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Crítica | Doctor Who – 3X11: Utopia

por Giba Hoffmann
169 views (a partir de agosto de 2020)

Eu não fazia ideia sobre o Mestre. Não, não falo apenas no sentido de que eu jamais pude prever a real identidade do carismático e bondoso Professor Yana (Derek Jacobi). Assim como provavelmente aconteceu com muitos iniciantes no universo de Doctor Who se aventurando pela primeira vez pela Nova Série, a revelação a respeito do retorno do Mestre ao final deste episódio foi também minha introdução efetiva ao personagem como um todo. Tinha até “pescado” o nome do vilão no ar, zapeando pela internet doido de curiosidade sobre a Série Clássica, mas sempre com medo de tomar um belo spoiler que prejudicasse meu projeto de assisti-la em breve. Mas essa falta de “base” não me prejudicou: o final cataclísmico de Utopia deixou bem claro que a revelação era realmente coisa séria, e foi um dos momentos mais impactantes de toda a 3ª temporada até mesmo para um espectador ainda novato nesse universo.

A bem da verdade, no entanto, Utopia consegue impressionar para além do cliffhanger bombástico que abre caminho para o finale que vem a seguir. Aproveitando um pequeno gancho deixado pelo final da 1ª temporada de Torchwood, começamos com o retorno inesperado do Capitão Jack Harkness (John Barrowman) para a série, embarcando (de forma um tanto clandestina) em uma aventura diretamente até o literal fim do universo juntamente ao 10º Doutor (David Tennant) e Martha Jones (Freema Agyeman).

Ainda que não seja a primeira (ou a última) vez em que a temática é abordada na franquia, o cenário pós-apocalíptico mostrado aqui consegue cativar a partir de dois pontos de apoio especiais: a tonalidade da narrativa e a figura central do Professor Yana. Embora a viagem se inicie com um encontro em tanto cômico de Jack com a TARDIS, a produção dá conta de manter no ar por todo o tempo um clima de tensão e suspense. O momento derradeiro da humanidade retratado aqui está longe de ser uma abordagem original à premissa, mas se mantém interessante no contraste com a esperança representada pelo projeto de Yana em escapar do fim entrópico do universo rumo à terra prometida de Utopia.

Ou seja, todo o lance envolvendo o conflito com os seres mutantes serve mais como pano de fundo para os eventos focados em personagem a se desenrolarem no momento da partida dos colonos. O protagonismo da narrativa episódica fica a cargo de Yana, um professor-cientista genial forçado a criar o impossível em uma situação totalmente adversa. Toda a montagem do episódio, deixando à parte suas revelações finais, introduzem elementos de tensão e suspense que ajudam a engambelar o espectador a respeito delas: o foguete necessita que alguém fique para trás para poder decolar, ao mesmo tempo em que Yana parece sofrer secretamente de algum mal (provavelmente relacionado ao estresse e insônia advindos de se construir uma nave espacial com miojo antes que o universo imploda). Assim é que a produção astutamente conduz os desavisados a pensar que o sacrifício do figura é que será o nó dramático da história, ao mesmo tempo em que a invasão dos mutantes daria os toques de ação necessários.

Ao mesmo tempo, a introdução do personagem brinca muito bem com pistas visuais que sugerem uma aproximação entre o Doutor e esse curioso salvador da colônia. Seu laboratório com tecnologias absurdas e aspecto “faça você mesmo”, dispostas circularmente e na vertical, acabam lembrando vagamente o console de uma TARDIS e as gambiarras inexplicáveis e usuais de nosso Time Lord. Isso sem contar a vestimenta vitoriana obviamente anacrônica e a fiel assistente embasbacada pelo brilhantismo e excentricidade de seu companheiro/mentor. É tão óbvio que não é nada óbvio, e o roteiro brinca com essa proximidade ao trabalhar a relação de um Doutor inicialmente cabreiro em relação ao sujeito, mas que pouco a pouco se interessa e se aproxima cada vez mais de seu projeto megalomaniaco — e, essencialmente, heroico.

A dinâmica entre o Doutor e Jack também é explorada de forma interessante, ainda que ao custo de roubar de Martha o cargo de companion principal na trama. É por um bom motivo: através de diálogos bem escritos e uma bela atuação de Tennant e Barrowman, “passamos a limpo” elementos de roteiro que remontam a Bad Wolf / The Parting of the Ways, ao mesmo tempo em que a temática do sacrifício heroico vai nos desviando o foco de atenção até que chegue enfim o momento certo. Nas bordas do que parecia um momento de redenção do Doutor, no qual ele faz as pazes com um dos últimos legados da Time War, a revelação sobre a real identidade de Yana se monta como uma tragédia mais que eficiente.

O que achávamos ser efeito de uma doença de um frágil humano se revela como a perturbação mental da versão sombria e invertida do Doutor. A evocação do relógio de bolso do Chameleon Arc empresta a preparação sólida deixada por Human Nature / The Family of Blood, explicando muita coisa com bem pouco — um exemplo de como eu vejo os arcos de temporada funcionando bem em Doctor Who. Ao invés de investir tempo construindo prelúdios e teasers descarados, o empréstimo astuto de um elemento visto anteriormente que cai como uma luva para as exigências do roteiro atual, ao mesmo tempo em que garante no espectador o senso de compartilhar da mitologia comum da série.

Na reta final do que parecia uma viagem com percalços mínimos (comparativamente ao dia-a-dia na TARDIS), Martha percebe que há algo de muito errado ali (eu tinha na minha memória que ela inicialmente incentivava Yana a abrir o relógio, por sorte não foi o caso de pendurar essa na conta da personagem!), mas já era tarde demais. Achávamos que a ida de Jack ao futuro fora uma feliz coincidência capaz de poupar a vida de Yana e Chantho de seu sacrifício heroico — mas no final das contas, tratava-se de salvar a vida e garantir uma escapada limpa ao Mestre!

Um episódio dramático e empolgante construído como espécie de “primeira parte surpresa” do final de temporada, que no entanto só revela essa natureza em seus minutos finais bombásticos. Tão inesperada quanto em Time-Flight, tão icônica quanto em The Deadly Assassin, a revelação do Mestre em Utopia não desperdiça nada da preparação deixada pelo arco de The Face of Boe. A transição de Jacobi para Simm informa o espectador novato sobre o essencial do vilão, ao mesmo tempo em que deixa claro para o veterano que sim, o cara está de volta! O assassinato brutal de Chantho (Chipo Chung) pontua essa diferença de forma marcante, e dá início à sequência de atrocidades que veremos se desenrolar no finale. O único arrependimento que fica é o quão pouco tempo de tela temos da visão do Mestre interpretado por Jacobi: uma verdadeira purificação que resgatou o personagem após o falso começo na pele de Eric Roberts.

Doctor Who – 3×11. Utopia (Reino Unido, 16 de Junho de 2007).
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, John Barrowman, Derek Jacobi, Chipo Chung, René Zagger, Neil Reidman, John Simm
Duração: 45 Min.

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1 comentário

Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 14 de agosto de 2019 - 07:48

Crítica excelente, meu caro! Quando eu vi Utopia, eu também não fazia ideia de quem era o Mestre. Na época ainda não tinha começado a minha jornada na Série Clássica, então tudo era absolutamente novo. Foi algo indescritível. A emoção de ver esse novo Time Lord, a revelação de QUEM ERA Yana, o fechamento soberbo do arco da Face de Boe… Ah, tempos que Doctor Who sacudia a gente da cadeira…

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