Crítica | Doctor Who – 1X03: The Unquiet Dead

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estrelas 4

Após os dois primeiros episódios da Nova Série situarem-se, respectivamente, em um cenário contemporâneo e no futuro distante, The Unquiet Dead nos apresenta uma aventura no passado, mais precisamente, na Era Vitoriana. O roteiro de Mark Gatiss acompanha o Doutor e Rose chegando a Cardiff na noite de Natal de 1869. Ao mesmo tempo, um agente funerário e sua criada Gwyneth, tentam lidar com um perigoso mistério, pois os cadáveres enviados para a funerária estão se tornando zumbis. Ao se envolverem acidentalmente no caso, o Nono Doutor e sua companheira acabam conhecendo ninguém menos que Charles Dickens.

O episódio continua o trabalho da série de reintroduzir conceitos típicos da Era Clássica. Aqui, o novo público descobre que a TARDIS nem sempre leva o Doutor para onde ele quer ir, pois sua intenção era ir para Nápoles, em 1860. O roteiro também aborda a questão da maleabilidade do tempo através da surpresa de Rose, que, a princípio, não consegue entender como a humanidade pode estar em risco em 1869, já que no futuro que ela conhece, a Terra nunca foi dominada por zumbis.

O episódio apresenta um estilo de história que se tornaria uma constante durante o mandato de Russell T. Davies como showrunner da série, que são os episódios de “celebridades históricas”, onde o Doutor acaba unindo forças com uma figura importante para combater uma ameaça alienígena. E como é uma história com Charles Dickens envolvendo criaturas fantasmagóricas e passada durante a noite de Natal, não poderiam faltar referências a um dos maiores clássicos do autor, Um Conto de Natal. A narrativa ainda parece pagar tributo á clássica fase de Philip Hinchcliffe como showrunner da série nos anos 70, ao nos entregar uma forte atmosfera gótica, flertando com um estilo clássico de horror, proporcionado pela presença inquietante de mortos vivos na trama.

Christopher Eccleston tem a chance de mostrar uma faceta mais leve do Nono Doutor, ainda capaz de se maravilhar pelo que vê em suas viagens. Não tem como não sorrir com a empolgação do Time Lord ao perceber que está na mesma carruagem que Charles Dickens. Entretanto, os traumas da Guerra do Tempo voltam a ser trabalhados. Os Gelth, raça alienígena que está usando os mortos como hospedeiros, tiveram o seu planeta destruído durante a Time War, juntamente com seus corpos, e agora sobrevivem como formas de vida gasosas. Alguns podem dizer que o Doutor foi ingênuo em confiar nos Gelth, que alegam querer apenas ajuda para encontrar um novo lar, mas que na verdade planejam eliminar a raça humana. Todavia, esse excesso de fé aponta para o sentimento de culpa do personagem. Afinal, os Gelth são uma raça vítima da Guerra do Tempo, que está clamando por misericórdia. Como o Doutor poderia resistir?

A parceria com Rose também evolui durante esta aventura. A cena em que os dois se veem encurralados por zumbis em um porão traz uma demonstração tocante do quanto a amizade dos dois se fortaleceu desde que se conheceram. Ao mesmo tempo, o roteiro deixa claro que a loira está longe de começar a entender como funciona o mundo do Doutor, vide que ela não conseguir aceitar o fato do Gallifreyano não ver problema em deixar os Gelth usarem cadáveres como hospedeiros. Tal cena funciona como um lembrete da natureza alienígena do Doutor. Como ele próprio lembra, pode trabalhar com um código moral bem diferente daquele a que Rose está acostumada. Mas apesar de a dupla principal ser muito bem retratada pelo episódio, The Unquiet Dead é muito mais a história de evolução de Gwyneth e do próprio Charles Dickens do que da equipe da TARDIS.

Gwyneth surge como uma moça pura, que vive com medo das próprias habilidades mediúnicas. Entretanto, ao longo da história, ela encontra coragem e determinação para ajudar os seus “anjos” (como ela se refere aos Gelth). Embora o desfecho da personagem seja triste, por ela ter depositado a sua fé no lugar errado, isso não invalida o seu crescimento. Como curiosidade, vale ressaltar que Eve Myles, que interpreta Gwyneth, voltaria ao universo da série como uma das protagonistas do spin-off Torchwood.

Mas o destaque do episódio fica mesmo pela forma sensível e divertida com que o texto retrata Charles Dickens, que surge extremamente humanizado na interpretação de Simon Callow. No episódio, Dickens surge como um homem cético já no fim da vida e em crise existencial, pois não só está afastado de sua família, mas também duvida que sua obra vá sobreviver ao tempo. A jornada dramática de Dickens poderia ser uma simples história de quebra de ceticismo, mas ela é melhor do que isso. Dickens recupera a fé em si mesmo e no mundo ao perceber que a vida é muito maior do que ele supunha. Não é como se ele tivesse sido um tolo a vida toda, como o autor supõe inicialmente, mas sim que ainda havia muito pra ver e criar, e sempre haverá.

A direção de arte do episódio merece destaque. A BBC sempre foi muito eficiente em sua cenografia de histórias de época, especialmente as situadas no Reino Unido vitoriano, e com Doctor Who não é diferente. O trabalho de maquiagem feito nos zumbis é bastante competente e, ao mesmo tempo, econômico, gerando seres assustadores sem grande necessidade das famosas gosmas geralmente associadas a esse tipo de personagem. Já o CGI usado para criar os Gelth é eficiente, embora eu deva dizer que a mudança ocorrida no visual fantasmagórico das criaturas, que abandonam a sua aparência angelical e passam a se assemelhar mais a demônios vermelhos tenha sido um tanto óbvia e pouco criativa do ponto de vista estético.

Sendo esse o primeiro de muitos roteiros de Mark Gatiss para a série, a história se revela um dos melhores trabalhos do roteirista para Doctor Who, talvez o melhor. Introduzindo os episódios de “celebridades históricas” na Nova Série, em uma aventura gótica com suspense e bom humor que coloca o Doutor se aliando a Charles Dickens para combater zumbis, The Unquiet Dead é tanto uma sutil e afetuosa homenagem a uma das mais populares eras da série, quanto um passo firme em direção ao futuro que estava sendo construído.

Doctor Who 1×03: The Unquiet Dead (Reino Unido, 2005)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Mark Gatiss
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Simon Callow, Eve Myles, Alan David, Huw Rhys, Jennifer Hill, Wayne Cater, Michael Povey, Zoe Thorne
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.