Crítica | Doctor Who – 3X08 e 9: Human Nature e The Family of Blood

De todos os roteiristas arrebanhados por Russell T. Davies diretamente do universo expandido para compor a nova série de Doctor Who, Paul Cornell é um dos que eu mais lamento não ter recebido mais episódios para assinar (o outro, claro, é o Robert Shearman). Talvez mais do que qualquer outro do time produtivo da época, Cornell conseguiu alinhar perfeitamente roteiros intrigantes de ficção científica com a pegada mais dramática e focada em personagens que caracteriza a visão particular do showrunner para o seriado. Assim foi com sua primeira colaboração, em Father’s Day, e assim o é, de forma ainda mais marcada, com a aventura em duas partes Human Nature / The Family of Blood —  dois pontos absolutamente memoráveis de suas respectivas temporadas, na minha experiência pessoal por esse universo.

Adaptando o livro homônimo do autor, lançado originalmente em 1995 como parte das Virgin New Adventures, Human Nature traz uma premissa imperdível que trata de temáticas centrais do personagem (e da série como um todo) e, felizmente, não desperdiça a oportunidade. A proposta central: John Smith, a alcunha humana do Doutor, deixa de ser apenas um pseudônimo casual para se tornar um personagem por si só. Os desdobramentos desse cenário, em The Family of Blood, mais do que dão conta de nos empolgar e explorar o personagem por ângulos muito interessantes.

Se é que há realmente algo da natureza humana no Doutor (como garante a provocação inusitada do Mestre a respeito de sua suposta origem no filme de 1996), dificilmente esse lado apareceu desvinculado da perspectiva semi-onisciente do viajante espaço-temporal. Não é por menos que os companions tenham papel tão central em servir como suporte de identificação ao público: o Doutor é aquele tipo de personagem que (ao menos quando bem escrito) costuma apontar para o que há de inspirador nas figuras “mais que humanas” dos heróis e dos sábios. Não há muito espaço para a fragilidade humana e, quando ela aparece, acaba sendo interessante justamente pelo contraste.

Algo muda, portanto, quando o 10º Doutor acaba forçado a “pendurar o relógio”, deixando em seu lugar uma figura bastante diferente daquela com a qual estamos acostumados. John Smith está para o Doutor assim como Clark Kent está para o Superman  —  uma figura ordinária e absolutamente sem excessos, porém ainda assim (e no contraste profundo com sua “versão completa”) capaz de encantar.

O terreno desse episódio duplo é favorável para explorar esse contraste justamente ao fazer um bom proveito de suas origens literárias. Ainda que seja comum para a série lançar mão de elencos de apoio extensos para rechear suas aventuras episódicas, Human Nature / The Family of Blood traz um grupo de personagens instantaneamente memoráveis atuando não apenas como suporte à aventura do Doutor (David Tennant) e de Martha Jones (Freema Agyeman), mas também formando por si sós um cenário complexo e bastante detalhado que garante à trama sua necessária ambientação, sem se render aos moldes já conhecidos e testados do seriado. Esse tipo de efeito, que tanto enriquece as aventuras literárias do personagem, é bastante raro de ser atingido com tanta precisão na versão televisiva quanto o é aqui.

Embora tenhamos ideia de que a situação atual se deu após nossos protagonistas serem acuados por uma família de caçadores implacáveis, os detalhes a respeito disso são revelados de forma a maximizar esse efeito de contraste entre o Doutor e o Professor Smith, o qual observamos principalmente a partir da perspectiva de Martha. O primeiro episódio prepara o terreno de forma brilhante: adotando uma estratégia bastante diferente da vista em The Shakespeare Code, o roteiro se debruça sobre as vivências de Martha em uma situação social de forte segregação racial, de quebra introduzindo toda a escola como um mosaico das mais diversas barbáries civilizadas da alta sociedade britânica de 1913.

Sobreviver por tempo o suficiente nessas condições pode não parecer uma tarefa tão periculosa quanto as aventuras mais arriscadas da dupla, mas nos fica claro o quanto é sofrido para Martha lidar com toda essa situação, fingindo ser outra pessoa em meio a um mar de mediocridade classista do qual seu ídolo parece cada vez mais fazer parte. Adicionando o insulto à injúria, o professor Smith revela um lado do Doutor capaz de se apaixonar por uma “simples humana” — para o azar de Martha, não se trata dela, mas da governanta Joan Redfern (Jessica Hynes), uma típica cidadã da época!

