Crítica | Doctor Who – 4X02: The Fires of Pompeii

The Fires Of Pompeii se tornou um episódio muito importante na história de Doctor Who por uma série de razões. Em termos de produção, este foi o primeiro episódio da série a ser gravado fora da Inglaterra, com as filmagens ocorrendo na Itália, reaproveitando os cenários de uma produção anterior da BBC. O episódio também traz a participação de dois atores que seriam extremamente importantes no futuro do showKaren Gillan, que faz aqui uma pequena participação dois anos antes de assumir o papel da Companion Amy Pond, e claro, Peter Capaldi, que quatro temporadas depois passaria a interpretar o 12º Doutor (e a gênese daquela encarnação começa justamente neste episódio, mesmo que não se soubesse disso). Por fim, esta história pode ser vista como uma grande síntese de como o Showrunner Russell T. Davies encara o personagem do Doutor, o papel do Companion e as mecânicas de viagem no tempo da série.

Na trama, o 10º Doutor está tentando levar Donna para conhecer a Roma Antiga, mas para o horror do Time Lord, a TARDIS aterrissa na cidade de Pompeia em 23 de Agosto de 79 d.C., um dia antes da erupção vulcânica que vai destruir a cidade. O Doutor quer sair de lá o mais rápido possível, mas Donna acredita que eles devem tentar salvar o maior número de pessoas que conseguirem. Entretanto, a dupla se vê obrigada a ficar quando a TARDIS é roubada e, na tentativa de recuperá-la, acabam diante de um mistério. Cidadãos estão desenvolvendo poderes mediúnicos de previsão do futuro que parecem funcionar, mas ninguém é capaz de prever a tragédia iminente que se aproxima.

Escrito por James Moran em seu único trabalho para Doctor Who na TV, Fires Of Pompeii é um episódio que apresenta inicialmente uma atmosfera leve, muito calcada na dinâmica cômica de David Tennant e Catherine Tate, e na forma como opta representar a icônica cidade. A Pompeia mostrada aqui não tem grandes compromissos em apresentar um retrato da época, ao retratar a família de Caecilius (Peter Capaldi) como uma família tradicional contemporânea, com direito a filhos rebeldes e um patriarca acumulador que compra objetos aparentemente sem valor (a TARDIS entre eles) por puro impulso, e é nesse anacronismo comportamental que está o viés cômico do núcleo. Entretanto, a tensão estabelecida entre Dona e o Doutor sobre como lidar com a questão de Pompeia e os conflitos dentro da família de Caecilius possuem  contornos sombrios por trás da aura cômica, que vão se tornando mais dramáticos à medida em que a trama avança. Os vilões Pyroville, raça alienígena que explica os videntes de Pompeia (assim como os Adiposos do episódio anterior, vieram para a Terra após o desaparecimento de seu planeta) surgem como uma ameaça visualmente interessante, seja pela característica de Body Horror que proporcionam, já que os seus seguidores têm seus corpos lentamente transformados em pedra, quanto pela forma hilária que o Doutor os enfrenta, ao usar uma pistola d’água como arma.

Sendo este o primeiro episódio em que vemos Donna como Companion de fato, The Fires Of Pompeii passa muito tempo estabelecendo a dinâmica da dupla, que se mostra bem diferente do que o público estava acostumado com Rose e Martha. Em suas primeiras viagens ao passado, as antecessoras diretas de Donna estavam fascinadas demais diante da situação  em que estavam para questionarem o Doutor, e só com o tempo ganharam confiança para fazê-lo. Mas nos primeiros minutos do episódio, Donna deixa claro que ela não vai apenas aceitar as ordens do Time Lord sem ter uma boa razão para isso. Reforçando o ponto apresentado em The Runaway Bride, o roteiro mostra o Doutor como alguém que vê o grande esquema das coisas e sua nova Companion como alguém que se conecta com os pequenos dramas e, por isso, eles se completam. Esta é uma dinâmica que não é exclusiva de Donna, mas que é particularmente reforçada com ela, como mostra o desfecho do episódio em que a dupla atinge um meio-termo diante do dilema moral que enfrentam.

