Crítica | Doctor Who – 4X01: Partners In Crime

Durante o seu tempo como Showrunner em Doctor Who, Russell T. Davies manteve uma estrutura rígida de temporada que se manteve até o fim de sua Era. Parte desta estrutura ditava que as  Premieres fossem episódios que tivessem a comédia como palavra de ordem. Partners In Crime segue essa diretriz, e na minha opinião, se torna a Premiere mais bem-sucedida da Era Davies, especialmente pelo retorno de Catherine Tate como Donna Noble, que já havia demonstrado uma química única com David Tennant no Especial de Natal de 2006 The Runaway Bride.

Escrita por Davies, a trama nos reapresenta a Donna algum tempo após o seu encontro com o 10º Doutor no Natal. Arrependida de ter recusado o convite do Time Lord para viajar na TARDIS, Donna tem rodado o mundo em busca do Time Lord e de incidentes estranhos que possam atraí-lo. De volta a Londres, ela passa a investigar uma misteriosa indústria que promete um remédio milagroso de emagrecimento que faz “a gordura sair andando; sem saber que o Doutor está investigando a mesma indústria. Quando o segredo por trás da empresa ameaça tirar milhões de vidas, Donna e o Doutor precisam correr contra o tempo para impedir o massacre.

Durante a sua metade inicial, o roteiro de Davies acompanha o Doutor e Donna separadamente, enquanto cada um investiga a empresa da vilanesca Srta. Foster e lidam com suas angústias. O texto merece aplausos por conseguir articular os seus momentos cômicos com alguns poucos trechos mais contemplativos dos personagens. Também é muito interessante como ao invés de soarem redundantes, todas as piadas envolvendo a série de hilários desencontros de Donna e do Doutor (que várias vezes deixam de perceber a presença um do outro por um triz) surgem como a construção de um crescendo que culmina na brilhante passagem em que os dois amigos, enfim, se veem à distância enquanto testemunham, escondidos, a vilã explicar o seu plano. Eles então passam a se comunicar a por mímica, gerando um dos momentos mais engraçados de toda a série.

A trama envolvendo a empresa da Srta. Foster, uma extraterrestre que pretende utilizar a gordura dos obesos britânicos para gerar bebês adiposos (um dos alienígenas mais fofos a passar pelo show), tem o elemento de bizarrice típico do programa, mas também carrega uma natureza cartunesca que combina perfeitamente com a proposta do episódio. Há também uma certa crítica as crenças de receitas milagrosas para emagrecer, apresentada de forma sardônica pelo roteiro, já que a promessa da Srta. Foster de que “a gordura sai andando” ocorre de forma bem literal, com as vítimas do remédio se desintegrando em vários pequenos adiposos.

Mas os adiposos estão ali apenas para servir de apoio a verdadeira história que Davies quer contar: o retorno de Donna Noble e sua nova parceria com o 10º Doutor. Donna se mostra uma Companion bem distinta de suas antecessoras diretas. Diferente de todas as Companheiras da Nova Série (e da maioria esmagadora das Companions da Série Clássica), Donna não é uma garota, ou uma jovem mulher, ela é uma mulher madura (bem… na maior parte do tempo), e justamente por isso, estabelece com o Doutor uma relação imediata de parceria igualitária. Além disso, Davies corrige o erro que havia cometido com Martha ao entender que nem toda companheira precisa se apaixonar pelo Doutor, e evita a sugestão de qualquer tipo de tensão romântica entre Donna e o Time Lord, diferença inclusive que serve como mais uma boa tirada do roteiro. 

O texto de Davies é muito bom, mas os devidos créditos também devem ser dados à direção de James Strong, que entrega um de seus melhores trabalhos na série. As cenas envolvendo os quase-encontros da dupla principal são coreografadas com grande cuidado, de modo a explorar todo o potencial cômico dessas passagens. As cenas de ação envolvendo os tiroteios e perseguições no prédio da empresa da vilã também são muito bem conduzidas, equilibrando o humor da história com a urgência da situação. A equipe técnica acerta igualmente ao desenvolver o sentimento de seus personagens através de bons enquadramentos, uma edição inteligente e uma direção de som cuidadosa. Reparem a passagem da cozinha na casa de Donna, em que a cena se desenrola em fast foward enquanto a futura Companion permanece sentada de forma apática, demonstrando o quanto seu encontro com o Doutor afetou o seu olhar da vida cotidiana; ou o trecho em que o Doutor analisa uma pista na TARDIS, e ao tentar dizer a alguém o que descobriu, percebe que está sozinho, o que nos é revelado através de um grande plano geral que ressalta a solidão do Time Lord naquele ambiente. Por fim, o divertido tema de Donna composto por Murray Gold para The Runaway Bride retorna neste episódio coroando o ritmo alucinante imposto por James Strong.

A química de cena de David Tennant e Catherine Tate continua única, ao mesmo tempo em que a dupla consegue desenvolver novas camadas na dinâmica entre o 10º Doutor e Donna. Tennant está ótimo como de hábito como o Doutor, e transmite de forma apropriada o conflito do Time Lord em aceitar Donna na TARDIS ou não, dividido entre o medo de machucá-la, como houve com Martha, e a alegria de ter alguém para compartilhar as suas viagens novamente. Mas o episódio pertence mesmo a Catherine Tate, que domina todas as cenas de que participa. Embora exiba com primor a veia cômica e as gags que a tornaram famosa em seu ramo, Tate também se mostra plenamente capaz de lidar com as cenas de natureza mais intimista e dramática do episódio, o que ficaria ainda mais evidente ao longo da temporada. Ainda no campo das atuações, vale mencionar o retorno de Bernard Cribbins como Wilfred (visto pela primeira vez no especial de natal The Voyage of The Damned), que é revelado como sendo o avô de Donna, que mesmo com poucas cenas, torna-se um parceiro de cena perfeito para Tate explorar o lado mais afetuoso da companheira.

Em um episódio cheio de retornos de personagens (incluindo a popular Rose Tyler, que aparece de forma enigmática ao fim da história, estabelecendo a iminência de seu reencontro com o Doutor), Partners In Crime é uma excelente estréia para aquela que se tornaria uma das temporadas mais queridas da Nova Série. Trazendo uma aventura simples, lotada de momentos hilários de nos fazer gargalhar alto, mas sem abrir mão do coração de seus principais personagens, a 4ª Temporada de Doctor Who começou de forma brilhante, e o melhor ainda estava por vir.

Doctor Who – 04X01. Partners In Crime (Reino Unido, 05 de Abril de 2008).
Direção: James Strong
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Billie Piper, Sarah Lancashire, Bernard Cribbins, Jacqueline King, Verona Joseph, Jessica Gunning, Martin Ball, Rachid Sabitri.
Duração: 50 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.