Crítica | Doctor Who – 3X12 e 13: The Sounds of Drums e The Last of The Time Lords

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No desfecho de sua 3ª Temporada como showrunner de Doctor Who, Russell T. Davies demonstra grande evolução na hora de amarrar o arco central da temporada, ao mesmo tempo em que entrega aquela que talvez seja a Finale mais ousada que escreveu para a série. A trama começa de onde Utopia parou, com o 10º Doutor, Martha e Jack presos no fim do Universo após o Mestre roubar a TARDIS. O trio escapa usando o manipulador de Vortex de Jack, mas ao voltarem para a Londres atual, descobrem não só que o Mestre chegou mais de um ano antes, como também se elegeu Primeiro Ministro britânico, sob o nome de Harold Saxon. Quando Saxon anuncia que estabeleceu contato com alienígenas chamados de Toclafanes, o Doutor se prepara para impedir uma invasão em grande escala, mas desta vez, ele pode não ter sucesso.

O arco mostra-se um desfecho de temporada orgânico, reutilizando-se de elementos vistos em outros episódios para construir a trama, como a tecnologia vista em The Lazarus Experiment e a desconfiança de Francine Jones em relação ao Doutor. Não que seja um arco de temporada perfeito, já que a construção envolvendo o aliciamento dos Jones pelas forças de Saxon é rapidamente descartada nos primeiros minutos do arco, mas as menções a Harold Saxon ao longo dos treze episódios soam menos aleatórias do que foram as palavras “Bad Wolf” e “Torchwood” nas temporadas passadas.

The Sounds of Drums, primeiro episódio do arco se move a grande velocidade. Ele se livra rapidamente do gancho de Utopia para jogar o time da TARDIS em um mundo em que o Mestre é o Primeiro Ministro e, antes da metade da trama, a família de Martha foi sequestrada e o Doutor, Martha e Jack são fugitivos do Estado. Se os arcos anteriores usavam a primeira parte para estabelecer uma crise, aqui, a crise já está estabelecida desde o início, a ponto de, ao fim, vermos a derrota e humilhação completa do Doutor e o extermínio de um décimo da população da Terra. Apesar da ameaça do Mestre não perder peso, a primeira parte do arco está repleta de humor ácido, como o hilário (e macabro) momento em que o vilão escuta uma mulher ser brutalmente morta pelos Toclafane. Davies volta a usar a série para tecer uma sátira política, não só pela manipulação do Mestre do sistema eleitoral (reparem como a “hipnose” do vilão o fez ganhar votos sem que seus eleitores sequer pensassem em suas propostas), mas pelo retrato do presidente americano, que surge como um homem arrogante, estúpido, e tão descontrolado quanto o Mestre, em uma paródia ao então presidente George W. Bush.

Já o segundo episódio, The Last of The Time Lords apresenta uma atmosfera mais sombria, começando pela ambientação de uma Terra devastada que passou um ano sob o jugo do Mestre. A real natureza dos Toclafane surge como uma das coisas mais pessimistas já feitas na série, revelando um futuro cruel para a raça humana em um show que sempre preferiu lançar uma visão positiva sobre tal futuro. O arco volta a flertar com a ideia de uma raça humana que reconhece a vida alienígena, mas quando o Mestre causa o genocídio de bilhões de pessoas, mudando o mundo como o conhecemos, era evidente que isso seria revertido. Embora flerte com o Deus Ex Machina, a resolução da trama, com o Doutor restaurando a sua juventude com os satélites graças à história de Martha, funciona de forma orgânica dentro do que havia sido apresentado. O Doutor se erguendo todo poderoso graças ao que são (basicamente) preces conversa com a construção do Time Lord como essa figura mítica e semidivina que é parte integral da leitura de Davies da série, inclusive evocando imagens cristãs; uma abordagem que se tornaria ainda mais presente no restante do mandato de Tennant.

Percebe-se também neste arco que Davies mergulha mais profundamente na mitologia da série. Diferente dos Daleks, cuja relação de ódio com o Doutor foi concentrada na Time War, e dos Cybermen, que foram praticamente reinventados, a total compreensão da relação do Mestre e do Doutor exige certo conhecimento da Série Clássica. Entendemos que os dois têm um passado complicado de amizade e inimizade, mas não ganhamos um contexto. Isso por si só não é um problema, tendo em vista que na Série Clássica, o Mestre já surgia como um inimigo antigo do Doutor, mas o Mestre original nunca parecia levar os seus conflitos com o Doutor para o lado pessoal. Entretanto, o Mestre apresentado neste arco tem um ódio profundo pelo protagonista, e a justificativa pra quem não conhece o histórico dos dois é que o Mestre é louco. Não acredito que isso tenha alienado completamente quem conheceu o programa somente pela Nova Série, mas demonstra que Doctor Who começava a deixar para trás o seu caráter introdutório para novos fãs, incentivando o público que não conhece a Série Clássica a procurá-la, algo que se tornaria ainda mais forte nos anos seguintes.

