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Crítica | Doctor Who – 4X08 e 09: Silence In The Library, Forest Of The Dead

por Rafael Lima
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Nos primeiros anos do revival de Doctor Who, os roteiros de Steven Moffat sempre foram grandes destaques, com histórias como The Empty Child/The Doctor Dances e Blink sendo clássicos da série. Quando Russell T. Davies anunciou que deixaria o show, a BBC automaticamente pensou em Moffat como o seu sucessor. É curioso então observar, que Silence In The Library/Forest of The Dead, arco que o futuro Showrunner escreveu para a 4ª Temporada, funciona quase como um prólogo para o seu mandato, ao começar a contar uma história que se desenvolveria por anos na série; e que fiel a sua predileção por tramas com paradoxos temporais; começa a ser contada pelo fim.

Na trama, O Décimo Doutor e Donna chegam a maior biblioteca do universo (que é literalmente do tamanho de um planeta), ao atender um pedido de socorro que o Time Lord recebeu em seu Papel Psíquico, mas encontram o local vazio. Perseguidos por estranhas sombras, a dupla conhece uma equipe de arqueólogos liderada pela misteriosa River Song, uma mulher com uma longa e profunda história com o Time Lord; mas uma história que ele ainda não viveu. Agora, o grupo precisa resolver o mistério do desaparecimento dos habitantes da Biblioteca, se quiserem sobreviver á força assassina que se esconde nas sombras.

Silence In The Library/Forest of The Dead traz todos os elementos que popularizaram Moffat na série até aquele momento. Os Vashta Nareda surgem como a ameaça que evoca um medo infantil e primal; os paradoxos temporais caros ao roteirista estão aqui presentes na relação entre River Song e o Doutor; e a aura fabular é proporcionada pela presença de uma menina que vê os eventos da biblioteca como um sonho. De muitos modos, o arco é uma grande síntese da visão de Moffat para Doctor Who.

A trama se estrutura em duas camadas; uma central, na Biblioteca, e outra periférica, que tem como palco o mundo virtual. A intercalação dos núcleos é intrigante, especialmente na primeira parte, onde há interessantes momentos metalinguísticos, já que as aventuras do Doutor na biblioteca são acompanhadas pela menina do mundo virtual como um programa de TV. Forest of The Dead brinca de forma ainda mais profunda com a metalinguagem, ao por o cenário virtual usando recursos audiovisuais como elipses em seu funcionamento. Mas ainda que traga trechos arrepiantes, o drama apresentado no núcleo virtual é pouco convincente, não tendo impacto real na trama central. 

Mas os melhores momentos do arco se encontram mesmo na biblioteca. Começando pelo conceito dos Vashta Nareda, assustador em sua simplicidade ao apresentar sombras devoradoras de carne que podem estar em qualquer sombra. Além disso, o texto traz uma série de ideias que intensificam a aura de terror da trama, tanto visualmente, como as caveiras caindo no visor dos trajes após os Vashta Nareda devorarem os seus ocupantes, quanto psicologicamente, com a ideia dos ecos deixados pelas vítimas das criaturas sendo uma das coisas mais perturbadoras que Moffat escreveu para a série. 

O arco tem grande importância por introduzir River Song, uma personagem que seria vital para a série nos próximos anos. Moffat parece ter buscado inspiração para a criação de River em Benny Summerfield, Companion do universo expandido; que tal como Song é uma arqueóloga audaciosa, sexualmente liberal, e que teve um affair com o Doutor. Muito do sucesso de Song se deve ao charme que Alex Kingston concedeu ao papel, aqui em uma atuação muito mais contida do que em suas aparições posteriores, o que faz sentido quando lembramos que esta é uma River mais madura e responsável.

