Crítica | Doctor Who – 3X11: Utopia

Eu não fazia ideia sobre o Mestre. Não, não falo apenas no sentido de que eu jamais pude prever a real identidade do carismático e bondoso Professor Yana (Derek Jacobi). Assim como provavelmente aconteceu com muitos iniciantes no universo de Doctor Who se aventurando pela primeira vez pela Nova Série, a revelação a respeito do retorno do Mestre ao final deste episódio foi também minha introdução efetiva ao personagem como um todo. Tinha até “pescado” o nome do vilão no ar, zapeando pela internet doido de curiosidade sobre a Série Clássica, mas sempre com medo de tomar um belo spoiler que prejudicasse meu projeto de assisti-la em breve. Mas essa falta de “base” não me prejudicou: o final cataclísmico de Utopia deixou bem claro que a revelação era realmente coisa séria, e foi um dos momentos mais impactantes de toda a 3ª temporada até mesmo para um espectador ainda novato nesse universo.

A bem da verdade, no entanto, Utopia consegue impressionar para além do cliffhanger bombástico que abre caminho para o finale que vem a seguir. Aproveitando um pequeno gancho deixado pelo final da 1ª temporada de Torchwood, começamos com o retorno inesperado do Capitão Jack Harkness (John Barrowman) para a série, embarcando (de forma um tanto clandestina) em uma aventura diretamente até o literal fim do universo juntamente ao 10º Doutor (David Tennant) e Martha Jones (Freema Agyeman).

Ainda que não seja a primeira (ou a última) vez em que a temática é abordada na franquia, o cenário pós-apocalíptico mostrado aqui consegue cativar a partir de dois pontos de apoio especiais: a tonalidade da narrativa e a figura central do Professor Yana. Embora a viagem se inicie com um encontro em tanto cômico de Jack com a TARDIS, a produção dá conta de manter no ar por todo o tempo um clima de tensão e suspense. O momento derradeiro da humanidade retratado aqui está longe de ser uma abordagem original à premissa, mas se mantém interessante no contraste com a esperança representada pelo projeto de Yana em escapar do fim entrópico do universo rumo à terra prometida de Utopia.

Ou seja, todo o lance envolvendo o conflito com os seres mutantes serve mais como pano de fundo para os eventos focados em personagem a se desenrolarem no momento da partida dos colonos. O protagonismo da narrativa episódica fica a cargo de Yana, um professor-cientista genial forçado a criar o impossível em uma situação totalmente adversa. Toda a montagem do episódio, deixando à parte suas revelações finais, introduzem elementos de tensão e suspense que ajudam a engambelar o espectador a respeito delas: o foguete necessita que alguém fique para trás para poder decolar, ao mesmo tempo em que Yana parece sofrer secretamente de algum mal (provavelmente relacionado ao estresse e insônia advindos de se construir uma nave espacial com miojo antes que o universo imploda). Assim é que a produção astutamente conduz os desavisados a pensar que o sacrifício do figura é que será o nó dramático da história, ao mesmo tempo em que a invasão dos mutantes daria os toques de ação necessários.

Ao mesmo tempo, a introdução do personagem brinca muito bem com pistas visuais que sugerem uma aproximação entre o Doutor e esse curioso salvador da colônia. Seu laboratório com tecnologias absurdas e aspecto “faça você mesmo”, dispostas circularmente e na vertical, acabam lembrando vagamente o console de uma TARDIS e as gambiarras inexplicáveis e usuais de nosso Time Lord. Isso sem contar a vestimenta vitoriana obviamente anacrônica e a fiel assistente embasbacada pelo brilhantismo e excentricidade de seu companheiro/mentor. É tão óbvio que não é nada óbvio, e o roteiro brinca com essa proximidade ao trabalhar a relação de um Doutor inicialmente cabreiro em relação ao sujeito, mas que pouco a pouco se interessa e se aproxima cada vez mais de seu projeto megalomaniaco — e, essencialmente, heroico.

A dinâmica entre o Doutor e Jack também é explorada de forma interessante, ainda que ao custo de roubar de Martha o cargo de companion principal na trama. É por um bom motivo: através de diálogos bem escritos e uma bela atuação de Tennant e Barrowman, “passamos a limpo” elementos de roteiro que remontam a Bad Wolf / The Parting of the Ways, ao mesmo tempo em que a temática do sacrifício heroico vai nos desviando o foco de atenção até que chegue enfim o momento certo. Nas bordas do que parecia um momento de redenção do Doutor, no qual ele faz as pazes com um dos últimos legados da Time War, a revelação sobre a real identidade de Yana se monta como uma tragédia mais que eficiente.

O que achávamos ser efeito de uma doença de um frágil humano se revela como a perturbação mental da versão sombria e invertida do Doutor. A evocação do relógio de bolso do Chameleon Arc empresta a preparação sólida deixada por Human Nature / The Family of Blood, explicando muita coisa com bem pouco — um exemplo de como eu vejo os arcos de temporada funcionando bem em Doctor Who. Ao invés de investir tempo construindo prelúdios e teasers descarados, o empréstimo astuto de um elemento visto anteriormente que cai como uma luva para as exigências do roteiro atual, ao mesmo tempo em que garante no espectador o senso de compartilhar da mitologia comum da série.

Na reta final do que parecia uma viagem com percalços mínimos (comparativamente ao dia-a-dia na TARDIS), Martha percebe que há algo de muito errado ali (eu tinha na minha memória que ela inicialmente incentivava Yana a abrir o relógio, por sorte não foi o caso de pendurar essa na conta da personagem!), mas já era tarde demais. Achávamos que a ida de Jack ao futuro fora uma feliz coincidência capaz de poupar a vida de Yana e Chantho de seu sacrifício heroico — mas no final das contas, tratava-se de salvar a vida e garantir uma escapada limpa ao Mestre!

Um episódio dramático e empolgante construído como espécie de “primeira parte surpresa” do final de temporada, que no entanto só revela essa natureza em seus minutos finais bombásticos. Tão inesperada quanto em Time-Flight, tão icônica quanto em The Deadly Assassin, a revelação do Mestre em Utopia não desperdiça nada da preparação deixada pelo arco de The Face of Boe. A transição de Jacobi para Simm informa o espectador novato sobre o essencial do vilão, ao mesmo tempo em que deixa claro para o veterano que sim, o cara está de volta! O assassinato brutal de Chantho (Chipo Chung) pontua essa diferença de forma marcante, e dá início à sequência de atrocidades que veremos se desenrolar no finale. O único arrependimento que fica é o quão pouco tempo de tela temos da visão do Mestre interpretado por Jacobi: uma verdadeira purificação que resgatou o personagem após o falso começo na pele de Eric Roberts.

Doctor Who – 3×11. Utopia (Reino Unido, 16 de Junho de 2007).
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, John Barrowman, Derek Jacobi, Chipo Chung, René Zagger, Neil Reidman, John Simm
Duração: 45 Min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.