Crítica | Doctor Who – 3X02: The Shakespeare Code

PLANO CRITICO DOCTOR WHO SHAKESPEARE CODE

Após sermos apresentados a Martha Jones em Smith and Jones temos na primeira viagem da nova companion o indispensável episódio de “Celebridade Histórica”, uma constante em todo o mandato de Russell T. Davies como showrunner. Como o título já aponta, The Shakespeare Code traz o encontro do 10º Doutor com o mais influente dramaturgo da história, William Shakespeare. Escrito por Gareth Roberts, The Shakespeare Code tem inicio com o Doutor levando Martha para um passeio em 1599, onde eles têm a chance de conhecer Shakespeare em pessoa. Quando ele anuncia a peça Love’s Labour’s Won para o dia seguinte, um trabalho historicamente perdido do dramaturgo, o Doutor e Martha resolvem ficar para conferir. Mas a situação se complica quando estranhas mortes começam a acontecer, aparentemente causadas por bruxaria. Agora, o novo Time da TARDIS precisa entender como a peça perdida de Shakespeare se conecta com essas mortes.

Assim como os primeiros episódios “De Época” das temporadas anteriores, The Shakespeare Code coloca o Doutor se unindo à celebridade histórica da vez para combater uma figura clássica de terror dentro de um contexto de ficção científica; neste caso, bruxas. A escolha por bruxas (de fato Carrionites, uma raça alienígena cuja tecnologia se baseia em palavras) soa bastante apropriada para uma história envolvendo Shakespeare, um mestre das palavras, além da figura das três bruxas serem uma referência direta a uma das mais famosas peças do dramaturgo, Macbeth.

Por ser a primeira viagem ao passado de Martha, o roteiro deve apresentar para a companion as regras da viagem no tempo, o que até é feito de maneira rápida e contida, mas que não deixa de parecer uma obrigação de roteiro, embora necessária. A história parece indicar como será a dinâmica do 10º Doutor com sua Nova Companion, mostrando inicialmente uma relação levemente mais abrasiva do que a que ele tinha com Rose. Nesta primeira aventura fora de seu tempo, Martha é retratada de forma acertadamente deslumbrada com todo o “mundo novo” que a cerca, embora demonstre preocupações e reações muito coerentes, como o medo inicial de ser uma garota negra em um tempo onde a escravidão ainda era vigente, e sua irritação diante da cantada de Shakespeare, que lhe soa ofensiva.

O episódio também estabelece certa tensão sexual entre Martha e o Doutor, especialmente na cena em que ambos precisam dividir uma cama, mas diferente do que acontecia com Rose, o Doutor não parece perceber tal tensão. Tal escolha não parece vir do roteiro e nem da direção, mas sim do showrunner. Acho que não é incorreto dizer que entre as companions principais da Nova Série, Martha seja a menos popular entre o fandon. Eu não acredito que isso se deve à personagem em si, e nem ao trabalho de Freema Agyeman, mas sim por uma sabotagem inconsciente do próprio Davies, que parece tão apaixonado por Rose quanto o Doutor, acreditando que havia criado a companion definitiva.

Pode-se questionar a escolha do showrunner em estabelecer a sucessora de Rose como outra companion apaixonada pelo Doutor, mas o problema é maior que isso. Em The Shakespeare Code, a memória de Rose é constantemente evocada, sendo com as bruxas usando o nome da garota para tentar mexer com o Doutor, ou com o Time Lord dizendo com todas as letras para Martha que é uma pena Rose não estar ali, pois ela saberia o que fazer (ela não saberia). Esse problema não se limita a este episódio, pois a temporada inteira está cheia de citações a Rose, lembrando o quanto ela é maravilhosa e a falta que faz. Não é surpresa que Martha não tenha tido tempo de se desenvolver completamente, já que parte de seu arco basicamente é tentar provar não ao Doutor, mas ao público, que ela não está tentando substituir Rose, e que pode ser uma companion tão boa quanto ela, tendo que lutar constantemente com a memória de sua antecessora.

Quanto a William Shakespeare, ele é vivido de forma bastante divertida por Dean Lennox Kelly como uma espécie de astro pop da Era Elizabetana. Entretanto, algo na construção do personagem me incomodou um pouco. Sempre que se utiliza de figuras históricas como personagens, Doctor Who abraça a mítica e o senso comum que se criou em torno de tal figura, ou cria retratos que humanizam a “Celebridade Histórica” convidada, buscando expor as pessoas por trás dos mitos, caminho que até então parecia estar sendo seguido pela Nova Série. O William Shakespeare retratado aqui parece ficar no meio do caminho. Shakespeare é retratado sim como um gênio (incapaz de ser enganado pelo Papel Psíquico), um artista sensível e um mulherengo incorrigível. Entretanto, tirando o fato de não ser careca como Martha o imaginava, Shakespeare é retratado simplesmente como um arquétipo. O episódio até ensaia dar algum drama mais humano ao Bardo (como Shakespeare era conhecido) durante a cena em que ele visita o famoso Asilo Bedlam ao lado do Doutor e Martha, ao relembrar a dor pela morte de seu filho, e seu breve período de internação, mas isso é logo esquecido com uma piada, e o assunto deixa de ter qualquer importância dramática ou narrativa.

Apesar destes incômodos, The Shakespeare Code ainda é um episódio extremamente divertido. A direção de Charlie Palmer valoriza o alto investimento feito em cenografia para este episódio (tornando este o episódio o mais caro da temporada) gerando uma reconstituição acurada da Londres do Século 16. O diretor lida bem com a ação em ambientes mais fechados, valendo cenas claustrofóbicas envolvendo as Carrionites em sua verdadeira forma, enquanto o grande clímax no Globe Theatre é emocionante e divertido, com o Diretor se utilizando de planos mais abertos e leves plongées e contra-plongées para ressaltar a grandiosidade da ação, embalado pela trilha de Murray Gold composta especialmente para o episódio, The Carrionites Swarm, que combina perfeitamente com o tom da trama.

Além disso, não há como ficarmos indiferente às diversas referências pop espalhadas pelo roteiro, vide as citações que o Doutor faz de Shakespeare para o dramaturgo (citações que Shakespeare ainda não escreveu), o uso de De Volta Para o Futuro (o filme, não a novelização, como o Doutor “delicadamente” observa) para explicar a Martha as regras da viagem do tempo, além das diversas referências a saga Harry Potter de J.K Rowling, que ganha uma brilhante e hilária importância durante o clímax da narrativa.

The Shakespeare Code pode não ser o episódio mais inteligente desta temporada, ou com melhor desenvolvimento de personagens, mas deixa o público com um sorriso de orelha á orelha durante toda a sua duração, apesar de seus problemas. O final, onde o Doutor encontra uma Rainha Elizabeth I furiosa e querendo a sua cabeça (por razões que só seriam reveladas no Especial de 50 anos) rendendo uma divertida e apressada fuga do Time Lord e de Martha de volta à TARDIS é a prova final dos reais objetivos deste episódio, diversão, aventura, e humor nonsense.

Doctor Who: The Shakespeare Code (Reino Unido, 07 de Abril de 2007)
Direção: Charlie Palmer
Roteiro: Gareth Roberts
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Dean Lennox Kelly, Christina Cole, Sam Marks, Amanda Lawrence, Linda Clark, David Westhead, Andrée Bernard, Chris Larkin, Stephen Markus, Matt King, Angela Pleasence.
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.