Crítica | Doctor Who – 3X10: Blink

Blink_PLANO CRITICO DOCTOR WHO

Blink, escrito por Steven Moffat, é um dos chamados Doctor Lite, episódios que devido ao tempo apertado de produção, contém uma participação mínima do Doutor e de sua companion, e que são realizados basicamente para cumprir a demanda exigida na época pela BBC, de 13 episódios por temporada. Russell T. Davies viu nestes episódios a chance de criar histórias mais experimentais para a série, embora Love & Monstersda temporada anterior, tenha se tornado uma experiência que não deu muito certo. Quando começou a planejar a 3ª Temporada, o Showrunner convocou Steven Moffat para escrever um arco com os Daleks, mas o roteirista não estava disponível. Quando encontrou tempo livre, Moffat entrou em contato com Davies, mas a única história restante era o então famigerado Doctor Lite. O futuro Showrunner aceitou o desafio e o resultado é um episódio que não apenas introduz os vilões mais populares criados pela Nova Série, mas também um dos episódios mais queridos do renascimento de Doctor Who.

A trama acompanha Sally Sparrow, uma jovem fotógrafa que, ao invadir uma velha casa abandonada em Londres, fascinada por sua arquitetura, acaba envolvida em um mistério que coloca a sua vida e a das pessoas à sua volta em risco. Tendo a sensação de estar sendo seguida por enigmáticos anjos de pedra, a moça se vê enredada em uma trama onde passado, presente e futuro se misturam e sua única chance de sobreviver está nas mensagens deixadas pelo Décimo Doutor em Easter Eggs de antigos DVDs.

Blink, assim como The Girl in The Fireplace da 2ª Temporada, dá grandes indícios de para onde Moffat levaria a série quando assumisse o programa. A trama trabalha com os paradoxos temporais tão caros ao roteirista durante o tempo em que comandou o show, lidando com a questão da viagem no tempo não como um dispositivo meramente espacial da trama, mas como um elemento que afeta a própria estrutura narrativa, onde causa e efeito se misturam provocando um Timey Wimey, como o Doutor define em sua mensagem para Sally. Isso não é uma exclusividade de Moffat em Doctor Who, mas sua aplicação do conceito parece levar a história a formar um círculo perfeito, sem começo ou fim definidos. Afinal, Sally só é capaz de enfrentar os Weeping Angels por seguir as instruções do Time Lord, mas este só foi capaz de dar estas instruções porque Sally lhe entregou as transcrições das conversas, e assim sucessivamente.

Não há como falar de Blink sem exaltar os Weeping Angels, talvez a melhor criação da Nova Série no que se refere a vilões. Moffat já havia demonstrado o quanto gosta de explorar medos infantis e primais com seus monstros nos episódios que havia escrito anteriormente, mas os Weeping Angels subvertem a reação infantil instintiva ao medo de cobrir os olhos, já que só podem atacar as suas vítimas quando não estão sendo observados. A simplicidade que cerca o conceito destes vilões é o que os torna tão assustadores. Inicialmente eles são apenas estátuas, algo relativamente corriqueiro. O fato de revelarem a sua verdadeira natureza somente quando não são vistos aumenta o fator desconhecido, tornando estes monstros ainda mais assustadores. O brilhante conceito ainda ganha o reforço do excelente texto de Moffat, que coloca atos simples como piscar ou desviar o olhar como uma sentença de morte.

Escrevi muito sobre o trabalho de Moffat, mas a direção de Hettie MacDonald é fundamental para o êxito do episódio. O visual de Blink remete a uma atmosfera gótica e fantástica que casa perfeitamente com a narrativa, mas não ao gótico tradicional ao qual a série constantemente paga tributo, e sim o gótico contemporâneo. Tanto o ambiente da casa abandonada quanto a fachada de uma delegacia londrina evoca esse gótico contemporâneo muito raro de se ver no programa, que mistura estátuas e construções antigas com um ambiente mais moderno. A fotografia é outro ponto a ser destacado, utilizando uma iluminação e uma paleta de cores muito mais cinzenta do que a geralmente utilizada em Doctor Who, construindo assim o clima opressivo e claustrofóbico da história. Essa escolha também dá ao episódio um distanciamento estético interessante, já que é contado de um ponto de vista diferenciado.

MacDonald também não perde de vista o fato de Blink ser basicamente uma história de terror e apresenta uma montagem soberba, que explora ao máximo a tensão proposta pelo texto em cenas relativamente simples. A diretora constrói o suspense justamente tencionando os elementos de dentro e fora de quadro, algo até esperado tendo em vista o modus operandi dos monstros. O impressionante é que os principais méritos técnicos do episódio são alcançados através da simplicidade. Peguem o momento em que Sally é cercada pelos Anjos em um porão com as luzes falhando, vendo as criaturas se aproximarem á cada vez que as luzes piscam. É um efeito atingido através de meios relativamente simples para os padrões da série, mas com resultados aterradores.

Por fim, mas não menos importante, é preciso elogiar o trabalho de Carey Mulligan (que pouco tempo depois alcançaria projeção mundial no cinema), que constrói Sally Sparrow como uma protagonista carismática e identificável. A atriz entende que Sally precisava representar uma pessoa comum, que subitamente se vê arrastada para o mundo do Doutor, o que pode ser igualmente fascinante e aterrorizante. Ao mesmo tempo, a personagem mostra uma sagacidade e uma coragem admiráveis, mas que nunca entra em conflito com sua posição de “garota comum”. Mesmo tendo pouco tempo de tela, David Tennant consegue se destacar como o 10º Doutor. Seu assustador discurso a respeito dos Weeping Angels nos easter eggs transmite de forma orgânica a urgência da situação, ao mesmo tempo em que reconhece o absurdo do cenário em que ele e Sally se encontram.

Blink segue sendo um dos clássicos da Nova Série, trazendo monstros que mexem com a imaginação do público, e explorando com inteligência o potencial que uma história Doctor Lite tem a oferecer. O episódio chegou a ser eleito durante uma votação realizada pela DW Magazine no aniversário de 50 anos da série (que levava em conta as sete primeiras temporadas do revival) como o melhor episódio produzido pela Nova Série. Embora eu não lhe dê tamanho crédito, Blink traz um roteiro e uma direção extremamente afinados um com o outro, sendo de fato uma excelente história de Doctor Who, independente do tamanho da participação do Doutor. Um episódio que literalmente não nos deixa piscar.

Doctor Who – 3×10. Blink (Reino Unido, 09 de Junho de 2007).
Direção: Hettie MacDonald
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Carey Mulligan, Lucy Gaskell, Finlay Robertson, Richard Cant, Michael Obiora, Louis Mahoney.
Duração: 45 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.