Ao mesmo tempo, há também o cuidado em humanizar o “lado de lá”: a doçura imaginativa de Smith e seu “Diário de Coisas Impossíveis”, bem como seu romance recalcitrante com Joan quase nos fazem esquecer das idiossincrasias promovidas por eles no local —  tudo uma questão de perspectiva histórica, como bem já nos ensinava a primeira encarnação do Time Lord. A comédia felizmente não deixa de dar as caras, em especial quando se tratam das reações (cada vez mais impacientes) de Martha em relação a sua situação atual. É inclusive nas interações com a companion que vamos vendo pouco a pouco o lado mais “à frente de seu tempo” de Joan, central para o desfecho dramático da trama.

O primeiro episódio monta um mistério envolvente e divertido, com o jovem Tim (Thomas Brodie-Sangster) nos servindo como um segundo ponto de vista outsider do local, com o ingrediente adicional do mistério envolvendo o relógio e o mecanismo do Chameleon Arc, responsável pelo disfarce impecável do Doutor. Os abusos e as pequenas violências escolares, devidamente autorizadas pelo corpo docente — afinal de contas é o tipo de coisa que forma(va) caráter em (1910) 2019 —, acabam servindo não apenas para fundar essa ambientação detalhista do cenário mas também no jogo com o pano de fundo da iminente Guerra Mundial que se aproximava. “Vão ser esses os futuros governantes do país?” se pergunta horrorizada uma das funcionárias do local, ao que Martha responde:”É, pior que talvez não!”. Um dos temas mais tragicamente realistas a ser tratado pelo seriado, e que rende excelente forro temático ao combate da escola contra a absurda família de caçadores.

A segunda parte da aventura aproveita bem essa construção, desembocando em um horror trash do tipo que a série faz tão bem. A formação da Família de Sangue traz o ponto perfeito dessa tonalidade — da imagética “stephen kingiana” da garota com o inseparável balão vermelho até a figura central e bizarra de Baines (Harry Lloyd), os vilões trazem um terror televisivo charmoso e eficiente, nos passando sua natureza sobrenatural através de manias de fala e tiques bizarros. É o tipo de saída criativa que prende a atenção do espectador do início afo fim. Espantalhos são assustadores, e o exército de papel tem um efeito visual e temático sensacional aqui: o horror mal contido pelos estudantes ao metralhar os vultos, pensando inicialmente se tratarem de pessoas, e o alívio ao ver que era só palha, no final das contas. Uma cena literalmente de arrepiar, mesmo quando vista em repetição.

Não bastasse conseguir desenvolver essas sub-tramas de forma tão interessante, a produção ainda encontra espaço para encaixar um dilema identitário de ficção científica que acaba sendo ocasião para vermos Tennant fazer o que faz de melhor: cara de dor, choro e sofrimento transcendental. O drama do Professor John Smith, que deve se suicidar para dar lugar ao verdadeiro herói capaz de salvar a escola é talvez sua maior encarnação da natureza humana. Ele pensa em deixar tudo que se exploda e fugir com Joan, busca seu apoio para isso, mas cabe a ela vestir a capa do herói e encorajá-lo a tomar a decisão — nada fácil — de desaparecer para sempre.

De quebra, vislumbramos um pouco do lado mais sombrio e das tendências megalomaníacas do 10º Doutor: após revelar que o que fez foi mais em piedade do que covardia, ele pune cruelmente a Família de Sangue (nos lembrando de seu momento de fúria em The Runaway Bride), condenando-os à vida eterna que tanto desejavam, porém em eterno sofrimento. O cara tem a pachorra de propor a Joan que a acompanhe como companion, e por sorte é devidamente negado pela governanta, que ainda por cima esfrega em sua cara sua parcela de responsabilidade pela tragédia.

Drama bem feito, envolvente e com consequências temáticas fantásticas para o personagem. Horror trash divertido e empolgante, cheio de momentos visualmente bacanas. Elenco de apoio memorável. Arcos de personagem melhor desenvolvidos em dois episódios do que alguns companions foram em temporadas inteiras da série. Pois é, posso dizer que, para mim, Doctor Who não fica muito melhor do que isso!

Doctor Who – 3X08 e 3×09: Human Nature / The Family of Blood (Reino Unido, 2007)
Direção: Charlie Palmer
Roteiro: Paul Cornell
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Jessica Hynes, Rebekah Staton, Thomas Brodie-Sangster, Harry Lloyd, Tom Palmer, Gerard Horan, Lor Wilson, Pip Torrens, Matthew White, Derek Smith, Peter Bourke
Duração: 45 min (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.