Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

por Luiz Santiago
212 views (a partir de agosto de 2020)

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.

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23 comentários

Caio Vinícius 3 de fevereiro de 2020 - 00:01

Poxa… Não gostei. Achei sem sal e, sinceramente, preferi Orphan 55. E estou meio desanimado pela trama Gallifrey/Mestre ter ficado de lado.

Enfim, espero que o próximo episódio me agrade mais.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de fevereiro de 2020 - 00:24

Minha reação é oposta em tudo a esta sua. Espero que se divirta mais no próximo.

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Caio Vinícius 3 de fevereiro de 2020 - 23:15

Morto estou. Assisti o próximo episódio e… estou sem chão.

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Augusto 22 de janeiro de 2020 - 23:42

Gostei bastante do episódio, o melhor da temporada até aqui. A Doutora e os companions funcionaram bem, mas o maior destaque e o que fez o episódio ainda melhor foi o Tesla, adorei a representação do personagem, uma das melhores figuras históricas que eu lembro terem aparecido no programa e a trilha sonora realmente foi muito boa. Também não gostei muito do jeito como o Edison é mostrado e a vilã foi a parte mais fraca da história pra mim, mas de resto tudo muito bom, deu pra esquecer bem o último episódio. Quem sabe agora a temporada engrena.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 23 de janeiro de 2020 - 03:13

Rassilon te ouça, meu velho.

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Filipe Isaías 22 de janeiro de 2020 - 18:11

Tirando a vilã e a montagem, gostei bastante do episódio. O Tesla é maravilhoso, com esse arquétipo do gênio que nasceu na época errada, e o Edison é legal, mas desnecessário na trama. Poderiam ter deixado ele só como uma presença falada no episódio, já que a vilã serve como uma referência ao próprio Edison, no quesito “patente de invenções”.

Você falou da trilha sonora, e eu concordo que ela é um acerto no episódio. Mas acho que falta um bom tema pra Judite, coisa que o Matt é o Capaldi ganharam nos seus primeiros episódios. Eu até achei um tema oficial dela, mas pra ser sincero não lembro dele ser tocado em nenhum episódio:

https://youtu.be/-gNz_6HeaW4

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de janeiro de 2020 - 22:58

É um tema bem bonito, combina com ela, com a melodia marcante ali depois da intro e que dá para repetir como ponto marcante para a gente se acostumar. MAS também não me lembro de ouvir tocando em nenhum episódio não. Ainda assim, que coisa linda, hein!

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Rafael Lima 22 de janeiro de 2020 - 12:07

Os episódios de Celebridade Histórica raramente decepcionam em DW, e aqui não foi diferente. Eu sou grande fã do Tesla, e adorei a forma como o episódio trata o cientista, assim como a relação dele com a Doutora e com a Yaz. Alias, a forma meio “do nada” que a Time Lady e os Companions surgem na história foi muito bem executada.

Tive problemas com a vilã (assim como tive com a Imperatriz Racnoss no passado). Esses vilões humanoides/aracnídeos decididamente não funcionam comigo em DW. Aqueles closes insistentes me irritaram.

Quanto ao Edison, entendo o seu ponto, mas é meio difícil contar uma história do Tesla e ser simpático com o Edison. Concordo com você que o episódio exagera em relação ao Edison (ainda que não invente nada sobre ele também). Afinal, Edison era sim primeiro homem de negócios e depois cientista (não que tenha algo errado com isso) e recorria sim a espionagem industrial (isso sim é errado). Mas o episódio pega um pouco pesado demais ao fazer um paralelo discreto entre ele e a vilã. Edison não era perfeito, ele era mais pragmático, e sim, predatório que Tesla, e o roteiro podia ter dado a ele um pouco mais de reconhecimento, mesmo que ainda escolhesse o “lado” do Tesla do conflito.

Mas ainda assim, um episódio muito divertido.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de janeiro de 2020 - 12:13

No cômputo geral, você daria a mesma nota que eu ou um pouco menor, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus?

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Rafael Lima 25 de janeiro de 2020 - 01:37

Cara, apesar de achar que você gostou um pouquinho mais do que eu, daria 4 estrelas também.

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AmyButler36 25 de janeiro de 2020 - 16:38

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Stella 21 de janeiro de 2020 - 19:40

Não estou na mesma vibe que voce nessa temporada, começou bem pra mim e degringolou. Agora vou rever se continuo assistindo ou se desisto e só volto na próxima temporada. Como fiz com a Decima que detestei, só vi o final após o episodio 7.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 20:21

Nossa!

