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Crítica | Doctor Who – 3X01: Smith and Jones

por Giba Hoffmann
113 views (a partir de agosto de 2020)

Smith and Jones representa um marco notável para a Nova Série de Doctor Who. Trata-se de um episódio encarregado de duas tarefas pra lá de importantes: abrir a segunda temporada a ser estrelada por uma encarnação do Doutor não apenas bem recebida como ainda cheia de potencial para ser explorado, além de introduzir a nova companion fixa, Martha Jones (Freema Agyeman), após a partida cataclísmica de Rose, que vinha sendo o personagem de apoio do espectador desde o início dessa jornada.

De forma semelhante ao que vimos em The Runaway Bride, o fantasma dos eventos de Doomsday continua a perpassar toda a narrativa. Desta vez, no entanto, não acompanhamos as cicatrizes da Batalha de Canary Wharf a partir da perspectiva do 10º Doutor, mas sim através dos olhos de nossa futura tripulante da TARDIS. A força tradicional do roteiro de Russell T. Davies se faz presente aqui sem muito esforço: a construção de personagem é feita de forma dramática e simples, envolvendo o espectador sem precisar se escorar demais em muletas expositivas.

Assim como nas outras introduções de companion assinadas pelo showrunner, a narrativa se inicia explorando uma perspectiva absolutamente “pé no chão”, preparando-se assim o terreno para um efeito contrastante com a escalada no espaço-tempo causada pela aventura da vez. Nesse sentido, o primeiro encontro entre Martha e o Doutor (sob a perspectiva dela) é uma excelente sacada: além de realizar uma divertida brincadeira com o dispositivo de viagem temporal, o prenúncio nos situa mais firmemente no ponto de vista da residente médica e traça o afastamento necessário entre ela e aquela figura já conhecida, porém nesse momento jogada novamente na penumbra do mistério.

A construção inicial de Martha prioriza suas relações familiares, nos dando um primeiro vislumbre de seu papel como mediadora em um quiprocó envolvendo a presença da nova namorada do pai no aniversário do irmão. No contexto da série, é interessante e promissora a diferença que se traça a início em relação a Rose: ao contrário do sistema familiar simplificado e relativamente homogêneo dos Tyler, os Jones apresentam-se como um grupo mais amplo e multifacetado, dentro do qual nossa co-protagonista parece exercer um papel central de apoio e suporte.

A narrativa propriamente “doutoresca” do episódio se desenvolve no Royal Hope Hospital, durante o que pareceria ser mais um dia normal da residência de Martha. A preparação da trama se dá com um pouco do charme que veríamos na primeira parte de uma história da Série Clássica: uma série de anomalias e eventos bizarros, dos quais dificilmente poderia-se apontar um adversário sem maiores investigações. O que se inicia com descargas elétricas incomuns rapidamente escala para uma tempestade ao contrário e, enfim, para a mudança inesperada do hospital, que vai do centro de Londres inexplicavelmente para a superfície lunar. Tudo isso, é claro, antes dos policiais espaciais com cabeça de rinoceronte entrarem marchando em busca de uma vampira fugitiva que suga o sangue de suas vítimas com um canudinho.

Esse aspecto extravagante (e, convenhamos, um tanto galhofeiro) do conjunto dá contornos carismáticos a uma trama que é, de resto, relativamente simples . Os Judoon são uma atração à parte: o tipo de criação sensacional que provavelmente não funcionaria tão bem em qualquer outro contexto que não em Doctor Who. Ao mesmo tempo em que possui a fineza de “recortar” um hospital da Terra para a Lua para conseguir atuar em jurisdição neutra, a facção policial mercenária utiliza-se de métodos consideravelmente pouco sofisticados para localizar seu alvo. O design dos figurões, combinando coturno e calças de couro com armaduras ao estilo Sontaran abrigando volumosos homens-rinoceronte representa perfeitamente esse misto exótico de high-tech metódico e pura truculência.

A perseguição dos Judoon por não-humanos coloca o Doutor em risco, oferecendo o pano de fundo para uma primeira parceria com a residente Jones, intrigada desde o início pelo misterioso senhor Smith — paciente responsável pela cena inexplicável mais cedo. Em meio à crise, Martha demonstra um misto de ponderação racional e fascinação pelo inexplicável: uma fórmula ideal para captar o interesse do Doutor.

