Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – 4X11: Turn Left

Crítica | Doctor Who – 4X11: Turn Left

por Rafael Lima
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No episódio anterior, Russell T. Davies entregou uma história com participação mínima da Companion, que entre outras coisas, ressaltava a importância do companheiro dentro da série. Com Turn Left, Davies apresenta a situação oposta; um Doctor Lite, estrelada por Donna com participação mínima do Doutor; um complemento ao capítulo anterior, que explora as consequências de um mundo sem o Time Lord. Na trama, ao visitar um mercado alienígena ao lado do Décimo Doutor, Donna consulta uma cartomante que lhe pergunta sobre o evento que mudou a sua vida, o seu casamento fracassado em The Runaway Bride, onde ela conheceu o Doutor. Mas quando a Companion lembra que isso só ocorreu devido a uma decisão aparentemente pequena que ela tomou meses antes, quando pegou a estrada da esquerda em uma encruzilhada, uma criatura pula em suas costas, fazendo-a viver uma vida onde ela pegou a direita.

Escrito por Davies, Turn Left tem como princípio a famosa Teoria do Caos, onde uma pequena ação pode provocar consequências gigantescas. Donna, por escolher um emprego diferente, faz com que ela nunca tenha se tornado parte dos planos da Imperatriz Racnoss em The Runaway Bride, portanto, nunca conhecendo o Doutor, o que resulta na morte do Time Lord durante aquela história. Ainda que seja uma trama que ressalta a importância do Doutor, o roteiro também destaca o papel vital do Companion já que o Doutor só morre porque sua companheira de ocasião não estava lá para chamá-lo à razão. Tal como em Midnight, Davies defende que os Companions tornam o Doutor alguém melhor, mas por outro lado, Turn Left deixa claro que a recíproca é verdadeira. 

A 4ª Temporada de Doctor Who teve certo caráter celebrador, trazendo constantes referências ao então passado recente da série. Turn Left torna essas homenagens mais flagrantes, ao revisitar aventuras anteriores do 10º Doutor, mostrando como elas teriam se desenrolado se o protagonista não estivesse presente. É interessante observar que a maioria das histórias que Davies escolhe revisitar eram aventuras relativamente leves e inofensivas; mas elas só eram leves e inofensivas por que o Doutor estava lá. Sem ele, todos os presentes no hospital no divertido Smith And Jones morrem, excetuando um sobrevivente, salvo pelo sacrifício de Martha. Os adoráveis adiposos causam milhões de mortes nos Estados Unidos, que surge como a sua segunda opção após Londres ser devastada pela queda do Titanic em Voyage of The Damned. E o nostálgico The Sontaran Stratagem/The Poison Sky se torna o começo do fim do nosso planeta. A ausência do Doutor transforma a natureza desses episódios, mas o legado do protagonista se faz presente com citações aos heróis de The Sarah Jane Adventures e Torchwood, que nesta realidade, se sacrificam nas aventuras originalmente vividas pelo Time Lord para evitarem tragédias maiores. A citação direta aos Spin Offs não é gratuita, e conversa com o tom de celebração da reta final da temporada, tendo em vista que nos anos em que esteve à frente do show, Davies não só tornou Doctor Who relevante de novo, como criou um pequeno universo televisivo em torno dele, algo que seria ainda mais destacado na Finale.

Turn Left, entretanto, não é só um episódio sobre como o universo desaba sem o Doutor. Ele também é um episódio sobre a visão das pessoas comuns sobre grandes eventos que mal conseguem compreender, representada aqui por Donna e sua família. O roteiro acompanha o lento colapso da Inglaterra (e possivelmente do mundo) através dos olhos dessa família, que acompanha tudo através de relatos ou matérias de TV. Davies sempre se interessou pela visão da pessoa comum diante de eventos fantásticos, e tal característica volta a aparecer aqui. Durante a maior parte da trama, Donna se mantém uma observadora passiva diante do fim do mundo, que conta inclusive com o Reino Unido assumindo uma política fascista após a morte da família real na queda do Titanic.

Donna só assume um papel ativo a partir do 3º ato, quando temos a primeira aparição completa de Rose Tyler nesta temporada, após algumas pontas. O surgimento de Rose é interessante, mas pensado em retrospecto juntamente com a sua participação subsequente no fim da temporada, parece algo não muito bem amarrado. Ela ressurge emulando muito do mistério e até mesmo dos maneirismos que cercam o Doutor, o que é coerente com o fim de seu arco na 2ª Temporada, onde ela se tornava cada vez mais parecida com ele. Mas a devoção que Davies parece ter em relação à Companion irrita, já que o Showrunner nitidamente a trata como a companheira definitiva, lhe dando um caráter Deus Ex Machina que acaba respingando na conclusão. A ideia de Donna se sacrificar para fazer a sua versão passada virar à esquerda é instigante, mas falta delicadeza no texto para lidar com os elementos do paradoxo temporal sem fazer com que pareça uma solução tirada da cartola.

Tate faz um bom trabalho ao viver uma versão levemente diferente de Donna: mais insegura e auto centrada. O roteiro propõe um retorno à forma como a companheira foi vista em sua estreia, onde ela era uma mulher tão absorvida na própria vida, que não percebia as invasões alienígenas ao seu redor. Sem a influência do Doutor, ela manteve tal perfil, mas Davies o aborda de forma mais simpática, com Donna esforçando-se para dar à sua família algum senso de normalidade diante do caos cada vez maior no Reino Unido. Tate dá grande intensidade ao arco desta Donna alternativa ao representá-la como uma mulher ainda mais “comum” que a nossa Donna, sacrificando-se não por ser contagiada pela confiança e pelo espírito de aventura do Doutor, mas por seus próprios termos. Billie Piper, por sua vez, consegue tornar Rose reconhecível, ainda que o texto conceda à ex-Companion uma sabedoria ausente na última vez que a vimos, sugerindo fortemente que ela de fato viveu as suas próprias aventuras. Essa é uma Rose um pouco diferente daquela que conhecemos, sendo uma mulher bastante pragmática sobre aquilo que precisa ser feito, mas sem com isso perder o seu senso de empatia. Entretanto, sinto que Piper encontra dificuldades em articular a sua visão muito humana de Rose com a personagem quase onisciente apresentada pelo roteiro.

A direção ficou a cargo do veterano na série Graeme Harper, que entrega uma direção relativamente burocrática, mas que se mantém fiel à proposta do roteiro de apresentar uma série de eventos catastróficos do ponto de vista de cidadãos comuns, utilizando uma decupagem que sempre parece mostrar o que ocorre à distância. Nesse sentido, a montagem do episódio, embora discreta, mostra grande eficiência ao assumir o ponto de vista de Donna desse mundo cada vez mais caótico.

Turn Left é um episódio interessante, que apesar de sua atmosfera sombria e opressiva, celebra tanto a figura fantástica do Doutor, quanto a figura da pessoa comum, representada aqui por Donna, que tenta fazer o seu melhor dia após dia, apesar das adversidades e de suas próprias imperfeições. O episódio se encerra com um gancho deixando o público pronto para o reencontro entre o 10º Doutor e Rose na Finale, além de servir como aperitivo para a rodada de homenagens que a Nova Série prestaria a si mesma com o começo do fim da era Davies.

Doctor Who- 4X11: Turn Left (Reino Unido, 21 de Junho de 2008)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Billie Piper, Bernard Cribbins, Jacqueline King, Joseph Long, Noma Dumezweni, Chipo Chung, Marcia Lecky, Natalie Walter, Clive Standen, Bhasker Patel
Duração: 49 min.

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