Crítica | Doctor Who – 4X03: Planet of the Ood

 

Tendo surgido pela primeira vez no arco The Impossible Planet/The Satan’s Pit, os Oods são facilmente uma das mais marcantes espécies alienígenas apresentada pela Nova Série de Doctor Who. Em sua estréia, estes seres conseguiram aliar um visual assustador com uma temática de fundo envolvendo exploração de trabalho escravo e consequente desumanização da mão de obra, o que os tornou extremamente interessantes. Mas enquanto em seu arco de estréia toda a temática envolvendo os Oods era pano de fundo para uma (excelente) história de horror cósmico, Planet of the Ood coloca a questão da exploração no centro da narrativa.

Na trama, Donna Noble conhece o seu primeiro planeta alienígena, quando a TARDIS aterriza na Ood Sphere, planeta natal dos Oods no ano 4126. Enquanto o 10º Doutor percebe que os Oods estão se comportando de maneira estranhamente violenta, a Companion está chocada pela forma com que essa espécie é cruelmente escravizada pelos humanos. Ao tentar descobrir qual é a causa da doença dos olhos vermelhos que tem tornado os Oods tão agressivos, a dupla encontrará a terrível verdade por trás dessa servidão. Escrito por Keith Temple em seu único roteiro para Doctor Who até o momento (2020), Planet of the Ood não faz questão de ser sutil em sua crítica sobre o imperialismo e a exploração. Nas cenas iniciais, vemos que a empresa responsável pelo tráfico dos Oods os trata exatamente como produtos, pensando nas melhores formas de vendê-los pra diferentes tipos de pessoas, apontando o caráter manipulador da publicidade.

É interessante como o roteiro evolui a discussão sobre a servidão apresentada na 2ª Temporada. A revelação de que os Oods não são servis por natureza, mas sofrem lobotomia da empresa Ood Operations para se tornarem assim (a mesma empresa mantém o cérebro que coordena a inteligência coletiva da espécie em um campo de estase) faz da situação muito mais urgente, mas também mais “simples” do que aquela que o 10º Doutor e Rose encontraram em The Impossible Planet. Lá, os Oods eram uma reflexão sobre a exploração e desumanização da classe trabalhadora que quase se perdia em meio a história de terror sobre o demônio e nem ganhava tanta atenção assim do time da TARDIS, apesar da empatia de Rose com estes seres (afinal, ela também pertencia a classe trabalhadora). Planet of The Ood, por sua vez, não só deixa claro que estamos falando de escravidão, como reforça o ponto de que ninguém nasce escravo ou servil, e sim é oprimido pra se tornar servil.

O roteiro também assume uma postura crítica em relação à ignorância das pessoas sobre a exploração, quando o Doutor repreende Donna por acreditar que não há escravidão no século XXI ao lhe perguntar se ela sabe quem faz as suas roupas. É uma provocação direta que ganha eco no clímax, quando respondendo a ameaça de Donna de expor na Terra o esquema de lobotomia dos Oods, o vilão afirma que a maioria dos humanos “sabe” da prática, mas não se interessam sobre a real condição dos indivíduos. É coerente, portanto que a história coloque o time da TARDIS menos como libertadores de fato e mais como testemunhas e estimuladores da libertação dos Oods, já que essa liberdade é conquistada pelos próprios Oods e pelos humanos que se negaram a fechar os olhos para a exploração da espécie. Isso não significa que a presença de Donna e do Doutor seja irrelevante na trama, tanto que sua contribuição é imortalizada em uma canção dos Oods, mas a dupla apenas acelera um processo que já estava em andamento.

O episódio continua a desenvolver a dinâmica entre o 10º Doutor e sua nova Companion, ao colocar Donna como alguém muito menos fascinada pela figura do Time Lord do que suas antecessoras diretas, como demonstrado na hilária chegada da dupla ao planeta, onde Donna está mais preocupada em vestir um casaco quente do que em ouvir o discurso do Doutor sobre descobrir novos lugares. Da mesma forma, a série continua a mostrar o quanto Donna é uma companheira capaz de questionar mais diretamente o Doutor, justamente pelo caráter complementar da relação da dupla.

Se o Time Lord pode criticar a sua amiga por não ver o grande esquema das coisas e não perceber a existência da escravidão na indústria de seu tempo, Donna também pode criticar o Doutor por não ter dado a devida atenção à opressão sofrida pelos Oods em seu encontro anterior, já que isso era uma “coisa pequena” diante da situação apocalíptica enfrentada pelo viajante em seu confronto com o Demônio. Apesar disso, a história reconhece que manter-se completamente consciente das injustiças do Universo está longe de ser algo sem custos, como observamos na triste cena em que o Doutor compartilha com Donna a canção telepática dos Oods sobre a escravidão; uma cação bela, mas terrivelmente melancólica que a Companion não consegue suportar por nem um minuto, mas que o Time Lord não consegue deixar de ouvir.

A direção do episódio ficou a cargo do veterano da série Graeme Harper, que faz um belíssimo trabalho. O diretor consegue conferir a narrativa um ar grandioso ao investir em grandes planos abertos nas cenas externas envolvendo os Oods, ao mesmo tempo em que intensifica os momentos de maior tensão da narrativa confiando em planos mais fechados que reforçam a ameaça dos Oods raivosos. As cenas de ação também são muito bem dirigidas, com destaque para a divertida e quase boba sequência em que o Doutor é perseguido por uma garra mecânica. Em outros aspectos de produção, o design de produção merece ser elogiado por utilizar um cenário relativamente simples como uma fábrica em um ambiente nevado para criar uma ambientação completamente alienígena.

Plantando sementes para o futuro, com a primeira menção do Doctor-Donna e a profecia sobre o fim da canção do 10º Doutor, Planet of The Ood é mais um episódio forte da 4ª Temporada da série, fazendo uma crítica sem rodeios contra a escravidão e a apatia gerada pelo corporativismo predatório, mas sem com isso perder o senso de diversão ou o arco de desenvolvimento de seus personagens principais. Um equilíbrio que poucos episódios com tais ambições conseguem atingir.

Doctor Who 4X03: Planet of the Ood (Reino Unido, 19 de Abril de 2008)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Keith Temple
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Tim McInnerny, Ayesha Dharker, Adrian Rawlins, Roger Griffiths, Paul Kasey, Silas Carson.
Duração: 50 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.