Crítica | Doctor Who – 3X03: Gridlock

Dentre todos os futuros distópicos (e versões imagináveis do inferno) que eu conheço, o engarrafamento eterno de Gridlock se destaca como uma figura particularmente assombrosa. Um dos efeitos mais duradouros do episódio para mim foi neste sentido de conseguir atingir muito bem o efeito tradicional que Doctor Who tem de transformar elementos triviais do cotidiano em ameaças críveis de terror/sci-fi. Da mesma série que futuramente nos angustiaria com propostas como “Não pisque!” e “Não respire!”, aqui temos a exploração criativa do questionamento nietzschiano arrepiante “Já imaginou ser condenado a reprisar essas horas absurdamente entediantes de engarrafamento por toda a eternidade?”. Confinado ao espaço estreito de seus carros, os quais por sua vez se encontram sufocantemente amontoados em uma multidão sem fim de lata e fumaça, somos apresentados aqui a um povo cuja vida toda tomou a forma dessa situação tão moribunda que é uma fila de trânsito eterna.

Uma das maiores forças deste roteiro de Russell T. Davies é, portanto, a construção de mundo. Mas o capítulo também acaba almejando fazer bem mais do que isso. Dando sequência às aventuras iniciais do 10º Doutor (David Tennant) ao lado de Martha Jones (Freema Agyeman), Gridlock funciona também como uma espécie de terceiro ato para a “trilogia” iniciada em The End of the World e continuada em New EarthObservamos aqui não apenas o retorno de figuras centrais dessas duas histórias precedentes, mas também uma continuidade temática que liga essas tramas entre si de forma muito interessante.

Da morte definitiva do planeta Terra para a primeira visita ao novo lar dos humanos, chegando finalmente a essa segunda e última viagem até a Nova Terra, um tema comum que atravessa os três episódios é a exploração do “fator humano” e da busca por sentido que acompanha essa curiosa espécie ao longo de sua jornada pelo cosmo. Da discussão a respeito da essência do que é “ser humano” em The End of the World ao imbróglio moral de New Earth, vemos a marca da sátira social de Davies sendo utilizada para temperar suas tramas futuristas com um charme próprio. Claro que a série não é estranha a questionamentos do tipo, mas é bastante interessante notarmos como o autor enfoca esses aspectos de uma maneira especial ao longo desse arco de histórias.

Investindo majoritariamente na construção de mundo, o roteiro em si acaba sendo sucinto, se dividindo em apenas dois momentos para além das sequências iniciais de exploração: a tentativa de resgate de Martha e o plot-twist central envolvendo a real razão por trás do congestionamento pesadelístico. Enquanto New Earth nos insere de início na próspera e reluzente superfície da Nova Terra para só depois revelar a podridão que reside sob o hospital futurista das Irmãs, Gridlock já se inicia nos cantos menos nobres do local e arrasta nosso par de protagonistas em uma jornada que tem como horizonte a promessa de uma vida melhor representada por essa distante superfície.

A “farmácia ao ar livre” nos dá pistas do estado decadente dos “novos terráqueos” que habitam esses cantos esquecidos, e a ideia das drogas de alta precisão baseadas em humores específicos é bem interessante, ainda que dê origem a alguns pontos mal explicados (Como exatamente funcionou a droga do esquecimento na garota que se separou dos pais? E por que raios Cheen (Lenora Crichlow) usava um adesivo de honestidade?).

A sequência dialoga também com o arco do Doutor, que age aqui de forma um tanto descuidada ao levar Martha para um de seus passeios memoráveis com Rose. Após mentir para a companheira a respeito de sua terra natal, o desagrado do Doutor com a situação nas vielas esquecidas da Nova Terra refletem um choque de realidade para seus intentos joviais e aventurescos. Ele até deve saber muito bem que a podridão do universo é fácil de se ver e difícil de se esquecer, mas do topo de sua presunção ele promete colocar um fim naquilo tudo – ao mesmo tempo em que é descuidado o suficiente para deixar com que Martha acabe sequestrada. Esses breves momentos de caracterização são bem interessantes, especialmente em uma re-assistida que leve em conta o arco maior dessa encarnação do Doutor.

