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Crítica | Doctor Who – 1X06: Dalek

por Rafael Lima
128 views (a partir de agosto de 2020)

Os Daleks são os vilões mais emblemáticos de Doctor Who. Criados por Terry Nation para o arco The Daleks, em 1963, na primeira temporada da Série Clássica, os monstros do planeta Skaro tem sido uma das maiores constante do programa. Companheiros vêm e vão, Doutores se regeneram, mas os Daleks estão quase sempre lá, sendo os únicos vilões a aparecer em ao menos uma história de cada Doutor. Portanto, era inconcebível trazer Doctor Who de volta sem trazer também os Daleks.

Os monstros causaram impacto em 1963, através do seu visual completamente alienígena e de sua representação metafórica do ódio nazista. Entretanto, ao longo dos anos, eles perderam a aura ameaçadora e passaram a ser motivo de piada. Compreensível, já que eles parecem saleiros gigantes que usam um desentupidor de pia como braço. O desafio da Nova Série era grande; convencer o publico moderno que esses seres de voz esganiçada eram a raça mais mortal do universo. Felizmente o excelente roteiro de Robert Shearman, a ótima direção, e o elenco afiadíssimo cumprem o desafio com louvor.

A história tem início com Rose e o Doutor respondendo a um sinal de socorro que os leva até 2012, em uma base subterrânea no estado americano de Utah. Lá, eles conhecem Henry Van Statten, um bilionário que coleciona tecnologia extraterrestre. Ao descobrir que Van Statten mantém um alienígena vivo em cativeiro, o Doutor logo se prontifica a ajudar a criatura. Entretanto, tudo muda quando o Time Lord descobre que o prisioneiro do bilionário é um Dalek.

Dalek é um grande episódio. Uma bela homenagem a maior criação de Terry Nation. Mas diferente do que o início do episódio possa dar a entender, onde o Doutor e Rose se materializam em um museu e encontram a cabeça de um Cyberman exposta, não se trata de uma trama que apela para a nostalgia. Essa é de fato uma das histórias mais sombrias da temporada, onde os pecados do Doutor voltam para assombrá-lo. Um dos trunfos do episódio é a forma como conduz a jornada dramática do 9º Doutor á um ponto de virada, ao desconstruir a figura do Time Lord e de seu nêmesis. Até este momento da série, Russell T. Davies havia nos dado pequenas amostras dos traumas causados ao Doutor pela Time War. Aqui, tais traumas são personificados na figura do Dalek.

O roteiro de Shearman constrói o Dalek como uma ameaça letal. O Doutor afirma em certo ponto do episódio que aquele único Dalek pode matar toda a população de Salt Lake City, e a trama faz com que acreditemos nisso. O Dalek não é só um assassino capaz, mas também um grande estrategista, capaz de eliminar um esquadrão paramilitar. Shearman ainda apresenta vários fatores que fizeram do vilão motivo de piada e os subverte, de modo a deixar claro que o medo que o Doutor sente em relação à criatura é plenamente justificado. Dalek também consegue algo que a Série Clássica nunca conseguiu: fazer do Dalek um personagem com camadas. O Dalek aqui é uma criatura confusa e assustada. Este é um ser que acaba de descobrir que é o ultimo de sua espécie, um soldado sem ter de quem receber ordens, o que vai contra toda a sua cultura e herança genética. O episódio não nos faz apenas temê-lo, mas também ter empatia por ele. Nicholas Briggs, que já havia dublado os Daleks em áudios da Big Finish, merece os parabéns aqui por seu trabalho de voz, conseguindo transmitir os conflitos da criatura, mas sendo extremamente fiel a voz clássica do personagem.

A grande colaboração que a história traz para a longa relação de confrontos entre o Doutor e os Daleks é mostrar o quanto os traumas de guerra tornaram os dois inimigos mais parecidos do que o Time Lord gosta de admitir. Em episódios anteriores, o Doutor estava pronto pra oferecer clemência para a Consciência Nestane ou para os Gelth, mas tudo que ele quer do Dalek é que ele finalmente morra, dando fim de uma vez por todas a raça de Skaro. Assim como o último dos Daleks só consegue sentir ódio e medo do Doutor, o mesmo pode ser dito em relação ao protagonista.

