematográfica, sempre traz uma impressão de renovo, e é justamente isso que temos aqui. Mas não apenas no visual. A forma como Childs dirige o episódio também destaca isso. Há inclusão do espaço eletrônico (o vídeo que Ryan grava no Youtube, na primeira cena), há grande exploração do espaço urbano e boas cenas de ação com pitadas de suspense, explorando bem a sensação causada por lugares altos e dando toda atenção possível à apresentação da Doutora, deixando a sua marca (seguindo a mensagem da encarnação anterior) de nunca ser cruel, nunca ser covarde, rir muito, correr rápido e ser gentil.

A narrativa aqui é de outra categoria. Ela está mais próxima do público porque se vê assim o tempo inteiro. Temos uma família com suas brigas e ternuras, pessoas com problemas que podemos entender e pessoas com quem podemos nos conectar, mesmo que o roteiro ainda pise em terrenos de facilidades e conveniências que não combinam com o rigor do restante, vide o encontro não tão provável entre dois colegas de Ensino Médio justamente num caso como aquele, ou o fato de Ryan não se sentir nada assustado ou impressionado com o primeiro contato alien que tem, ou ainda a posição final de Grace ao subir na torre, personagem absolutamente sensacional de Sharon D. Clarke, que eu realmente lamentei que tenha morrido. No entanto, esses tropeços aqui não nos impede de curtir o episódio pelo que ele é e para o que acena esta nova Era de Doctor Who: uma aventura familiar e ao mesmo tempo sci-fi, sabendo alterar bem o lado impossível desse Universo com a crônica da vida. E aí entra a nova e mais importante cara dessa aposta. A 13ª Doutora.

Vamos ao decreto: Jodie Whittaker é sensacional! A energia que essa mulher emana é contagiante. Suas caras e bocas, seus gestos expansivos, sua posição boba diante do perigo e ao mesmo tempo magnética e urgente, sua coragem de descoberta, sua forma de lidar com o perigo e de encarar a si mesma… eu transbordei de felicidade, na sala de cinema a cada minuto que observava a atriz na tela. Na minha leitura, é impossível não se apaixonar pela Doutora de imediato. Tudo o que gostamos, esperamos e queremos no personagem está nesse novo corpo, que — e isso é muito importante! — fala de sua nova face mas não utiliza essa fala como um fato em si mesmo. Lembrem-se desse diálogo:

__ Espere aí, por favor, senhora. Eu preciso que você faça o que eu digo.
__ Por que você está me chamando de ‘senhora’?
__ Porque… você é uma mulher?
__ Eu sou? Isso combina comigo?
__ O que?
__ Ah sim, eu me lembro! Desculpe, meia hora atrás eu era um escocês de cabelos brancos.

Existem inúmeras formas de se apresentar questões de representatividade em uma obra e, para mim, a mais legal é aquela que faz da inclusão algo que a inclusão sempre deve ser: a percepção da minoria como algo de fato normal, exposta de maneira orgânica, sem ser tratada com um exotismo especial que necessita de explicações, justificativas, jeitos especiais de introdução para se fazer valer. Moffat já tinha colocado isso de maneira incrível em dois momentos de seu run, primeiro, com a revelação de Missy em Dark Water, depois, com a trans-regeneração na Câmara de Extração, em Hell Bent. Aqui, o padrão é o mesmo, mas a personagem em cena tem maior importância, os olhos estão voltados com mais atenção para ela, muita coisa dependia dessa realização. E o tom, o momento, a forma como a Doutora se percebe foi pensado com muito cuidado e exposto da exata maneira que deveria ser: sem espetáculo. Se eu quero que algo seja normal, eu preciso tratar isso como normal, em qualquer cenário. E vejam que essa premissa é diluída em outros momentos do capítulo, como a experimentação das roupas e a escolha do ótimo figurino da Doutora ou a incrível cena da construção da chave de fenda sônica. Bravo, Chris Chibnall!

Este é o terceiro episódio de pós-regeneração da série onde não temos cenas dentro da TARDIS (os outros são Spearhead from Space e Robot) e o décimo episódio da história da série onde a nave sequer aparece (desses sem-TARDIS, os meus favoritos são Mission to the Unknown, Genesis of the Daleks e Heaven Sent). Isso deu a oportunidade de o roteiro explorar outras coisas e gerar a óbvia expectativa no público para o que viria adiante. No entanto, esta foi uma coisa que me fez uma falta enorme aqui. A outra foi a formal exibição da nova abertura, com diferente arranjo para a música-tema da série. A trilha sonora, que agora está a cargo de Segun Akinola, já faz sua presença se sentir de maneira imponente aqui, especialmente nas cenas de suspense e na apresentação do ótimo vilão Tzim-Sha, mais aquele elétrico coletor de dados chamado Gathering Coil.

Dos novos companions, aquele a quem mais me conectei foi Ryan, mas eu gostei de Yasmin “Yas” Khan (Mandip Gill) e de Graham O’Brien (Bradley Walsh), mesmo que este último tenha sido o personagem com quem eu menos tive aproximação, todavia, não desgostei dele. O final, com um excelente gancho para o episódio seguinte, é, literalmente, de tirar o fôlego. The Woman Who Fell to Earth termina com um tom de grande aventura e marca mais um ótimo momento de “companheiros por acaso” na vida da Doutora, um início que realmente dá as cartas da mudança, abraça o momento histórico (e necessário) na vida da personagem e da série com grande qualidade estética e dramatúrgica, trazendo um roteiro que, mesmo com as conveniências do meio do caminho, nos encanta e nos deixa animados para o que virá. Jodie Whittaker já começa fazendo história e sendo amada. É “excelente atriz” que chama, não é?

para G.F.

Doctor Who – 11X01: The Woman Who Fell to Earth (Reino Unido, 7 de outubro de 2018)
Direção: Jamie Childs
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Philip Abiodun, Hazel Atherton, Sharon D. Clarke, Tosin Cole, Jonny Dixon, Mandip Gill, Asif Khan, Asha Kingsley, Stephen MacKenna, Janine Mellor, Samuel Oatley, Amit Shah, James Thackeray, Bradley Walsh
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.