O que chama a atenção no roteiro de Moran é como ele é ilustrativo no que diz respeito à visão de Davies para o programa. Nas primeiras aventuras de Rose e Martha, elas perguntavam porque deveriam se preocupar em impedir a invasão de zumbis e bruxas alienígenas se elas sabiam que, no presente, tais criaturas não haviam dominado o mundo. Já Donna apresenta uma pergunta diferente, afinal, se o Time Lord pode impedir que os adiposos provoquem uma tragédia na Londres Contemporânea, por que não pode evitar a destruição de Pompeia? Bom, há a questão dessa destruição ser um fato, mas essa é uma explicação extra-diegética, por isso, o episódio apresenta o conceito dos pontos fixos no tempo, eventos que precisam ocorrer para que o tempo siga o seu curso. Na Era Davies, o tempo é implacável e a história não pode ser reescrita. O Doutor pode impedir Daleks na Nova York da década de 30 porque eles estão ameaçando a  História, mas não pode salvar Pompeia por que a História diz que a cidade foi destruída. O Time Lord não tem (e não deve ter) o poder para reescrever a História, mas ele tem o poder para escrevê-la. 

O clímax do episódio vê o Doutor mais uma vez diante do dilema que enfrentou ao fim da Guerra do Tempo, quando descobre que deve ser o responsável pela erupção vulcânica que destruíra Pompeia como forma de impedir que os Pyroville devastem o planeta inteiro, ou seja, o Doutor precisa cometer um genocídio para impedir outro maior. E aqui, vale destacar, como mais uma vez a figura da Companion é usada para permitir que o Doutor equilibre os seus aspectos humanos e “divinos”, pois ao mesmo tempo que Donna divide o fardo com o Time Lord de sacrificar a cidade ao apertar junto com ele o “botão da morte”, ela o convence de que diante de tamanha desgraça salvar alguém… qualquer um ainda importava, resultando no resgate de Caecilius e sua família. O episódio volta a reforçar a visão de Davies do Doutor como esta figura semi-divina, evocando imagens bíblicas na cena em que o Time Lord resgata Caecilius com a TARDIS. Mas é bom frisar que embora ilustrada por essa aura, a ação do Doutor é guiada pela compaixão humana de Donna, tirando o papel distanciado que o Time Lord poderia ter diante da situação.

Os valores de produção do episódio são dignos de nota, criando uma reconstituição muto bonita de Pompeia, com a cenografia sendo igualmente competente na construção do templo dos vilões. Ainda sobre o design de produção, vale a pena observar como o visual remetente a civilizações antigas é misturado com a estética High Tech, vide o gigante de pedra que parece usar um elmo romano, ou a placa de circuito feita de pedra. A trilha sonora de Murray Gold casa perfeitamente com a atmosfera da história, sem nunca soar intrusiva. E claro, não posso terminar essa resenha sem voltar a elogiar o trabalho da dupla Tennant/Tate, que mostram aqui que a sua química não funciona apenas no humor, e que os dois trabalham muito bem juntos nas sequências mais dramáticas, com destaque para a cena em que Donna, em lágrimas, confronta o Doutor ao fim do episódio.

The Fires of Pompeii é um dos grandes destaques de uma temporada cheia de ótimos episódios. A história estabelece a nova dinâmica da TARDIS na era Doctor-Donna de forma soberba e consegue ainda articular de maneira eficiente momentos mais leves e cômicos com trechos de caráter mais sombrio e de drama genuíno. Em resumo, um episódio indispensável para a era do Décimo Doutor, e que retroativamente, se tornaria ainda mais importante por sua relação com o Doutor de Peter Capaldi.

Doctor Who- 04×02. The Fires of Pompeii (Reino Unido, 12 de Abril de 2008)
Direção: Colin Teague
Roteiro: James Moran
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Phil Cornwell, Sasha Behar, Lorraine Burroughs, Peter Capaldi, Tracey Childs, Francesca Fowler, François Pandolfo, Victoria Wicks, Phil Davis, Karen Gillan
Duração: 45 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.