Grande parte da força do episódio se deve ao trabalho de Christopher Eccleston, que tem aqui um de seus melhores momentos na pele do Nono Doutor. O Doutor de Eccleston talvez seja uma das versões mais trágicas do personagem, excetuando talvez o War Doctor. Seus antecessores podiam apresentar certa melancolia em alguns momentos, e seus sucessores também sofreriam com as cicatrizes psicológicas da Guerra do Tempo, mas as feridas do Nono Doutor ainda sangram, e o reencontro do Time Lord com seu mais odiado inimigo traz seus demônios interiores à tona. É quase com sadismo que o Doutor informa ao Dalek que sua raça está morta, e quando tenta assassinar o monstro acorrentado a sangue frio, não é por uma situação extrema, mas por vingança pura e simples. Eccleston retrata de forma soberba o conflito do Nono Doutor que, ao mesmo tempo em que vê todo o seu ressentimento contra os Daleks aflorar, sente o peso da culpa de suas ações na Guerra do Tempo, já que descobrimos que o Doutor é o responsável pela destruição de Gallifrey, e pela extinção tanto dos Daleks quanto dos Time Lords (ou assim se pensava na época).

Ao explorar a faceta mais sombria do protagonista, Dalek ressalta a importância dos companions na Nova Série, que é lembrar ao Doutor qual é a sua verdadeira natureza, quando o Time lord ameaça se esquecer disso. Com o Doutor cego de ódio, é Rose que funciona como a luz de esperança da história, agindo com misericórdia e dando ao Dalek o benefício da dúvida. A luta de Rose neste episódio acaba não sendo apenas pela própria sobrevivência, mas também pela alma do Doutor. Este papel desempenhado pelas companions é um ponto que seria frequente na Nova Série, tanto na Era Davies quanto na era Moffat, mas que surge pela primeira vez aqui.

Henry Van Statten é outro fator que ajuda a garantir os paralelismos que a história busca construir entre o protagonista e o Dalek. O soldado do planeta Skaro pode ser aquele que até o fim do episódio mata duzentas pessoas, mas Van Statten é o grande responsável, já que por motivos absolutamente mesquinhos, não se importa em sacrificar sua equipe ou torturar o Dalek e o Doutor para conseguir o que quer. Corey Johnson consegue viver este personagem odioso sem cair na caricatura total, o que é digno de nota. O episódio também introduz Adam Mitchell, um jovem funcionário de Van Statten que faz amizade com Rose, e ao fim da história, é convidado para viajar na TARDIS.

O diretor Joe Ahearne também merece crédito pela qualidade do episódio. A edição valoriza o trabalho dos atores, enriquecendo os momentos de maior intensidade emocional, enquanto a decupagem enquadra a figura do Dalek é de forma imponente, e cada quadro funciona como uma verdadeira expressão da criatura, capaz de demonstrar quando o Dalek representa mistério, perigo, ou fraqueza. A fotografia é competente, mas sem chamar a atenção demais para si, auxiliando na construção da atmosfera da trama.

Dalek se revela uma das melhores histórias da série a trazer as criações de Terry Nation, talvez a melhor. Um episódio que reintroduz e atualiza com sucesso o mais icônico vilão do programa, ao mesmo tempo em que traz um ponto de extrema importância na jornada dramática do Nono Doutor, dando a Eccleston a chance de nos presentear com a sua interpretação mais intensa do lendário Time Lord. Dalek se tornou a prova definitiva de que Doctor Who havia voltado para ficar.

Doctor Who- 1×06. Dalek (Reino Unido, 30 de Abril de 2005).
Direção: Joe Ahearne
Roteiro: Robert Shearman
Elenco: Christopher Eccleston, Billie Piper, Nicholas Briggs, Corey Johnson, Bruno Langley, Anna Louise Plowmam
Duração: 45 Min.

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11 comentários

Tio Skagra 4 de junho de 2018 - 10:03

A 1a temporada foi a que melhor usou os Daleks na new who, tirando a interferência da Bad Wolf nos minutos finais da trama, e em especial na era do RTD que apenas repetia o mesmo plot nos outros episódios dos Saleiros de Skaro.
A Guerra do Tempo foi uma boa ideia mas foi erroneamente executada pela Davis (Daleks e Senhores do Tempo estão extintos, agora não estão mais e depois estão de novo)
Quando a crítica do final, horrendo, da 2a temporada mostrarei outros pontos do motivo pelo qual a guerra acabou virando um erro e uma piada lá fora.
Agora… Voltando ao Doutor orelhudo.
Esse é um dos raros clássicos instantâneos, quase todos reconhecem o peso dele e quem diz o contrário geralmente é “povo dos efeitos especiais”.
Sempre que o vejo imagino outros episódios com ele no lugar de outros Docs, e muitas vezes esses episódios imaginários parecem ser melhores apenas por causa de uma única substituição.
Pena que o nosso orelhudo abandonou a série em tão pouco tempo…

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Rafael Lima 7 de junho de 2018 - 15:49

Concordo que os Daleks nunca fora tão efetivos como vilões como nesta 1ª temporada da nova série. Tanto em “Dalek” quanto em “Bad Wolf/The Parting of the Ways” eles fazem jus ao título de raça mais letal do universo.

