Crítica | Doctor Who – 4X06: The Doctor’s Daughter

Existe uma história muito interessante na origem de The Doctor’s Daughter, sexto episódio da 4ª Temporada de Doctor Who. Em 2007, em uma entrevista para promover o episódio The Lazarus Experiment, o roteirista Stephen Greenhorn afirmou que o Doutor e seu universo realmente nunca mudam. A afirmação mexeu com Russell T. Davies, já que como a grande maioria, ele afirma que a série é basicamente sobre mudanças, o que é verdade, embora entenda o argumento de Greenhorn, e não discorde dele. Como resposta, Davies encomendou ao próprio Greenhorn um episódio que promoveria uma grande mudança na série, dando ao Doutor a maior mudança que alguém pode ter na vida, um filho. A ironia é que Davies percebeu que o conceito que ele criou de uma filha para o Doutor mudaria drasticamente a visão que desenvolveu para o seu protagonista, decidindo então que o Status Quo da série deveria ser restabelecido ao fim do episódio. Claro, este seria apenas um dos problemas que torna The Doctor’s Daughter o episódio mais fraco e destoante dentro de uma das mais fortes temporadas da Nova Série.

The Doctor’s Daughter dá continuidade ao gancho do episódio anterior, quando a TARDIS desmaterializou por conta própria enquanto Martha estava a bordo. A nave aterrissa em 6012, no Planeta Messaline, durante uma guerra entre os colonos humanos e Hath. O Décimo Doutor é forçado pelos humanos a ceder o seu DNA para uma máquina de progênese, que cria uma descendente genética para o Time Lord batizada de Jenny (abreviação de Generated Anomaly). Agora, o Doutor deve se conectar com a sua filha e tirá-la do ciclo de violência que ela foi criada para seguir, enquanto tenta parar a guerra antes que humanos e Haths se destruam.

Se dar uma filha para o Doutor já é uma ideia provocativa, fazer dela uma soldada é ainda mais. Sabemos que o Time Lord pode ter problemas com militares, o que já havia sido demonstrado no arco anterior, com o 10º Doutor desaprovando a decisão de Martha de se juntar a UNIT. Aqui, uma das grandes dificuldades do protagonista em se conectar com a filha reside no fato de a garota ter o belicismo presente nela desde a sua concepção (lembrem-se, o DNA usado para criá-la foi tomado à força). Entretanto, o texto é rápido em reconhecer uma postura hipócrita por parte do Doutor na forma como ele trata Jenny. O Time Lord pode se apresentar como um pacifista, e de fato, na esmagadora maioria das vezes, ele age com a paz em mente, mas os seus métodos não são tão distantes assim dos de um soldado, mesmo que estejamos falando de um que dá grande valor à vida e evite a violência física.

A criação do mundo de Messaline e o conceito em torno da guerra entre os humanos e os Hath são dignos de nota. Há algo aterrorizante na ideia da reviravolta final de que em apenas uma semana, duas espécies sacrificariam gerações e sua própria história em nome de uma guerra que  mal lembram porque está sendo travada. Tal cenário também funciona como uma boa metáfora para a crítica anti-guerra que o episódio tenta fazer. Ainda sobre a construção de mundo, devemos elogiar o interessante Design e trabalho de maquiagem feito para os Hath, criando uma espécie visualmente interessante, e que transita bem entre momentos mais ameaçadores e mais simpáticos.

A dinâmica entre o 10º Doutor e Donna continua deliciosa, e tem grande importância no arco percorrido pela personagem que nomeia este episódio. A Companion assume uma postura maternal em relação a Jenny e é muito rápida em peitar o Doutor quando ele inicialmente renega a moça como a sua filha. É interessante observar a inversão de papéis existente aqui, pois enquanto geralmente é o Time Lord que faz os seus Companions pensarem fora do convencional, aqui é Donna que aponta ao seu amigo que suas ideias pré-concebidas do que é um Time Lord o estão impedindo de ver, que apesar do absurdo da situação, Jenny ainda é a filha dele.

