Crítica | Doctor Who – 3X07: 42

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42, título que não apenas homenageia a série O Guia do Mochileiro das Galáxias com seu número onipresente, mas também funciona como uma brincadeira com a série Norte Americana 24 horas (24 no original), foi o primeiro roteiro para Doctor Who escrito por Chris Chibnall, roteirista que futuramente se tornaria o terceiro Showrunner da Nova Série à partir da era da 13ª Doutora. Diferente de Steven Moffat, outro roteirista que assumiria o comando da série após o mandato de Russell T. Davies, cujas histórias se destacavam muitas vezes por trazer um ponto de vista diferenciado do show em relação àquele apresentado por Davies, este primeiro episódio de Chibnall é mais discreto, seguindo de perto a visão do produtor da Era do 10º Doutor. Mesmo a proposta de um episódio passado em tempo real (ou quase em tempo real) surge de forma bem sutil.

Na trama do episódio, o Décimo Doutor e Martha atendem a um pedido de socorro, materializando-se á bordo da nave SS Pentallian, que está caindo descontroladamente em direção a um Sol. Presos à bordo da nave quando a TARDIS é trancada em uma sala quente demais para alcançar, o Doutor e Martha têm cerca de quarenta e dois minutos para estabilizar a nave, mas logo descobrem que os danos não foram acidentais.

Seguindo a dinâmica de um plot que se desenrola aproximadamente em tempo real, o roteiro de Chris Chibnall é ágil, apresentando o seu elenco de apoio e seus dramas no fluxo da ação da história. A maioria destes personagens não se destacam muito, possuindo características muito funcionais para o enredo, o que não prejudica a narrativa, mas impede que o episódio consiga alçar voos mais altos, embora se deva elogiar o arco dramático da Capitã Mcdonnell, desenhado de forma competente e econômica.

Podemos perceber também certo subtexto ambiental na história criada por Chibnall, uma característica de sua escrita que voltaria a aparecer em alguns dos episódios que escreveu na era do 11º Doutor, e posteriormente quando assumiu o comando da série na 11ª Temporada. De certa forma, 42 é uma espécie de eco-horror cósmico, já que a grande ameaça do episódio é o próprio Sol para onde a SS Pentallian está caindo, uma estrela senciente, que teve o seu gás roubado pela capitã da nave e que agora busca se vingar da tripulação, chegando a possuir alguns membros da equipe que repetem a frase “Burn With Me!”enquanto caçam outros membros utilizando máscaras de solda para cobrir os rostos incandescentes. A premissa pode ser vista como uma metáfora para a exploração ilegal de recursos naturais, o que é uma adaptação inteligente para o cenário espacial escolhido pelo roteirista.

O episódio funciona também como a primeira aventura de Martha Jones como companion oficial (como se ela não tivesse sido nos seis episódios anteriores) o que é reforçado tanto no começo da história, com a estudante de medicina recebendo um celular modificado igual aquele utilizado por Rose Tyler, quanto no final, quando a jovem enfim ganha uma chave da TARDIS. A trama ainda dá alguma oportunidade para Freema Agyeman exercitar a veia dramática de sua personagem através da cena em que Martha acredita que irá morrer, ao ficar presa em uma capsula espacial que é lançada em direção ao sol. A cena, entretanto, não parece funcionar como deveria, por uma escolha de trilha equivocada e pela direção que não parece valorizar os diálogos da cena.

David Tennant está ótimo, como de costume, na pele do Décimo Doutor. Por se tratar de uma história onde o Time Lord encontra uma crise já em pleno andamento, o Doutor de Tennant surge mais sisudo neste episódio, tendo pouco espaço para o humor. Tennant transmite bem a força e a firmeza do Doutor diante da situação caótica que encontra a bordo da SS Pentallian, onde rapidamente assume a liderança do grupo, ao mesmo tempo em que torna palpável o desespero contido de seu personagem quando entra em uma corrida contra o tempo para salvar a vida de Martha.

O episódio apresenta um leve avanço na trama central da temporada, ao revelar que o misterioso Sr. Saxon recrutou a mãe de Martha para ajudá-lo a monitorar os movimentos da garota e do Doutor. Percebe-se certa evolução na forma como a trama central da temporada é conduzida em relação às duas anteriores, onde as palavras chave “Bad Wolf” e “Torchwood” surgiam de forma quase aleatória nos episódios. A 2ª Temporada já mostrava certa evolução ao dedicar um episódio para contar a origem da trama central, mas a 3ª Temporada deu um passo adiante ao estabelecer uma trama central que tinha uma influência (mesmo que mínima) sobre a temporada como um todo, ainda que o Doutor só fosse se dar conta disso na Season Finale.

O diretor Graeme Harper retorna à série realizando um trabalho relativamente competente de direção, transmitindo a urgência da história através de enquadramentos levemente trêmulos nos momentos de maior ação, mas que não chamam a atenção demais para si mesmos. Merece destaque também a sequência em que o Doutor e Martha se olham através do vidro da câmera de descompressão, quando Martha fica presa na cápsula espacial, em uma cena que se utiliza justamente da ausência de trilha para ampliar o seu impacto dramático.

42 é um bom episódio, que traz uma interessante adaptação da temática do eco-horror em uma história onde a fúria da natureza é representada por um Sol vivo. É tecnicamente bem realizado, especialmente no que diz respeito à fotografia em tons amarelos e vermelhos, que ressaltam o calor cada vez maior dentro da nave à medida em que a trama avança. Alguns dos personagens de apoio poderiam ter ganhado um tratamento melhor, mas se não consegue ir além, ao menos é um episódio que cumpre aquilo que promete; o que não é nada mal para a estreia do futuro Showrunner da série.

Doctor Who – 3×07: 42 (Reino Unido, 2007)
Direção: Graeme Harper.
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Michelle Collins, Adjoa Andoh, William Ash, Anthony Flanegan, Vinette Robinson, Rebecca Oldfield, Elize du Toit, Matthew Chambers, Gary Powell.
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.