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Crítica | Doctor Who – 2X07: The Idiot’s Lantern

por Rafael Lima
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Escrito por Mark Gatiss em seu segundo roteiro para Doctor Who, The Idiot’s Lantern funciona como um veículo interessante para trabalhar a dinâmica entre Rose e o Décimo Doutor, em uma aventura leve e despretensiosa, mas que tropeça por não saber lidar com seus elementos mais cartunescos, responsabilidade que também deve ser atribuída ao já veterano diretor da série, Euros Lyn. Na trama, a TARDIS se materializa na Londres de 1953, às vésperas da coroação da Rainha Elizabeth II, para a decepção de Rose e do Doutor, que esperavam ir a Nova York em 1956, para assistir ao show de Elvis Presley. Ao perceberem o número incomum de antenas de TV na região para a época, a dupla se vê diante de uma estranha situação envolvendo o recolhimento pela polícia de pessoas que literalmente perderam o rosto, após entrarem em contato com uma criatura vivendo no sinal da televisão.

Existem muitas ideias em The Idiot’s Lantern que parecem indicar que o episódio quer ser mais do que apenas a história do Doutor lutando contra um alienígena malvada na televisão que rouba a mente (e o rosto) das pessoas. Há quem possa dizer que mais uma vez, a série parece fazer uma crítica à televisão como um possível instrumento de alienação, já que a vilã The Wire captura a mente de suas vítimas, através do aparelho, transformando-as em corpos apáticos e sem personalidade. Mas tal crítica, se esta era a intenção, surge vazia e mal fundamentada pelo roteiro.

É nos principais coadjuvantes do episódio, a família Connolly, que parece se encontrar a crítica que realmente interessa ao roteiro de Gatiss. Os Connolly são o arquétipo da família média: o pai provedor, a mãe dona de casa, filho e uma avó. Mas esta família está longe de ser uma família saudável, especialmente pelo comportamento ditatorial do patriarca. O texto de Gatiss, através da chegada do 10º Doutor e Rose a casa dos Connolly, dá algumas alfinetadas inteligentes em problemáticas ligadas ao conceito da família tradicional, como o machismo, com o Doutor apontando o contrasenso do patriota Sr. Connolly cultivar este sentimento em um país onde a pessoa representante do poder é justamente uma mulher.

Entretanto, esta crítica parece perder grande parte de sua força justamente pela forma caricata com que o roteiro constrói Eddie Connolly. Entende-se que por ser uma série que tem as crianças como parte de seu público-alvo, o uso de certa caricatura para tratar de um tema relativamente pesado como um marido e pai abusivo não seja algo tão problemático, mas o episódio claramente perde a mão no trabalho com o personagem, impedindo que o público consiga investir emocionalmente nos momentos mais intensos envolvendo os conflitos da família Connolly, como o momento em que o jovem Tommy se rebela, e a cena que fecha o episódio.

O aspecto cartunesco acaba ficando fora do tom também na construção da vilã The Wire, interpretada por Maureen Lipman. O conceito por trás da personagem é bastante interessante, mas não conseguimos encarar a vilã como mais do que uma ameaça de isopor. Seus gritos desesperados de “Hungry! Hungry!” pareciam ter o objetivo de conceder a criatura uma natureza quase animalesca, mas acaba não funcionando bem na tela.

Por outro lado, o roteiro trabalha bem a relação de Rose e do 10º Doutor, retratando de forma eficiente e sem exageros o atual estágio da relação da dupla. Neste momento da série, o Time Lord e a jovem de Powell Estate já têm muito mais uma relação de parceria igualitária do que a de tutor e aprendiz que era mantida com o 9º Doutor. A cena em que a dupla chega á casa dos Connolly é ótima por mostrar não só a ótima química entre David Tennant e Billie Piper, mas também o quão articulados o Time Lord e sua companion estão. Rose já absorveu boa parte da malandragem e resiliência do Doutor, se mostrando bem mais independente de seu companheiro de viagem, mas sem perder a sensibilidade que permite que ela se preocupe com o choro da Sra. Connolly ou com a relação de Tommy com o pai. O roteiro ainda tenta expor um pouco do potencial para a ira que o 10º Doutor possui, através da cena em que ele descobre que Rose tornou-se mais uma das vítimas sem rosto da criatura alienígena.

A direção de Euros Lyn tem seus momentos criativos, evitando enquadramentos burocráticos e tentando dar certo dinamismo a cenas mais tensas através de planos holandeses. Entretanto, o diretor não é tão competente para lidar com as cenas mais dinâmicas, ou mesmo para tratar de pequenos problemas apresentados pelo roteiro, como a presença totalmente dispensável do personagem do Inspetor Bishop durante a cena de rompimento da família Connolly. A direção de arte do episódio por sua vez, é bastante competente, recriando com sobriedade a Londres da década de 50.

The Idiot’s Lantern não é um episódio ruim. Ele possui momentos muito divertidos, mas há dentro da história uma série de ideias que parecem não ir até onde poderiam por não serem bem organizadas e desenvolvidas. Não fica entre as piores coisas que Gatiss escreveu para a série, mas também não fica entre as melhores.

Doctor Who- 2×07. The Idiot’s Lantern (Reino Unido, 27 de Maio de 2006)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Mark Gatiss
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Maureen Lipman, Ron Cook, Jamie Foreman, Debra Gillett, Rory Jennings, Margaret John, Sam Cox
Duração: 45 min.

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