Crítica | Doctor Who – 3X01: Smith and Jones

Smith and Jones representa um marco notável para a Nova Série de Doctor Who. Trata-se de um episódio encarregado de duas tarefas pra lá de importantes: abrir a segunda temporada a ser estrelada por uma encarnação do Doutor não apenas bem recebida como ainda cheia de potencial para ser explorado, além de introduzir a nova companion fixa, Martha Jones (Freema Agyeman), após a partida cataclísmica de Rose, que vinha sendo o personagem de apoio do espectador desde o início dessa jornada.

De forma semelhante ao que vimos em The Runaway Bride, o fantasma dos eventos de Doomsday continua a perpassar toda a narrativa. Desta vez, no entanto, não acompanhamos as cicatrizes da Batalha de Canary Wharf a partir da perspectiva do 10º Doutor, mas sim através dos olhos de nossa futura tripulante da TARDIS. A força tradicional do roteiro de Russell T. Davies se faz presente aqui sem muito esforço: a construção de personagem é feita de forma dramática e simples, envolvendo o espectador sem precisar se escorar demais em muletas expositivas.

Assim como nas outras introduções de companion assinadas pelo showrunner, a narrativa se inicia explorando uma perspectiva absolutamente “pé no chão”, preparando-se assim o terreno para um efeito contrastante com a escalada no espaço-tempo causada pela aventura da vez. Nesse sentido, o primeiro encontro entre Martha e o Doutor (sob a perspectiva dela) é uma excelente sacada: além de realizar uma divertida brincadeira com o dispositivo de viagem temporal, o prenúncio nos situa mais firmemente no ponto de vista da residente médica e traça o afastamento necessário entre ela e aquela figura já conhecida, porém nesse momento jogada novamente na penumbra do mistério.

A construção inicial de Martha prioriza suas relações familiares, nos dando um primeiro vislumbre de seu papel como mediadora em um quiprocó envolvendo a presença da nova namorada do pai no aniversário do irmão. No contexto da série, é interessante e promissora a diferença que se traça a início em relação a Rose: ao contrário do sistema familiar simplificado e relativamente homogêneo dos Tyler, os Jones apresentam-se como um grupo mais amplo e multifacetado, dentro do qual nossa co-protagonista parece exercer um papel central de apoio e suporte.

A narrativa propriamente “doutoresca” do episódio se desenvolve no Royal Hope Hospital, durante o que pareceria ser mais um dia normal da residência de Martha. A preparação da trama se dá com um pouco do charme que veríamos na primeira parte de uma história da Série Clássica: uma série de anomalias e eventos bizarros, dos quais dificilmente poderia-se apontar um adversário sem maiores investigações. O que se inicia com descargas elétricas incomuns rapidamente escala para uma tempestade ao contrário e, enfim, para a mudança inesperada do hospital, que vai do centro de Londres inexplicavelmente para a superfície lunar. Tudo isso, é claro, antes dos policiais espaciais com cabeça de rinoceronte entrarem marchando em busca de uma vampira fugitiva que suga o sangue de suas vítimas com um canudinho.

Esse aspecto extravagante (e, convenhamos, um tanto galhofeiro) do conjunto dá contornos carismáticos a uma trama que é, de resto, relativamente simples . Os Judoon são uma atração à parte: o tipo de criação sensacional que provavelmente não funcionaria tão bem em qualquer outro contexto que não em Doctor Who. Ao mesmo tempo em que possui a fineza de “recortar” um hospital da Terra para a Lua para conseguir atuar em jurisdição neutra, a facção policial mercenária utiliza-se de métodos consideravelmente pouco sofisticados para localizar seu alvo. O design dos figurões, combinando coturno e calças de couro com armaduras ao estilo Sontaran abrigando volumosos homens-rinoceronte representa perfeitamente esse misto exótico de high-tech metódico e pura truculência.

A perseguição dos Judoon por não-humanos coloca o Doutor em risco, oferecendo o pano de fundo para uma primeira parceria com a residente Jones, intrigada desde o início pelo misterioso senhor Smith — paciente responsável pela cena inexplicável mais cedo. Em meio à crise, Martha demonstra um misto de ponderação racional e fascinação pelo inexplicável: uma fórmula ideal para captar o interesse do Doutor.