Sim, o Davies tinha uma visão bem específica para os Daleks durante o seu mandato na série, embora eu acho que essa visão completa ainda não apareça totalmente neste episódio aqui, que está mais preocupado em estabelecer o Dalek como uma ameaça credível, e seus paralelos com o Doutor (diferente da Série Clássica, que sempre reforçou os contrastes). Mas já vemos parte dessa visão de Davies para os vilões no emocionante climax deste episódio. Na minha opinião, Davies via os Daleks não apenas como alienígenas que queriam conquistar e destruir, mas como uma espécie que lutava contra a própria extinção, embora tal luta entrasse em conflito com as bases de suas crenças.. No caso do Dalek deste episódio, ele prefere a morte á se tornar algo que não seja um Dalek puro (afinal, ele viveu a vida por esse código). Não por coincidência, suas ultimas palavras ao se matar são “exterminate” geralmente dirigidas á tudo aquilo que não é um Dalek,

Concordo que um pequeno arranhão nesta temporada seja que os Daleks sejam extintos duas vezes na mesma temporada (alias, se “Dalek” representasse o confronto final entre o Doutor e os saleiros de Skaro, seria o final perfeito para o vilão). Mas temos que perceber que o Dalek que aparece neste episódio é bem diferente daqueles vistos na Season Finale da 1ª temporada, o que dá uma compensada nesse arranhão ao meu ver. Além disso, se levarmos em conta a Série Clássica, onde os Daleks foram extintos duas vezes, primeiro em “The Evil of The Daleks” do 2º Doutor, e depois em “Remembrance of The Daleks” do 7º Doutor, é de se esperar que qualquer extinção dos Daleks seja vista com desconfiança.

Acho que teremos muito o que discutir quando chegarmos a 2ª temporada. Hehehe.

Mas não acho que a Guerra do Tempo tenha virado uma piada e sido considerada um erro lá fora. Pelo menos não como um senso comum. Isso por que, Davies e Moffat parecem ter visões bem diferentes da Time War e suas consequências. Não por coincidência, existe uma boa parte do Fandon que defende que Moffat salvou a série, enquanto outra parte aponta que Moffat arruinou a arruinou após assumi-la. Particularmente, gosto das duas fases, mas muitas das diferenças são óbvias, a começar pela forma que os dois Showrunners encaram a Time War.

Sim, o 9º Doutor é fantástico, e merecia ser mais lembrado. E foi uma pena que ele tenha ficado só uma temporada. Ao mesmo tempo, acho o arco dramático dele nesta temporada tão bem construído, que a regeneração surgiu quase como um passo natural. Mas isso já é assunto pra outra hora.

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Tio Skagra 8 de junho de 2018 - 11:09

Concordo.
Mas temos que levar em conta quanto tempo levou entre as “extinções” na clássica, elas não foram uma em cima da outro.
Essa repetição conatante deixa o roteiro previsível, percebi isso logo em 2012 quando entrei no fandom, essa é uma das poucas críticas que tenho a era do RTD.
Já o Moffat nem assumiu o controle da série direito e já começou a receber um ódio gratuito descabido.
Ambos são roteirista maravilhosos, o problema é que as pessoas só querem enxergar um lado.
Sobre a Guerra… Costumo me infiltrar em grupos gringos sobre a clássica (grande parte dos integrantes são quase dinossauros) e a Guerra do Tempo não é muito popular entre eles…

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Rafael Lima 10 de junho de 2018 - 00:08

De fato, existe esse nicho, assim como existe a tribo de fãs que dizem que Doctor Who de verdade só a clássica, ou aqueles que dizem que a Nova Série é que trouxe emoção de verdade a Doctor Who. Enfim, creio que a grande tribo Whovian tem muitas subtribos que tem essas picuinhas com esse ou aquele aspecto ou período da série. Há quem diga que a Time War na verdade é uma grande metáfora feita pelo Davies para o hiato da série, mas apesar de seus problemas e ambiguidades, creio que ela cumpriu a sua função.