Por trás dessa faísca, no entanto, temos também um momento um tanto obscuro para o Time Lord. Sua atitude em relação aos humanos que não se encaixam nos requisitos para merecer sua parceria beira ao desprezo, como evidenciado na cena em que friamente afirma que é melhor ignorar uma das colegas de Martha, ainda em choque com a situação, já que ela “só seria capaz de atrapalhar”. O mesmo vale para a sua insensibilidade demonstrada mediante a morte do Sr. Stoker (Roy Marsden):  ainda que não seja algo raro de se acontecer em situações de grande urgência, trata-se de uma diferença grande para o sempre “desculposo” 10° Doutor.

Claro, tudo isso são flores se levarmos em conta que se trata do mesmo personagem o qual acompanhamos pela última vez impiedosamente eliminando uma ameaça alienígena em meio a um rompante de fúria enlutada. O legal aqui é justamente a forma como a linha entre a excentricidade geral do personagem e a especificidade de sua situação atual se confundem sob a perspectiva ainda novata de Martha. Embora conserve muito de seu humor energético e hiperativo, vemos aqui um Doutor envolvido em diversos momentos por ares mais sombrios, os quais por vezes nos remetem de volta à sua assombrada encarnação anterior.

Levando-se em conta que parte desse arco do personagem tem a ver com uma certa húbris do Time Lord, é interessante notar que a sua dinâmica com Martha se apresenta desde o começo como algo que o desafia justamente nesse campo e o obriga de certa forma a se centrar. Ao invés da amizade quase adolescente compartilhada com Rose, Martha se aproxima desde o início mais como uma igual: uma relação mais adulta e um tanto mais distante, por diversos motivos dos quais nós vamos nos inteirando aos poucos.

Esse trabalho de personagem garante o recheio para uma trama relativamente simples de gato e rato entre os Judoon e o Plasmavore, com nossos heróis tentando proteger os inocentes no fogo cruzado. Ainda assim, o cenário do sufocante hospital perdido na Lua acaba sendo bem utilizado para explorar em escala média todo o fator humano da situação. A perspectiva do oxigênio limitado adiciona urgência de forma bastante eficaz, contribuindo para um desfecho grandioso.

A citada Plasmavore se revela sob a identidade da insuspeita senhorinha Florence Finnegan (Anne Reid), fazendo um uso astuto de contraste de expectativas para suprir a ausência de efeitos visuais mais chamativos. Convenhamos, maquiagem vampírica alguma seria tão memorável quanto a ameaça da velhinha que quer sugar o seu sangue com um canudinho. A única limitação no uso da vilã se dá pela inserção de uma subtrama envolvendo um ataque final à Terra, o qual com o uso de um simples aparelho de ressonância magnética seria capaz de destruir metade da vida no planeta. O salto explicativo necessário para tanto não se justifica muito bem, uma vez que a vida de todos os inocentes mantidos reféns da investigação dos Judoon já trazia peso o suficiente para que os esforços sufocados de Martha e do Doutor fossem revestidos do heroísmo digno de estrear a nova fase da série.

No âmbito técnico, a produção astutamente se utiliza de cenários simples e efeitos práticos eficientes para dar vida a uma trama ambiciosa com um orçamento provavelmente restrito. Com um elenco enxuto, a maior parte do tempo de tela é investido em nossos dois protagonistas – o que não impede a direção competente de Charles Palmer de nos convencer com a impressão de um hospital lotado de pacientes e profissionais desnorteados. Os figurantes inclusive têm seu grande momento de estrelato na sequência em que se revela o teletransporte do hospital para a Lua, na qual temos reações hilariamente exageradas por parte das pessoas observando pelas janelas.

Smith and Jones é uma ótima aventura que não apenas cumpre bem seu papel introdutório, como também se aproveita do momento para explorar sutilmente o desenvolvimento de personagem do 10° Doutor, dosando bem os aspectos episódicos e seriados da série que entra forte em seu terceiro ano. Estabelecendo Martha e a família Jones – além, é claro, dos Judoon – o episódio expande um pouco mais do mundo dessa encarnação do personagem e garante seu status como parte memorável dessa era da série.

Doctor Who – 3X01: Smith and Jones (Reino Unido, 2007)
Direção: Charles Palmer
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Anne Reid, Roy Marsden, Adjoa Andoh, Gugu Mbatha-Raw, Reggie Yates, Trevor Laird, Kimmi Richards, Ren Rughton, Vineeta Rishi, Paul Kasey, Nicholas Briggs
Duração: 45 min

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