No contexto da perseguição ao longo do congestionamento sem fim, temos uma exploração divertida e criativa da multiplicidade de culturas que convive na Nova Terra. A narrativa nos conduz despreocupadamente para conclusões precipitadas a respeito da real natureza da situação: a história mal contada envolvendo a peregrinação em massa e a figura suspeita de Calypso (cujo nome evoca a figura mitológica que manteve Ulisses cativo no que deveria ser um ponto transitório de sua jornada) contribuem para que achemos que se trata de um mecanismo insidioso de controle do fluxo migratório.

Enquanto ainda achamos que a trama gira apenas em torno do tema da migração, desconfiamos que as figuras por detrás das sombras agem apenas no sentido de manter iludidos os migrantes que aguardam desesperados por tanto tempo pela simples possibilidade de um lugar melhor para se viver. No entanto, Gridlock não se contenta em adotar essa via simples e tratar o tema sob a lente do sarcasmo social. Mais do que um comentário social sobre migração, a trama fala aqui sobre a esperança dessas pessoas forçadas a aceitar uma situação em que as probabilidades parecem definitivamente desanimadoras.

Nesse sentido, a cena de entoação coletiva do hino gospel “Abide With Me” é uma sequência curiosa: do mesmo Davies que se vale de muito humor sarcástico para abordar temas ligados a fé (como atestam bem seus Especiais de Natal, por exemplo), temos aqui um momento em que essa esperança acaba sendo pintada de forma mais dignificada. O “final feliz” da história, que dá um novo sentido ao isolamento dos habitantes dos níveis inferiores e garante a eles a possibilidade de recomeçar (de novo!) a vida na (Nova) Terra, traz muito desse posicionamento agridoce do autor a respeito desses temas – e tende aqui, como poucas vezes, a uma visão mais esperançosa a respeito da humanidade enquanto coletividade.

Se a produção deixa a desejar na montagem dos trechos da cidade subterrânea, os quais dificilmente convencem como algo além de becos genéricos que inegavelmente se localizam na Velha Terra, por volta do início do Século XXI, por outro lado triunfa totalmente no uso do que provavelmente é um mesmo set redecorado várias vezes para renderizar um congestionamento de forma bastante convincente. Realizar em tela uma trama dessa magnitude (com um orçamento inversamente proporcional) não é uma tarefa nada fácil, e por sorte as escolhas de direção aqui conseguem investir nos pontos principais para que a produção se sustente nessa frente.

Sobram até recursos para um inesperado retorno de uma versão em CG dos Macra. Agigantados e “devoluídos” em relação à última vez em que (não) os vimos, os monstros que se alimentam de poluição são tanto um fanservice glorificado quanto um red herring que tenta nos despistar a respeito do que realmente ocorre nos túneis – uma adição interessante para a boa construção de mundo do episódio, a qual certamente valeria ser melhor explorada em um outro momento. Esses pequenos toques de continuidade me parecem ter sempre uma ótima “relação custo-benefício” narrativo. Por sinal, outra delas que também pontua positivamente o enredo é a descrição de Gallifrey efetuada pelo Doutor, que parafraseia aquela feita por Susan em The Sensorites.

Talvez a única “falha” de Gridlock seja justamente a ausência de um inimigo ou ameaça a se combater, o que faz com que a história se encaminhe para um desfecho pacífico (e levemente expositivo) que deixa uma inegável sensação de que deveríamos ver um pouco mais sobre o desfecho desses eventos. Mas isso é mais do que compensado pelo clímax emocional, que retrata a morte do misterioso Face of Boe. A despedida dramática para essa figura bizarra amarra muito bem a temática dessa “trilogia da Nova Terra”, na qual Boe e a Irmã Hame atuam de forma redentora para garantir a sobrevivência da Terra  esse lugar que insiste em recomeçar apesar de todos os pesares.

Doctor Who – 3X03: Gridlock (Reino Unido, 2007)
Direção: Richard Clark
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Ardal O’Hanlon, Anna Hope, Travis Oliver, Lenora Crichlow, Jennifer Hennessy
Duração: 45 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.