Mas concordo que as extinções e quase extinções dos Daleks tornaram-se cansativas ao longo dos quatro anos de Davies na série (desconto o ano dos especiais, pois lá, os Daleks fizeram apenas uma ponta). Concordo que os Daleks não precisavam ter aparecido o tanto que apareceram na Era Davies (sua participação na Season Finale da 2ª temporada era dispensável, embora tenha um paradoxo ai que eu prefiro discutir no futuro). Entendo que faz parte da proposta dramática de Davies para as criaturas, mas pode ter sido um pouco excessivo. Tanto que Moffat parece dar uma leve cutucada sobre este ponto na primeira história Dalek de sua era, “Victory of The Daleks”, que não gosto, mas acho a provocação feita ao antecessor por Moffat/Gatiss válida, já que a grande vitória dos Daleks é não ficar a beira da extinção.

Mas esses são assuntos para o futuro. Hehehe

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Luiz Santiago 3 de junho de 2018 - 23:22

Exato! Essa mudança e o aprendizado são maravilhosos, para o Doutor e para nós. É uma jornada incrível mesmo.

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Pedro Sebastião Pereira Amaro 3 de junho de 2018 - 10:44

Eu não sei nem o que dizer, lembro quando vi esse episódio pela primeira vez a única coisa que eu pensava era ” Como essa não é a série mais famosa do mundo?”, eu não sabia o que era dalek, ou time lord ou nada e fiquei impressionado, com medo e simpatia por com um saleiro cadeirante usando um desentupidor e uma batedeira de braço, que outra série faz isso? E como alguém pula ou não gosta do Christopher Eccleston?sério, meu sonho era que ele fizesse no mínimo um audiodrama. Outro ponto é a Rose, ela está incrível o episodio inteiro, aquela parte que o Doutor pega uma arma e ela o repreende, ou quando o Doutor pensa que ela morreu são incríveis.
Essa temporada pra mim é uma das melhores e mais bem equilibradas de todo Doctor Who.
Quase ia me esquecendo, Henry Van Statten foi um ótimo personagem, com momentos dramáticos e engraçados, quando fui reasssistir esse episódio depois de ter visto a clássica eu ficava esperando ele dizer ” I am the Master, and you will obey me”. Ele parece muito o Master do Anthony.

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Doctor 3 de junho de 2018 - 13:54

essa temporada só é fraca nos episódios do aliens peidões e no piloto porque de resto é uma temporada sensacional com o doutor mais subestimado.

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Rafael Lima 5 de junho de 2018 - 16:26

Também acho essa primeira temporada uma das mais sólidas da Nova Série, apesar da tentativa desnecessária de criar um “arco de temporada”. Mas isso já é assunto pra outra resenha.

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Rafael Lima 3 de junho de 2018 - 19:49

Sim, esse foi o episódio em que decididamente Eccleston deixou a sua marca na série com a sua atuação refletindo os traumas de guerra em estilo máximo. E sim, nos fazer não apenas temer, mas nos importar com o Dalek, a primeira vista simplesmente um aspirador de pó com os apetrechos que você cita é outro grande mérito do roteiro e direção do episódio, pra não falar do trabalho de voz do Nicholas Briggs.

Nunca tinha notado, mas o ator que faz o Van Statten lembra mesmo o saudoso Anthony Ainley, né? Hehehe

Pois é, também queria ver o retorno dele, nem que fosse nos audiodramas da Big Finish, mas o cara tá irredutível. Como disse ao Lui em outro Post, respeito a decisão do ator, pois ninguém sae mesmo o que rolou entre ele e a BBC quando ele deixou a série, mas pô, o que fizeram com ele não pode ser pior do que o que fizeram com o Colin Baker. Hehehe

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Luiz Santiago 3 de junho de 2018 - 00:34

Excelente crítica! Esse episódio é MESMO um dos melhores com Daleks, além de trazer uma das atuações mais contundentes de um ator no papel principal da série. A gente tem MEDO do Doutor naquele momento. O olhar do Eccleston é uma coisa tenebrosa, mostrando o quanto aquele personagem podia ser a esperança, mas também mostrar todo o horror da guerra, todo ódio. Mais tarde, quando a Time War e o War Doctor fossem explorados, para mim, sempre foi fácil entender como o Doutor era retratado com todas aquelas frases assustadoras. Eu já tinha visto aquilo… e olha que em uma regeneração cheia de culpa, imagina em uma que nasceu para guerrear… Simplesmente sensacional!

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Rafael Lima 3 de junho de 2018 - 19:39

Com certeza, Luis! O comportamento do Doutor, cheio de ódio e ressentimento, causa espanto, e isso tudo graças a atuação magistral do Eccleston. E o mais espantoso, para quem já conhecia o personagem da Clássica é como o comportamento dele aqui se assemelha a de um… Dalek. E a vergonha que ele sente no final, quando Rose enfim o faz ver a razão é outro ponto incrível. Eccleston estava mesmo espetacular neste episódio.

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