O arco, entretanto, não é um exercício de nostalgia. O roteiro de Davies insere o Mestre de forma competente na mitologia que ele mesmo criou em torno da Time War, tornando o vilão, assim como o Doutor, um veterano de guerra que carrega os traumas do conflito e, no caso do Mestre, a vergonha da deserção. E são justamente os traumas de guerra que dão uma nova dinâmica à relação entre o Doutor e seu nêmesis, pois o Doutor passa a ver no Mestre a chance de não sentir-se mais sozinho como o último dos Time Lords; uma esperança que acaba custando caro ao protagonista.

O Mestre surgiu na série como um espelho sombrio do protagonista, alguém que o próprio Doutor poderia ter se tornado se tivesse feito escolhas diferentes. Davies retoma esta ideia ao fazer o Mestre corromper todas as crenças do Doutor e seus principais símbolos, vide a violação da TARDIS e a relação abusiva do vilão com sua esposa Lucy, que surge como um distorcido reflexo da relação entre o Doutor e suas Companions. O roteiro tenta dar algum ponto de empatia para o Mestre através dos “sons de tambores” que o vilão ouve em sua cabeça desde que foi obrigado a encarar o Vortex do Tempo quando criança, o que o teria enlouquecido . O Mestre de John Simm é um homem louco e cruel, mas também é um homem doente que sofre com a sua loucura, causada pelos Time Lords, no primeiro indício dado pela Nova Série de que o povo do Doutor estava longe de ser bonzinho. Embora apontada como exageradas por alguns, a atuação de Simm como o Mestre combina com o personagem e, por trás de toda a loucura histriônica, o ator consegue conferir alguma fragilidade ao seu vilão.

Martha, em seu arco de despedida como Companion, ganha o protagonismo que merece. Ela sobrevive sozinha por um ano na Terra governada pelo Mestre, mostrando toda a sua fibra e sagacidade, e tendo papel vital na derrocada do vilão. A estudante de medicina também se revela muito mais madura que sua antecessora em sua despedida, ao decidir deixar a TARDIS não só por si mesma, mas também por saber que sua família precisava dela depois de ter passado um ano como escravos do Mestre. Mesmo que Davies insista em evocar a memória de Rose através de uma piada do vilão, este foi um bom desfecho para a jornada da Companion nesta temporada. O retorno de Jack, por sua vez, acaba não sendo muito recompensador, já que o personagem não tem muito que fazer neste arco. Já a Família Jones (Francine em especial) ganha um desfecho interessante, mas construído de forma trôpega, fazendo dos Jones o núcleo familiar de Companion mais mal trabalhado da Era Davies.

O diretor Colin Teague lida com competência com os vários efeitos especiais do arco, criando quadros visualmente interessantes, embora algumas escolhas estéticas já não funcionem tão bem, como os Fasts e Zoom-ins usados nas cenas de envelhecimento do Doutor. Por outro lado, deve-se elogiar a equipe técnica pela concepção do diminuto Décimo Doutor envelhecido, que mesmo denunciando a sua natureza digital, é um salto enorme em relação à concepção das criaturas digitais vistas no início da série.

Apesar de ser vítima da própria ousadia em alguns momentos, The Sound of Drums/The Last Of The Time Lords ainda mantém um saldo extremamente positivo, em uma história cheia de ação, humor e momentos de pungência emocional. O arco reintroduz o Mestre como uma ameaça crível e condizente com o novo status da série e com uma história digna de despedida para Martha.

Doctor Who- 3×12 e 13. The Sounds of Drums/The Last of The Time Lords (Reino Unido, 23 de Junho de 2007/30 de Junho de 2007).
Direção: Colin Teague
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, John Barrowman, John Simm, Adjoa Andoh, Gugu Mbatha- Raw, Trevor Laird, Reggie Yates, Alexandra Moen, Colin Stinton, Sharon Osbourne, McFly, Tom Ellis, Ellie Haddington.
Duração: 95 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.