Crítica | Doctor Who – 12X06: Praxeus

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Como existe uma similaridade de proposta deste episódio com o pior da temporada até agora (Orphan 55), eu vou reservar um tempo para falar da estrutura desse 12º ano do do show antes de entrar no episódio propriamente dito. E isso se deve não apenas à já dita proximidade temática como também ao caráter humano que ele traz, envolvendo recorte étnico, de sexualidade e ambiental. Eu já imagino os Megazord do Ódio vazando óleo e usando o termo “politicamente correto” errado e fora de contexto. O primeiro ponto que eu quero levantar é sobre a questão ambiental. Já fiz um apanhado histórico em relação à série lá no texto de Orphan 55, e mantenho exatamente a mesma opinião aplicada a este aqui, de modo que não vou repetir a mesma coisa. Menos um assunto. Já o segundo ponto é sobre o que faz esse episódio ser problemático, e o que é mais triste: isso tem pouco a ver com o episódio em si.

Para não ser injusto, eu restringirei o meu escopo comparativo apenas à Nova Série, mas quero deixar claro que há um número gigantesco de exemplos na Série Clássica que dão suporte ao meu argumento. E para não perder tempo, vamos nos ater apenas a Doctor Who, certo? Vamos lá. É um padrão para a série, desde o seu revival em 2005, manter uma estrutura organizacional de temporadas que tenha mais ou menos essa dinâmica: “apresentação de problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com mínima ligação; episódio chocante ligado à problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com alguma ou nenhuma ligação; reta final com diferentes níveis de relação diante da problemática da temporada; Finale“. Ou seja, todos nós já estamos acostumados com os fillers elegantes ou charmosos de Doctor Who, embora existam exceções (óbvio!), como os fartamente lembrados Love & Monsters e Fear Her, embora não sejam os únicos. Com isso já tiramos um “problema que não é um problema” de cena: episódio filler ou relativamente solto na temporada nunca foi uma novidade na série. TODAS as temporadas do show são organizadas com “pausas para respirar” e dar a oportunidade de colocar o Doutor num cenário diferente, sem real compromisso com a temática maior. Este não é o problema. O problema aqui é…

… a absurda falta de sensibilidade de Chris Chibnall (e sim, isso é culpa dele porque uma das coisas que ele mesmo disse que tem é a opinião final em relação à organização dos episódios na temporada) em fazer com que uma trama tão destoada da temática central seguisse a um episódio do nível de Fugitive of the Judoon. Eu, como espectador, imaginava uma sequência imediata, mas se não isso, pelo menos uma ligação direta e dramaticamente relevante em torno daquela ideia! O que tivemos com Praxeus, que é um bom episódio, foi uma quebra total após um turbilhão de informações, interferindo de fato na qualidade da temporada e também na forma como a gente vê o episódio. E você pode argumentar que a passagem para este foi 100% mais elegante que a de Spyfall – Part Two para Orphan 55, e eu concordo. Agora vamos pensar um pouco sobre a maneira como a ligação foi feita: o que o roteiro estava tentando nos sugerir? Que os sinais colhidos em 3 continentes diferentes teriam alguma coisa a ver com o drama dos Judoon ou um assunto correlato, certo? Pois cá estamos, falando inteiramente de outra coisa. Que organização estranha de grade da temporada, meu Santo Omega!

Já o episódio em si foi uma experiência divertidíssima para mim. Eu gosto muito da estrutura frenética de abordagem de Chibnall, que aqui escreve o roteiro ao lado de Pete McTighe, mesmo autor de Kerblam!. O que é melhor nisso é que o tratamento dado aos companions, ao menos em termos de uso deles em cena, está em constante melhora, o que é surpreendente. Mas tem coisa que é difícil aceitar. A Doutora deixar Yas ir sozinha para um lugar que acabaram de fugir de aliens? Ainda com outra viajante ocasional da TARDIS? Não comprei isso de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, gostei de ver as duas jovens em ação. Da mesma forma, achei estúpido Ryan entrar na ala de quarentena do hospital, mas gostei da ação solo dele no Peru. E vale aqui acrescentar que foi MUITO legal ver a série trazer pessoas de diferentes nacionalidades e visitar diferentes países. Todavia, lá no fundo da minha cabeça, continua algo martelando desde o terceiro episódio: quando é que a gente vai visitar outro planeta? Por favor, que tenha pelo menos UM episódio ambientado de fato em outro lugar, outra Galáxia! A gente gosta da nossa casa, mas vamos sair da Terra um pouco?

A disposição do problema do vírus foi outro ponto positivo aqui. Como o episódio se passa em diferentes lugares, foi interessante ver os esforços conjuntos para trazer alguma resolução à causa e nesse aspecto eu só tenho uma grande decepção: criaram um mistério insano diante dos aliens e quando a gente viu a cara deles… eram iguais a nós. Nem pra ter uma orelhinha maior, um olho de uma cor diferente, umas tatuagens, uma roupa diferente! De todo modo, foi uma boa participação desses indivíduos, assim como a do casal com problemas conjugais que acabam ganhando bastante destaque. Os tropeços em relação a eles ficam mais por conta do personagem de Warren Brown, que tem uma personalidade mais esquiva, fria, desapegada. Com tanta gente no episódio para dar atenção, faltou tempo para expandir e mostrar uma mudança mais orgânica para ele.

Sem didatismo no final (aleluia!), a temática ambiental funcionou perfeitamente bem e manteve a cara ágil da temporada, embora essa agilidade esteja ligada ao deslocamento de personagens + edição, não necessariamente de entendimento geral do problema na narrativa, que de fato acaba demorando um pouco mais para se mostrar de todo (o que para mim não é um problema, só estou apontando fatos). Eu certamente gostaria mais se este episódio estivesse no começo da temporada, não depois de uma porrada de novidades que tivemos uma semana antes. Por que, Chibnall? Por que?

Doctor Who – 12X06: Praxeus (Reino Unido, 2 de fevereiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Pete McTighe
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Warren Brown, Matthew McNulty, Molly Harris, Joana Borja, Thapelo Maropefela, Gabriela Toloi, Soo Drouet, Tristan de Beer
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.