Crítica | Doctor Who – 11X06: Demons of the Punjab

Demons of the Punjab plano critico doctor who

  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

A Partição da Índia ocorreu entre os dias 14 e 15 de agosto de 1947 (sendo a independência da Índia oficialmente declarada no dia 15), resultado final de longa luta cujos últimos anos tinham na pessoa de Mahatma Gandhi um de seus grandes representantes. A “grande partilha” ocorreu com a quebra do país a noroeste, onde surgiu o Domínio do Paquistão no dia 14 de agosto. Assim, Índia e Paquistão passaram a discutir o domínio de territórios onde haviam maioria muçulmana ou hindu. Basicamente quatro grandes províncias entraram nessa disputa: Assam (hoje Índia), Caxemira (hoje dividida entre Índia, Paquistão e China, mas a situação ainda é complicada por lá), Bengala Oriental (hoje Bangladesh) e Punjab (hoje divido entre Índia e Paquistão). É neste último território, justamente em sua fronteira, que a TARDIS se materializa para nos contar a triste e politicamente sensível história da família de Yaz.

O que havíamos levantado como possibilidade em The Tsuranga Conundrum se concretizou aqui. Yaz era a única dos três novos companheiros da 13ª Doutora que não tinha recebido uma decente exploração do roteiro, considerando suas raízes e história. Tivemos um primeiro encontro com o meio familiar da jovem policial em Arachnids in the UK, mas ainda assim faltava algo que desse a ela um contorno mais forte, e isso veio em Demons of the Punjab. Este é um episódio exclusivamente familiar, desprovido de um vilão alien (a virada narrativa no texto de Vinay Patel é muito boa) e com a introdução de mais uma raça visualmente sensacional para a galeria de Doctor Who, os antigos assassinos Thijarians — hoje observadores daqueles que morrem sozinhos –, que parecem uma mistura de deuses egípcios com Predador.

Até o momento, este episódio é o meu segundo favorito da temporada, depois de Rosa. Curiosamente, os dois possuem muitas coisas em comum, mas adotam estratégias diferentes para mostrar como uma luta, uma ideologia e um cenário histórico podem interferir negativamente na vida de uma pessoa… Ou isso é o que temos em uma leitura rápida do enredo. Esse início de Era Chibnall tem mostrado como adversidades podem ser transformadas em pontes para encontros, amadurecimento e revoluções completas na vida de pessoas e até da História do Mundo, um conceito que sim, rondou Doctor Who desde sempre, mas nunca recebeu um tratamento cronista e aberto como o que temos nessa Temporada. Em parte, isso pode ser explicado pela maneira como o showrunner construiu a personalidade da Doutora, num nível máximo de empatia; mas também pode ser entendido como uma forma de trabalhar a série em uma sequência consciente de buscas, reconhecimento e encontros com o cotidiano de pessoas em dificuldade e prestes a fazer algo grande em distintos tempos e lugares.

Jamie Childs volta à direção (ele assinou o piloto da temporada, The Woman Who Fell to Earth) e novamente temos um aproveitamento inteligente das locações e também dos sets, além dos ótimos efeitos para o deslocamento espacial dos Thijarians (me lembrou o método de aparatar do Universo Harry Potter). Outro fortíssimo ponto aqui é a música de Segun Akinola, que parece não perder a mão um só momento. A base orquestral em todo o capítulo é de uma beleza e melancolia imensas, o que se completa com os toques de música tradicional daquela região do Paquistão, tanto em blocos com instrumentos típicos quanto nos momentos onde temos um coro em lamento. Tirando os minutos iniciais do episódio, que parecem deslocados em continuidade, temos aqui uma sequência de eventos absolutamente fascinante.

Visualmente falando, o capítulo consegue até estar um passo à frente de Rosa na direção de fotografia (saturada, com verde e tons térreos em evidência) e ainda ganha uma montagem exemplar, ligando os Thijarians ao drama familiar que envolve segregação e ódio ideológico vindo desse apego doentio de algumas pessoas a uma linha invisível que divide territórios e humanos, como se isso significasse alguma coisa. Os demônios do Punjab, assim como em qualquer lugar do mundo, são os humanos intolerantes. E infelizmente esta é uma situação-padrão da nossa espécie. Hoje, tantos anos depois, nós conseguimos ver exatamente o mesmo padrão de comportamento e execução em níveis sociais e políticos. Mas cortando o ódio existem aquelas boas pessoas (Graham, que fica melhor a cada episódio, definiu isso muito bem) que se recusam a ver a segregação como algo válido para uma sociedade, para uma vida. E não existem demônios históricos ou ideológicos capazes de impedir que esse tipo de visão vença. Demore o tempo que for. Yaz é uma prova disso. E os sobreviventes de qualquer minoria ou vítimas de desmandos estatais ou qualquer tipo de ódio disseminado e organizado, idem.

Doctor Who – 11X06: Demons of the Punjab (Reino Unido, 11 de novembro de 2018)
Direção: Jamie Childs
Roteiro: Vinay Patel
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Nathalie Cuzner, Leena Dhingra, Barbara Fadden, Emma Fielding, Ravin J. Ganatra, Shobna Gulati, Hamza Jeetooa, Shaheen Khan, Isobel Middleton, Bhavnisha Parmar, Amita Suman, Shane Zaza
Duração: 48 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.