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Stella 21 de janeiro de 2020 - 20:32

Ta difícil pra mim migo. Amo Doctor Who, mas os roteiros estão fracos demais. Os efeitos pratico e digitais cairam bastante de qualidade, acho que teve corte de custos, após as criticas negativas da temporada anterior.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 21:24

É, se está difícil pra você, não tem jeito mesmo.

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Maximus 21 de janeiro de 2020 - 15:10

Vai ter crítica da segunda temporada de sex education?

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 15:49

É possível, no futuro.

Responder
Mônica Barros 21 de janeiro de 2020 - 14:39

Sinceridade, sempre. Gostei do episódio, mas não tanto assim. Aquela rainha humanóide de uma raça de escorpiões não me convenceu, a aparência dela e os closes excessivos me distraíram demais. Adorei o Tesla, achei o Édison um pouquinho forçado mas aceitável, mas a vilã… que dureza. Chata e burra – como alguém que encontra a Doutora continua querendo o Tesla? A Doutora obviamente estava muito mais familiarizada com as peças e tecnologias que ele. A insetóide poderia ter ameaçado a Terra para tentar pegar a Doutora como mecânica da nave e a história seguiria igual… Episódio bonzinho e só.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 14:50

“chata e burra” AUAHUAHAUHAUAHAUAHU eu ri demais com essa definição. Olha, mesmo gostando da vilã, eu entendo você, @disqus_tdwJ4VywKX:disqus.

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wemerson emanoel da silva 21 de janeiro de 2020 - 11:30

Sempre sensato como sempre parabéns Luiz.

Aaaaaaa que ep lindooo ❤❤❤
Tesla tão lendário.Edison que lute.
Ri e me emocionei muito no ep.Tem ciência e engenharia( doutora uma das que mais põe a mão na massa) , fatos históricos ( eps históricos humilhando eps no futuro como sempre), mensagens, uma vilã reciclada mas que segue a linha do ep, atuações ótimas, cenas de ação maravilhosas( especialmente a com Yaz e Edison correndo bem dirigida) e a Doutora mentendo medo em vilão como gostamos 🙂 a Tardis azulada é muito perfeita e os cenários do ep foram bem feitos.

Eu achei muito engraçado a yaz jogando a barraca de pão nos robôs kkkkkkkkkk Nao achei o edison burro. Em diversos momentos ele usou a lógica.

Queria ter visto a Doutora em outra roupa e falam duas vezes que uma arma silluriana é alienígena. Erros bobos. O ep pra mim ppdia ser maior pra não ficar tão apressado no final.

Bradley e Tosin têm otima química quando interagem e fica muito divertido. Eu amo e gostaria d ver mais mas tenho medo de ficarem distante da Doctor tbm.

Essas foram minhas impressões 🙂

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 11:34

Os companions nessa temporada estão tendo um tratamento BEM MELHOR do que na temporada anterior. Ainda tem problemas, mas no todo, os roteiros estão sabendo trabalhar melhor com eles, o que é ótimo.

E concordo contigo: a TARDIS azulada é linda demais. Eu gosto muito dessa TARDIS, esses cristais brutos que faz parecer uma caverna. Realmente gosto. E azulada fica lindíssima!

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Pedro Sebastião Pereira Amaro 21 de janeiro de 2020 - 10:12

Que alegria me inspira. Para mim é o melhor episódio da menina Judite até o momento. Sou suspeito pq sou engenheiro eletricista fascinado com a história do menino Tesla ( Já escrevi até fanfict com o 7th, a Ace e ele link https://mega.nz/#!z80XiC5A!i6lS6Wm2WiEi5UZwMcU_uZhtRlNUssy-Z9_L7h_iRvk). A forma como é descrito o sentimento de inventar me encheu os olhos de lágrima. A única coisa que ficou meio fora de tom foi, como vc muito bem disso, a quase demonização do menino Edison ( que também tem um ator perfeito pro papel) que apesar de tudo era também um grande inventor, mesmo que em alguns pontos tenham utilizado isso com bastante esperteza.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 21 de janeiro de 2020 - 10:47

Que fantástico, @pedrosebastiopereiraamaro:disqus! É muito legal quando a gente vê coisas relacionadas à nossa profissão receberem uma ligação tão foda nesse Universo da série. É como eu me sentia nos melhores arcos com a historiadora Barbara ao lado do 1º Doutor e da Evelyn, ao lado do 6º. 😀
Esse episódio foi muito bacana mesmo.

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