The Name Of The Doctor, episódio que encerra a 7ª Temporada, entende que parte do apelo da série é a aura de mistério que cerca o seu herói, mas também sabe que se trata de um falso mistério, pois o público conhece bem o Doutor, e sabe tudo o que precisa saber sobre ele. Temos aqui uma Finale divertida e atmosférica, que funciona bem tanto como a conclusão da temporada do quinquagenário, quanto como desfecho do mistério envolvendo Clara. Na trama, uma profecia aponta que o Doutor irá encontrar o seu fim no Planeta Trenzalore, em uma batalha que levará à queda dele. Quando a Paternoster Gang é sequestrada pela Grande Inteligência, uma entidade que possui uma rixa milenar com o Doutor, o Time Lord deve viajar com Clara a um local onde nenhum viajante do tempo deveria ir, o seu túmulo. Lá, o Doutor precisará revelar um de seus maiores segredos para salvar os amigos, enquanto o mistério da Garota Impossível enfim é revelado.
The Name Of The Doctor é um episódio que provoca o espectador desde o título, ao sinalizar a possibilidade de uma trama que gire em torno do real nome do Doutor. É uma provocação válida em uma história que prepara o terreno para o especial de 50 anos. A própria abertura, onde Clara aborda o 1º Doutor em Gallifrey, remete tanto ao aspecto celebratório quanto de exploração dos mitos do show que a trama evoca. Mas o roteiro de Steven Moffat está só brincando com as expectativas, já que o tom celebratório e nostálgico é logo abandonado para adotar um tom fúnebre. Essa, afinal, é uma trama sobre um homem que viaja para o seu túmulo, junto de uma moça que ele viu morrer, e do fantasma da esposa. Mesmo o antagonismo do Doutor com o vilão evoca mais um passado morto e esquecido do que um retrato direto da rivalidade particular entre esses dois. De fato, enquanto o passado da entidade com o Doutor é mantido vago, o antagonista é retratado como alguém fixado no passado. O vilão não só assume a forma de um morto, mas está obcecado em descobrir o nome do Doutor, um dos supostos segredos da série, para entrar na tumba do protagonista e voltar no tempo para transformar as suas vitórias em derrotas. A obsessão do vilão com segredos do passado é refletida na própria postura do Doutor em relação a Clara ao longo desse ciclo, que viu o Time Lord fixado em descobrir a verdadeira natureza da Companion, crendo que ela era mais do que dizia ou parecia ser.
A força de The Name Of The Doctor está no fato de o episódio rejeitar essa narrativa. O passado ainda tem influência no futuro, pois a ideia do paradoxo temporal, tão cara ao produtor, depende de passado e futuro se misturarem, mas o que torna Clara especial não é um segredo, e sim ela ser uma pessoa boa. E é por esse caminho que a Finale assume o seu tom celebratório. Dentro do que é um episódio majoritariamente sombrio, a trama reconhece que, apesar das acusações que o vilão faz ao Doutor de ser uma força destrutiva, ele principalmente desperta o melhor nas pessoas. Quando a Grande Inteligência infecta a linha do tempo do Doutor, matando-o em diversos pontos da história da série, Vastra é rápida em apontar o cenário desolador que é um universo sem o Time Lord.
Mas, ainda que o episódio não se furte de mostrar o macro dessa ausência, ao vermos estrelas se apagando no céu, é no micro que a trama se foca. Sem o Doutor, Jenny morre, e Vastra perde o seu grande amor. Sem o Doutor, Strax não evolui como pessoa e perde a individualidade que adquiriu, passando a ser só outro Sontaran psicótico. Não é que o Doutor simplesmente salve as pessoas, ele as salva para que tenham a chance de serem pessoas melhores. Essa é uma lógica que se aplica também aos Companions, que fazem esse resgate justamente com o próprio protagonista. Nesse sentido, a trama usa a jornada de Clara mais como função simbólica do que propriamente como arco de personagem, já que quando a moça se sacrifica ao se jogar na linha do tempo do Doutor e se torna efetivamente A Garota Impossível, salvando diversas encarnações do personagem da Grande Inteligência, ela está, simbolicamente, representando todos os Companions da história do programa. Clara se torna especial porque o Doutor acreditou que ela era especial, ou seja, ao nível simbólico, nunca houve um mistério, pois Clara não é mais especial do que qualquer outra pessoa que o Time Lord confiou para viajar ao seu lado ao longo da história da série.