Por trás dessa faísca, no entanto, temos também um momento um tanto obscuro para o Time Lord. Sua atitude em relação aos humanos que não se encaixam nos requisitos para merecer sua parceria beira ao desprezo, como evidenciado na cena em que friamente afirma que é melhor ignorar uma das colegas de Martha, ainda em choque com a situação, já que ela “só seria capaz de atrapalhar”. O mesmo vale para a sua insensibilidade demonstrada mediante a morte do Sr. Stoker (Roy Marsden):  ainda que não seja algo raro de se acontecer em situações de grande urgência, trata-se de uma diferença grande para o sempre “desculposo” 10° Doutor.

Claro, tudo isso são flores se levarmos em conta que se trata do mesmo personagem o qual acompanhamos pela última vez impiedosamente eliminando uma ameaça alienígena em meio a um rompante de fúria enlutada. O legal aqui é justamente a forma como a linha entre a excentricidade geral do personagem e a especificidade de sua situação atual se confundem sob a perspectiva ainda novata de Martha. Embora conserve muito de seu humor energético e hiperativo, vemos aqui um Doutor envolvido em diversos momentos por ares mais sombrios, os quais por vezes nos remetem de volta à sua assombrada encarnação anterior.

Levando-se em conta que parte desse arco do personagem tem a ver com uma certa húbris do Time Lord, é interessante notar que a sua dinâmica com Martha se apresenta desde o começo como algo que o desafia justamente nesse campo e o obriga de certa forma a se centrar. Ao invés da amizade quase adolescente compartilhada com Rose, Martha se aproxima desde o início mais como uma igual: uma relação mais adulta e um tanto mais distante, por diversos motivos dos quais nós vamos nos inteirando aos poucos.

Esse trabalho de personagem garante o recheio para uma trama relativamente simples de gato e rato entre os Judoon e o Plasmavore, com nossos heróis tentando proteger os inocentes no fogo cruzado. Ainda assim, o cenário do sufocante hospital perdido na Lua acaba sendo bem utilizado para explorar em escala média todo o fator humano da situação. A perspectiva do oxigênio limitado adiciona urgência de forma bastante eficaz, contribuindo para um desfecho grandioso.

A citada Plasmavore se revela sob a identidade da insuspeita senhorinha Florence Finnegan (Anne Reid), fazendo um uso astuto de contraste de expectativas para suprir a ausência de efeitos visuais mais chamativos. Convenhamos, maquiagem vampírica alguma seria tão memorável quanto a ameaça da velhinha que quer sugar o seu sangue com um canudinho. A única limitação no uso da vilã se dá pela inserção de uma subtrama envolvendo um ataque final à Terra, o qual com o uso de um simples aparelho de ressonância magnética seria capaz de destruir metade da vida no planeta. O salto explicativo necessário para tanto não se justifica muito bem, uma vez que a vida de todos os inocentes mantidos reféns da investigação dos Judoon já trazia peso o suficiente para que os esforços sufocados de Martha e do Doutor fossem revestidos do heroísmo digno de estrear a nova fase da série.

No âmbito técnico, a produção astutamente se utiliza de cenários simples e efeitos práticos eficientes para dar vida a uma trama ambiciosa com um orçamento provavelmente restrito. Com um elenco enxuto, a maior parte do tempo de tela é investido em nossos dois protagonistas – o que não impede a direção competente de Charles Palmer de nos convencer com a impressão de um hospital lotado de pacientes e profissionais desnorteados. Os figurantes inclusive têm seu grande momento de estrelato na sequência em que se revela o teletransporte do hospital para a Lua, na qual temos reações hilariamente exageradas por parte das pessoas observando pelas janelas.

Smith and Jones é uma ótima aventura que não apenas cumpre bem seu papel introdutório, como também se aproveita do momento para explorar sutilmente o desenvolvimento de personagem do 10° Doutor, dosando bem os aspectos episódicos e seriados da série que entra forte em seu terceiro ano. Estabelecendo Martha e a família Jones – além, é claro, dos Judoon – o episódio expande um pouco mais do mundo dessa encarnação do personagem e garante seu status como parte memorável dessa era da série.

Doctor Who – 3X01: Smith and Jones (Reino Unido, 2007)
Direção: Charles Palmer
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Anne Reid, Roy Marsden, Adjoa Andoh, Gugu Mbatha-Raw, Reggie Yates, Trevor Laird, Kimmi Richards, Ren Rughton, Vineeta Rishi, Paul Kasey, Nicholas Briggs
Duração: 45 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.