Crítica | Doctor Who – 3X06: The Lazarus Experiment

Permanecendo na Terra, porém agora de volta ao tempo presente de Martha (Freema Agyeman), The Lazarus Experiment atua no esquema geral da temporada como uma retomada de foco sobre a companion, após uma leve jogada para escanteio em Daleks in Manhattan / Evolution of the Daleks. Assim, a subtrama da personagem traz aqui a mesma pegada de “reafirmação de votos” da parceria entre o Doutor e sua nova companheira de viagem vista anteriormente em Aliens of London / World War Three, e reativa a narrativa sobre a família Jones, preparando o terreno para nosso arco de temporada, focado na figura misteriosa de Harold Saxon, se desenrolar.

Nossa ameaça da vez, ao invés de trazer mais uma nova invasão alienígena ao planeta, remete mais às tramas terrestres do 3º Doutor ao lado da UNIT —  em mais de uma forma, inclusive. Temos tanto a tradicional ameaça do cientista terrestre aprontando uma lambança com tecnologias capazes de “mudar o que significa ser humano”, quanto a leve inspiração nos suspenses de espionagem de James Bond.

A combinação continua a funcionar muito bem: a ambientação do coquetel luxuoso promovido por um cientista louco com claras intenções perversas é um ambiente simples de se construir e bastante charmoso para desenvolvermos uma investigação breve e cheia de ação por parte do Doutor. Funcionando aqui em seu pleno modo “agente secreto”, temos uma clássica montagem de infiltração na festa que acaba proporcionando ótimos momentos de ação para o 10º Doutor, que corre, salta e grita em sua combinação de smoking com tênis All Star, e chega para a batalha final na catedral empunhando a chave de fenda sônica como o 007 empunharia sua pistola.

Em paralelo, o reencontro entre Martha e Francine (Adjoa Andoh) explora a perspectiva inversa do que aconteceu com Rose durante o ataque dos Slitheen: no ponto de vista da companion muito tempo já se passou, enquanto na perspectiva de seus familiares eles se encontram a pouquíssimo tempo dos eventos de Smith and Jones. A diferença é bem aproveitada pelo roteiro no sentido de novamente frisar o papel que Martha tem de servir como força mediadora entre a matriarca sentimentalista e controladora da família e seus dois irmãos com perfil mais despojado.

Apenas com interações pontuais, o roteiro consegue nos mostrar bem o quanto o período com o Doutor até aqui fez surgir em Martha certos lados totalmente inesperados por parte de sua família mais próxima. Enquanto Francine parte para a chantagem emocional deslavada (e acaba descontando as frustrações com uma bela de uma bifa na cara do Doutor), Tish (Gugu Mbatha-Raw) se diverte com a atitude inesperadamente aventureira da irmã, o que acaba inclusive levando-a a acompanhar a dupla no combate final contra a criatura. Leo (Reggie Yates) acaba sendo o personagem menos explorado do núcleo, reduzido a um dispositivo do roteiro para lerdear a fuga dos Jones em meio ao caos armado pelo ataque do monstro, após ser atingido na cabeça.

Interpretado pela figura carimbada de Mark Gatiss, o vilão Lazarus acaba representando um resultado misto entre caracterização eficiente e uma trama com alguns problemas estruturais. Seus traços de maldade um tanto caricata cumprem bem seu papel como parte de uma trama simples — o cientista não estaria muito fora de casa ao lado das ameaças mais extravagantes enfrentadas pelo 007, com um twist de ficção científica que deixaria Barry Letts orgulhoso. Seus aspectos mais perversos são mostrados pela lente das interações com Tish e Thaw (Thelma Barlow), onde ele revela seu obrigatório lado narcisista.

As tentativas de nuançar o vilão acabam tendo um alcance limitado, mas conseguem ao menos salvá-lo da unidimensionalidade total, fator essencial para que os bons confrontos via diálogo entre ele o Doutor possam ter seu devido peso dramático. O desejo de viver para sempre dispara uma breve lição do Doutor a respeito da húbris, tema que já deu as caras na introdução dos Jones e que continua a ganhar espaço na caracterização dessa encarnação do Time Lord.  Por sua vez, o subtexto com Trish — que sofre assédio do velhote mas acaba se interessando por sua versão rejuvenescida (sem saber, é claro, de que se tratava sua mais recente refeição) — traz um pouco do humor despojado típico dessa fase de Russell T. Davies,  e ajuda a acolchoar um pouco esse lado mais trágico da trama de modo a fazer a ponte com seus elementos mais brincalhões.

Embora esses ingredientes apontem na direção de uma ótima aventura terrestre para o Doutor, o episódio acaba pecando um pouco a partir de sua metade. A metamorfose monstruosa de Lazarus nos leva de Dr. No até A Mosca em poucos instantes, o clima investigativo dando lugar a um clássico terror B. Quer dizer, em parte. Mesmo estabelecendo um cenário promissor para a ameaça terrificante do monstro, ao invés de construir tensão, o episódio não abre mão do tradicional clima de “corre-corre”, perdendo a chance de explorar o ângulo de suspense de forma mais eficiente. Sem dúvida o departamento de computação gráfica agradeceria, já que rendenizar o bicharoco em alta velocidade claramente foi pedir um pouco além do que a produção poderia oferecer de melhor em termos técnicos.

O segundo e último problema é estrutural: o episódio tem dois finais. Podemos imaginar que dar ao nosso vilão aspirante a Highlander o nome de Lazarus, a tentação em fazê-lo ressucitar repentinamente após uma aparente derrota foi grande demais. Mas o fato é que a sua primeira morte acaba, por sua vez, “matando” um pouco do próprio momentum do episódio, que toma uma “parada para respirar” por um tempinho curto, porém suficiente para fazer com que o início da perserguição na catedral acabe soando como uma esticada desnecessária da história. O que é uma injustiça, já que a sequência traz não apenas nosso vilão em um momento interessante de fragilidade, mas também uma batalha de improviso bastante divertida.

Combinando influências diferentes em uma mistura divertida e empolgante, The Lazarus Experiment é uma boa trama episódica despretensiosa que cumpre  bem seu papel de desenvolver tanto nossa co-protagonista quanto o elenco de apoio atual. Martha “bate o martelo” e se demite da posição de “passageira”: é a “linha na areia” que vale tanto para o Doutor quanto para sua mãe, que dessa vez terá que esperar e respeitar o tempo dela. Que no meio desse desenvolvimento interessante possamos ter tido um vilão tão trash quanto carismático e uma batalha sônica contra uma aberração mutante em uma igreja são quase bônus a essas alturas.

Doctor Who – 3X06: The Lazarus Experiment (Reino Unido, 2007)
Direção: Richard Clark
Roteiro: Stephen Greenhorn
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Gugu Mbatha-Raw, Reggie Yates, Adjoa Andoh, Mark Gatiss, Thelma Barlow, Lucy O’Connell, Bertie Carvel
Duração: 45 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.