Falando na Filha Do Doutor, não podemos dizer que o roteiro de Greenhorn a torna complexa, ou que o seu desenvolvimento seja livre de falhas, mas não há como negar o carisma de Jenny, que se deve especialmente ao trabalho de Georgia Moffett (que dá um sentido metalinguístico ao episódio, já que ela é filha de Peter Davison, o intérprete do 5º Doutor). Moffett vive Jenny como uma jovem cheia de curiosidade e energia, fascinada por tudo o que vê, e tendo também herdado o orgulho e senso de humor do pai. Ao mesmo tempo, a atriz não se esquece de que, apesar de ser uma soldado super treinada, Jenny ainda tem só algumas horas de vida. Assim, embora muito esperta e questionadora, a garota possui certa ingenuidade, o que a torna ainda mais carismática e natural.

Apesar das qualidades citadas acima, The Doctor’s Daughter possui falhas que o deixam abaixo da média estabelecida pela temporada. O episódio quer tratar de vários temas ao mesmo tempo, tornando a narrativa apressada. A jornada de Martha aqui só reforça algo já resolvido em The Sontaran Stratagem/The Poison Sky, que é o fato de a médica ter superado a sua paixão pelo Doutor e ter passado a valorizar mais a sua vida na Terra. Assim, a presença da ex-Companion serve apenas para expor o lado dos Hath na trama, pois no que diz respeito à  personagem, é redundante. E por mais que Jenny seja carismática, não podemos negar que o seu desenvolvimento seja truncado e colocado de forma didática. A problemática em torno da condição de Jenny como um ser de vontade própria devido à sua criação artificial programada, e o próprio significado da existência de Jenny para o Doutor como uma chance de família é jogado no texto de forma esquemática, o que incomoda bastante. O motivo que levou a TARDIS àquele planeta, resultando na criação de Jenny, também gera um mal exemplo do recurso do paradoxo temporal, quando este é usado como uma saída fácil de roteiro.

Claro, isso nos leva a questão da trama mexer com o Status Quo da série de forma profunda, para depois restabelecê-lo no espaço de um único episódio. O fato de termos uma série de subtramas como a jornada de Martha ao lado dos Hath e a própria busca pela fonte apenas reforçam a rapidez deste processo. O episódio, portanto, acaba provando o ponto apontado por seu roteirista na entrevista que originou esta história, o que está longe de ser um problema.  O problema é a história propor a mudança em algo tão essencial na visão de Davies sobre o protagonista no que diz respeito à sua solidão e isolamento como o último dos Time Lords para depois abandoná-la de forma tão apressada e pouco impactante para o resto da temporada. A própria sobrevivência de Jenny (sugerida pelo futuro Showrunner Steven Moffat) surge de forma atravessada, como um adendo posto de última hora (e foi mesmo).

The Doctor’s Daughter tem seus bons momentos, e não podemos dizer tratar-se de um episódio ruim. É uma história cheia de boas ideias, mas a sua condução apressada e muitas vezes didática acaba por sabotar suas ambições. Ainda assim, merece créditos por continuar o bom trabalho de desenvolvimento do time da TARDIS nesta temporada, e pela introdução da carismática Jenny, a filha do Doutor, vivida por uma atriz que não só faz jus ao título por ser mesmo a filha de um intérprete do Time Lord, mas que ainda se tornaria esposa de outro Doutor, ao se casar com David Tennant três anos depois deste episódio ir ao ar. Infelizmente, Jenny nunca retornou à série (pelo menos até a 12ª temporada), mas suas aventuras continuaram no universo expandido, já que viajar no tempo e espaço está mesmo no sangue dessa família.

Doctor Who 04×06: The Doctor’s Daughter (Reino Unido, 10 de Maio de 2008)
Direção: Alice Troughton
Roteiro: Stephen Greenhorn
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Freema Agyeman, Georgia Moffett, Nigel Terry, Joe Dempsey, Paul Kasey, Akin Gazi
Duração: 45 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.