Um ponto instigante na relação de River e do Doutor é o aspecto não-linear desenvolvido no texto pelas reações emocionais do casal diante da dessincronização. O paradoxo explora a mentalidade alienígena do Doutor, quando sua postura desconfiada em relação á River muda ao ouvir o seu nome ser dito por ela em seu ouvido. É o que basta para ele saber o quão importante ela será para ele, o que se reflete no desfecho, onde o Doutor corre para salvar não só uma vida, mas alguém de quem é intimo, um salto emocional que só a mente não-linear do viajante do tempo poderia fazer.

O desfecho traz um aspecto da escrita de Moffat que seria muito criticado nos anos seguintes, que é a sua predileção por criar trágicos sacrifícios só para suaviza-los com saídas milagrosas. Esse otimismo é parte integral da forma como ele enxerga o show e seu protagonista, um homem impossível que nunca vai parar enquanto não der às pessoas algum final feliz. A “reversão” da morte de River funciona dentro do paradoxo temporal proposto pelo arco, mas visto em retrospecto, gera certo incômodo por prenunciar a incapacidade de Moffat de lidar com as tragédias que propõe.

Ainda que este seja um arco muito bom, ele acaba sendo a história mais fraca de Moffat na Era Davies, por apontar mais para o futuro do que para o presente, o que pode ser percebido pela forma como Donna é usada. O roteiro prenuncia o fim da jornada da Companion através de uma reação de River, mas tirando isso, Silence In The Library dá pouco para a companheira fazer, focando-se na arqueóloga, o que não é um problema. O incômodo vem com o conflito criado para Donna em Forest Of The Dead, onde após ser “salva” no mundo virtual, passa a viver uma vida perfeita, onde é casada e tem dois filhos. Não há problema que o sonho de uma mulher seja casar e ter filhos e o casamento é um elemento importante na jornada de Donna (sua história começa e termina com um). Mas desde que foi reapresentada no início da temporada, a Companion mostra aspirações diferentes das da noiva vista em The Runaway Bride. Assim sendo, diante do caminho percorrido pela personagem na temporada, o seu mundo perfeito soa um pouco incoerente com a sua trajetória até aqui.

A direção do arco ficou a cargo do veterano Euros Lyn, que faz um excelente trabalho. A primeira aparição dos Vashta Nareda, onde as luzes da biblioteca começam a apagar, praticamente perseguindo o Doutor e Donna pelos corredores é assustadora e estabelece de forma simples o tom do arco. A fotografia e a direção de arte também merecem elogios, não só pelo bonito contraste feito entre o ambiente da Biblioteca, cada vez mais escuro e cheio de sombras à medida em que a narrativa avança; e o ambiente do mundo virtual que traz cenários mais clean onde predominam a cor branca e um desenho de luz levemente estourado, reforçando o caráter onírico do lugar.

Silence In The Library/Forest Of The Dead mantém a excelência dos roteiros escritos por Moffat na era Davies, plantando sementes que seriam exploradas nos anos seguintes da série ao apresentar uma de suas personagens mais queridas. Entretanto, os trechos situados no mundo virtual, embora busquem a pungência emocional, não só ficam abaixo das excelentes passagens estreladas pelo Doutor e River na Biblioteca, mas não condizem com a jornada de Donna na temporada. De fato, em comparação as outras histórias escritas por Moffat até então, o arco sente-se um pouco solto em relação ao resto da temporada. Entretanto, como todas as histórias de Moffat na Era Davies são clássicos, este arco ficar atrás delas não nega o seu ótimo nível, e só por introduzir River Song e estabelecer a sua divertida relação com o Doutor, já merece aplausos.

Doctor Who 4X08 e 09: Silence In The Library/Forest Of The Dead (Reino Unido, 31 de Maio de 2008; 07 de Junho de 2008)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Alex Kingston, Colin Salmon, Eve Newton, Mark Dexter, Sarah Niles, Josh Dallas, Jessika Williams, Steve Pemberton, Talulah Riley, O-T Fagbenle, Harry Peacock, Jason Pitt
Duração: 90 Minutos

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