O que nos leva ao próprio Doutor. Em um dos momentos mais intensos do episódio, A Grande Inteligência usa os seus espectros para ameaçar os amigos do Senhor Do Tempo enquanto pergunta ameaçadoramente: “Doctor Who?”, apontando essa como a pergunta suprema do universo. Mas, como o Doutor aponta na conclusão do episódio: “Meu o nome não é o ponto. O nome que eu escolhi é Doutor“; ou seja, também não há mistério aqui. Não há um ponto de interrogação no fim do título da série, pois sabemos quem é o Doutor. Ele é o Doutor. E é com base nisso que Moffat faz um movimento ousado ao propor um retcon, que revela uma encarnação secreta do Doutor, vivida por John Hurt. O roteiro baseia esse retcon na definição por negação. Moffat nunca se sentiu confortável com o Doutor sendo responsável pelo genocídio da própria espécie, logo, a criação do War Doctor, como passou a ser chamado, parte do princípio de que alguém capaz disso não se encaixa na identidade do Doutor, sendo, portanto, um personagem diferente daquele que conhecemos, pelo menos na visão de Moffat. Embora tenha surgido da necessidade de criar uma encarnação do Doutor que tenha sido responsável por encerrar a Time War depois que Christopher Eccleston recusou o convite para retornar como o 9º Doutor no especial de 50 anos, Moffat encontrou uma solução inteligente com a criação de seu “Doutor secreto”, não só por ele dar significado simbólico a isso, ao definir quem é o protagonista às portas do cinquentenário, mas operar esse retcon sem agredir o passado do show.
Em seu último trabalho na série até o momento da escrita desta crítica (2026), o diretor Saul Metzstein consegue imprimir toda a atmosfera sombria que o roteiro de Moffat sugere, enquanto a equipe de edição dá um ótimo ritmo para o episódio, mas sem nunca sabotar as tintas de suspense dramático que a história exige, e ainda fazendo os momentos de alívio cômico do texto surgirem naturalmente em tela. A direção de arte do episódio também é um show à parte, vide o cemitério que cerca a tumba do Doutor, e a própria concepção da sala de controle abandonada e arruinada da TARDIS. A equipe de efeitos especiais, por sua vez, merece créditos por dar vida a algumas das ideias audiovisuais mais loucas do roteiro, vide a TARDIS gigantesca que se torna a tumba do Doutor, e a linha do tempo do protagonista que está no lugar de seu corpo, cheia de ecos de encarnações passadas do personagem. Quanto à recriação de Doutores antigos, a abertura com o encontro de Clara com o Doutor de William Hartnell com certeza foi impressionante para a TV de 2013, mas o mesmo não pode ser dito sobre as inserções de Clara e da Grande Inteligência em outros momentos da série, em um trabalho de Chroma Key e de dublês de corpo que acaba sendo um pouco gritante demais.
É curioso observar como The Name Of The Doctor acabou se tornando uma história mais influente do que lhe dão crédito. Afinal, toda a ideia da existência de “doutores secretos” foi um dos pilares do (horrível) retcon da Criança Atemporal proposto na era de Chris Chibnall, enquanto a saga de Ruby Sunday na 2ª Era Davies deve muito ao arco da Garota Impossível que é concluído nesse episódio. Nenhuma dessas duas investidas foi bem-sucedida por razões que tomariam espaço demais aqui para apontar, mas ainda assim é interessante observar como o trabalho de Moffat influenciou os seus sucessores, mesmo que as lições erradas tenham sido aprendidas.
The Name Of The Doctor é um episódio que muitas vezes acaba ofuscado pelo especial de aniversário de cinquenta anos e pela história de regeneração que o sucedeu, mas é uma história muito bem contada, que sabe provocar o público com segredos de mitologia da série, mas expõe respeitosamente que o cerne da série não é sobre isso, e ainda faz acréscimos à mitologia da série que realmente querem dizer alguma coisa ao invés de existirem por existir. Um bom fechamento para uma temporada que começou confusa, mas encontrou o seu rumo, e um ótimo encaminhamento para o fim do mandato de Matt Smith no comando da TARDIS.
Doctor Who- 7X13: The Name Of The Doctor (Reino Unido. 18 de Maio de 2013)
Direção: Saul Metzstein
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Alex Kingston, Richard E. Grant, Neve Mclntosh, Catrin Stewart, Dan Starkey, Eve De Leon Allen, Kassius Carey Johnson, Nasi Voutsas, David Avery, Michael Jenn, Rab Affleck, Samuel Irvine, Sophie Downham, Paul Kasey, John Hurt
Duração: 44 Minutos
