Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.